Olá, meus pantagruélicos coimbrinhas.
Cidade de tradições e cidade tradicional, conservadora até, Coimbra conseguiu, nos últimos anos, conjugar o moderno com o clássico no que à gastronomia diz respeito.
Vários estabelecimentos surgiram com a promessa de aliar o reconfortante prato da Avó com o conforto e toque do hodierno. A atualidade a passar suavemente as suas mãos sobre a face da história.
Assim um pouco como a famosa estátua de D. Afonso Henriques que ocupou as parangonas das últimas semanas. Neste caso a modernidade abraçou de tal forma a história, que acabou por a asfixiar. Vale-nos saber que afinal é um presente para oferecer aos espanhóis. O nosso cavalo de Troia.
No entanto, regressando ao que nos traz aqui, nenhum outro o fez como o restaurante no Tacho, que se pode orgulhar ainda de, estando numa zona maioritariamente turística, ser também objeto de procura dos conimbricenses.
Para início, não há que alongar muito os olhos na carta, decidimo-nos quase que de imediato pelos Croquetes de Vitela Marinhoa e Fumeiro do Barroso. Trás-os-Montes e Beira Litoral em noite de núpcias. Neste croquete está, em parte, a fundação da nação.
Porém, para partilhar devemos debruçar-nos na Tábua de Queijos: Queijo de Cabra, Queijo de Ovelha, Queijo de Ovelha e Alecrim da Beira Baixa, Queijo Amarelo (compota de Laranja e Vinho do Porto, banana, marmelada e nozes). Enfim uma refeição! Não víamos tanta variedade numa tábua desde os Dez Mandamentos.
Depois, optem pelo Cachaço de Vitela Marinhoa DOP e preparem-se para ir à lua e voltar. Poderá não ser como a Active Space Technologies, empresa da área espacial com sede em Coimbra, que desenvolveu uma tecnologia para a sonda JUICE, lançada em direção a Júpiter, mas as sensações andarão lá perto.
Cozinhada 30 horas no forno a baixa temperatura, com Batata Assada com Alecrim,
Espargos e Cebola Caramelizada.
Sabem quando falo em carne de comer à colher? É esta.
Há, no entanto, a obrigatoriedade de se enodoarem com o Arroz (do Mondego) de Fumeiro. Aliás, é outra das grandes qualidades deste restaurante, ter conseguido, antes de se tornar moda, o uso regular e efetivo de produtos locais na confeção dos seus pratos.
Profusamente adubado com todos os enchidos que nos fazem questionar o dia seguinte (Barriga Fumada, Chouriça de Carne, Cebola, Sangueira e Chouriça de Abóbora), o Arroz de Fumeiro do no Tacho é Portugal numa garfada. É sentir a cada grão de arroz o gorgolhar do Mondego, a cada dentadinha na negra sangueira o encoberto vento transmontano na face e a cada debicada na acre
chouriça o recorte das altas serras.
Após tal lauta refeição, nada como encerrar com chave de ouro uma desempoeirada sobremesa – qual Ivete Sangalo a levantar o pé do chão em pleno Queimódromo – com um Pudim de Gemas e Vinho do Porto.
Sejamos honestos, o Pudim é muito próximo do Abade de Priscos, mas sem nunca lhe vestir o hábito.
Ficou-me somente o espanto, ou talvez distração minha, de não ter posto vista em cima ao Morgado do Bussaco, pois foi neste estabelecimento que o aprendi e, se a memória não me atraiçoa, como sobremesa premiada.
Tal como Bruce Dickinson, nobilíssimo vocalista de Iron Maiden, que será orador
convidado na quarta edição do Wine Future, a realizar-se de 7 a 9 de novembro no Convento de São Francisco, também aqui terá sempre alguém para lhe sugerir a dionisíaca harmonização com o que lhe vai no prato.
Aqui não há Cozido à Portuguesa Desconstruído, sobre cama de Puré de Espargos e Laranja Washington, ladeado por Cenoura com Leite de Pinhão, encimado por Ovo BT.
Não, no Tacho não há lugar a descritivos enciclopédicos, nem a coimbrinhas presunções. Há somente lugar para o que conta, a comida.
Pantagruélicas saudações, meus coimbrinhas.