A utilização de jargão técnico e a falta de plataformas acessíveis e ferramentas que façam a ponte entre os centros de investigação e a comunidade têm sido genericamente apontados como desafios da comunicação de ciência. Na Universidade de Coimbra (UC), existem diversos centros que se dedicam à promoção da Ciência, como o Rómulo, o UC Exploratório ou o CNC-UC, que desenvolvem projetos de comunicação de ciência para envolver mais o público não académico.
Este desafio global inspirou, em 2011, a criação da SoapBox Science no Reino Unido, uma iniciativa de divulgação científica que promove, em diferentes espaços públicos, o trabalho feito por mulheres cientistas. Hoje em dia, a SoapBox Science está presente em 16 países, incluindo Portugal, que acolhe o evento desde 2022, em Coimbra.
No dia 22 de novembro, a Baixa de Coimbra foi palco da terceira edição da SoapBox Science Coimbra, organizada pela UC. Durante o evento, 14 investigadoras de diversas áreas apresentaram à comunidade as suas pesquisas de forma acessível, subindo a uma caixa de madeira, em três locais icónicos: Café Santa Cruz, Gelataria Cosi e Edifício Chiado. Os temas abordados variaram entre a neuroplasticidade e violência obstétrica, aproximando a Ciência da comunidade.
A importância do trabalho científico produzido por mulheres

Por volta das 10h40, com uma plateia constituída, na sua maioria, pelas outras cientistas que iam participar no evento, Joanna Sievers, estudante de doutoramento, subiu à caixa de madeira com o tema “Flores comestíveis para melhorar sintomas de autismo”. Para a doutoranda, a SoapBox Science Coimbra é uma oportunidade para enaltecer o papel das mulheres na Ciência e aproximar a pesquisa da comunidade, fora dos muros da Universidade.
Com a sua apresentação, Joanna quis transmitir que “a pesquisa científica está muito próxima de todos”, uma vez que, os cientistas estão “sempre a pensar em hipóteses de pesquisa que possam contribuir para melhorar a vida das pessoas”.
Um impacto positivo que muda mentalidades

A terceira apresentação foi conduzida por Samira Ferreira, investigadora doutorada, que abordou o tema “É o envelhecimento cerebral inevitável?”. Para a cientista, a motivação foi o contacto com o público, pois “é muito importante divulgar a nossa Ciência e mostrar que o que fazemos pode ser impactante na nossa qualidade de vida”. Apesar de lamentar a ausência de um público maior, a investigadora considera que este eventos têm impacto porque mostram à comunidade que as mulheres também podem ser cientistas e alcançar sucesso, e quis demonstrar que “a investigação está a contribuir para melhorar os cuidados ao longo da vida para manter o cérebro ativo”.
“Antigamente as crianças desenhavam o Einstein, mas, atualmente, já começam a desenhar mulheres cientistas, porque as mulheres vêm para este tipo de evento e mostram o que estão a fazer”. (Samira Ferreira)
A necessidade de criar espaços onde as mulheres são ouvidas

Cristina Padez, docente no Departamento de Ciências da Vida, falou sobre “Porque somos obesos?”. Ressaltou que é dever dos investigadores retribuir à sociedade, especialmente ao utilizar recursos públicos e que este tipo de eventos contribui para uma maior visibilidade das mulheres na Ciência: “infelizmente, as mulheres cientistas ainda são um bocadinho invisíveis”.

Sofia Madeira, investigadora e docente, iniciou as apresentações da tarde ao falar sobre o tema da violência obstétrica, considerado “tabu, sobre o qual as pessoas não falam dentro de casa”. Destacou o impacto positivo do diálogo com a comunidade e, tal como outras participantes, sublinhou a importância de criar espaços onde as mulheres cientistas sejam ouvidas.
Ao longo do dia, a audiência permaneceu maioritariamente composta pelas outras investigadoras, tendo sido poucas as pessoas que passaram pelo local e se interessaram para ouvir as apresentações, um facto que Sofia Madeira também lamentou.
O que pode ser melhorado?
Segundo Rita Martins dos Santos, elemento da organização do Soap Box Science Coimbra, o momento mais alto da atividade foi no Edifício do Chiado, onde, ao contrário do observado ao longo do dia, a iniciativa alcançou um público de cerca de 30 pessoas.
Porém, reconheceu a fraca adesão da comunidade à iniciativa ao longo do dia e apontou como motivos o mau tempo e a falta de disponibilidade das pessoas, por causa das suas ocupações diárias. Além disso, acha que a comunicação não consertada também contribuiu para a fraca adesão nos momentos no Café Santa Cruz e na Cosi.
“O público tem tendência a fugir da Ciência por desconhecimento. O caminho da comunicação de ciência também é chegar ao público mesmo que ele se queira afastar por achar que, por não ser da área, não vai perceber o que se está a passar”. (Rita Martins dos Santos)
No sentido de corrigir as falhas desta edição e atingir um público maior, estão a ponderar, no futuro, realizar um trabalho mais direto com escolas, além de repensar outros aspetos, como o dia ou os locais escolhidos, que também podem ter influenciado na falta de público durante as apresentações.

