Olá, meus pantagruélicos coimbrinhas.
Hoje deixamos os limites urbanos da cidade. Rumamos ao campo. Atravessamos o túnel da
Estação Velha, entramos na EN-111 e, finalmente, estacionamos em São Silvestre. Destino:
Dom Franguito.
Primeiro, não se deixem assustar pelo nome. Porque, se assim fosse, o Inovação (onde é que
ela já vai) Cabeleireiros nunca completaria 31 anos, como fez esta semana.
O nome pode ser provinciano, pacóvio e básico. Mas o que é que nós pretendemos num
frango? Exatamente essas três qualidades, criado no campo, longe das grandes produtoras
multinacionais e descomplicado. O resto parte de quem o confeciona.
Mas vamos passo a passo.
Além do costumeiro cesto do pão, manteiguinhas, patés de sardinha e atum e azeitonas, a
entrada deve iniciar-se pelas esplêndidas Enguias Fritas com Molho.
Uma travessa repleta de enguias com o tamanho certo. Nem muito pequenas em que somente
se sente a espinha a quebrar sem qualquer carne que lhe sirva de suco, nem demasiado
grandes que torna desconfortável aquele ato primário de, antes de tudo, abocanhar o
cocuruto deste fisóstomo murenídeo. Estão a ver um papa-reformas naquela esquina da Rua
da Ilha ao Largo da Sé velha? É isso mesmo, a medida exata. Nem mais nem menos.
As enguias vêm ainda com um maravilhoso molho, espoletador de AVC’s, que tanto podemos
afundar na molheira deixando o seu dorso luzidio, como apenas salpicar ao de leve para sentir,
a cada dentada, o polme e a coluna do peixe a quebrarem deliciosamente.
Poderá ser difícil justificar uma deslocação unicamente para nos regozijarmos a saborear
frango, mas não tão difícil como a Câmara justificar um investimento de quase meio milhão de
euros num concerto e ainda carregar em si o ónus da mudança de um relvado, de um estádio
que nem sequer é por si gerido.
No entanto, fica mais fácil esclarecer quando nos deparamos com o manjar defronte.
Esqueçam o Ramires, esqueçam o Teodósio, este é daqueles casos em que o aprendiz superou
o mestre. Este é o melhor Frango à Guia do país!
Sempre tostado no ponto, com quebradiça e braseada pele, envolvendo os pequenos pedaços
da sumarenta carne, embebida no mais sensato e ponderado dos molhos, este frango é um
pecado que vira absolvição ao prová-lo, é a redenção absoluta, o derradeiro Frango à Guia.
Mas ele não se faz só, devemos ladeá-lo dos dourados palitos de batata e da sempre
refrescante Salada Montanheira, tomate, cebola e pimento aos cubos temperados com
orégãos, azeite e sal.
A acompanhar, não façam como o Vila Galé que vai fazer o pessoal pagar por uma refeição ao
som do Fernando Pereira no dia 27 deste mês, escolham antes cerveja ou o vinho da casa, de
preferência branco.
Tal como em Coimbra temos escolha entre dois cafés meritoriamente inclusivos das pessoas
com deficiência intelectual – a já conhecida Casa de Chá do Jardim da Sereia e, agora, o Café
Koala na António José de Almeida – aqui também é possível optar a quem não nutre tanta
empatia pelo churrasco da ave galinácea.
Pode sempre escolher pelo Arroz de Cabidela com Galo Caseiro que, não sendo uma
especialidade da casa, não deixa de ser muito apreciado e, por várias vezes, servido de
antecâmara do prato principal.
Para finalizar, eu inclino-me sempre para o Doce da Casa, ou não fosse este um restaurante de
tijoleira. Se quiserem optar por uma extravagância, escolham o Manjar de Coco, a Delícia
Algarvia de Amêndoa ou visitem a exposição de Ragnar Kjartansson, “não sofras mais”, no
Mosteiro de Santa-Clara-a-Nova até ao dia 16 de julho.
E se dúvidas houvesse quanto ao tremendo sucesso desta casa, ficam a saber que encerra aos
sábados. Pois claro, quem pode, pode.
Pantagruélicas saudações, meus coimbrinhas.
