A 15 de outubro de 2025, a Universidade de Coimbra (UC) apresentou o projeto de requalificação do Polo II, cofinanciado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O objetivo é incluir mais espaços verdes e um equipamento desportivo dedicado à modalidade de padel. Seis meses depois, a 17 de abril de 2026, o contrato público da empreitada, adjudicada à Marsilop – Sociedade de Empreitadas, S.A., foi divulgado no Portal BASE. O complexo desportivo vai ser composto por seis campos cobertos de padel, balneários e uma estrutura de apoio com bar, com o custo de 738.890,53 euros, ao qual se acresce 169.944,82 euros de IVA à taxa de 23%, totalizando 908.835,35 euros.
Perante um panorama de dificuldades experienciado por modalidades desportivas da UC e da Associação Académica de Coimbra (AAC), a Coimbra Coolectiva solicitou esclarecimentos formais à reitoria quanto à construção deste equipamento. Foi clarificado que o custo estimado de 1,5 milhões de euros para a requalificação do Polo II se mantém após a assinatura do contrato público e que a construção do complexo, já em execução, será realizada por fases e finalizada ainda em 2026. No entanto, não foi possível esclarecer qual a percentagem do valor que vai ser comparticipada pelo PRR.
Segundo Edmundo Monteiro, diretor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, em entrevista ao Diário de Coimbra, os campos foram planeados para acomodar os Campeonatos Europeus de Ténis e Padel Universitários, que ocorreram em agosto de 2025, porém não foi possível finalizar o processo atempadamente. Apesar disso, a reitoria da UC decidiu avançar com a construção no Polo II ao invés de no Estádio Universitário, a localização projetada inicialmente.
Segundo a reitoria, as razões que impediram a construção no período previsto são “alheias à UC”. Por sua vez, as motivações por trás da decisão de prosseguir com a construção do complexo e da mudança de local não foram explicadas. Neste contexto, importa notar que Amílcar Falcão, reitor da Universidade de Coimbra, é praticante de padel, o que é público nos registos de competição da modalidade.
Além disso, o gabinete de assessoria da UC garante que o projeto de requalificação do Polo II foi “desenvolvido com o envolvimento da comunidade académica, tendo sempre em consideração o seu bem-estar e a sua segurança”. Ficou mais uma vez por esclarecer se a prática desportiva no complexo pode perturbar as aulas no Polo II e saber se as secções desportivas da AAC foram consultadas. Relativamente à gestão, o gabinete de Desporto da UC será o responsável e a utilização do complexo irá reger-se pelas normas do regulamento existente para os equipamentos desportivos da UC.
“Falta de visão e de estratégia que não responde às necessidades do desporto da cidade”
O Estádio Universitário de Coimbra (EUC), inaugurado em 1963, dispõe de três pavilhões polivalentes, além de outras instalações. Acolhe também as aulas da Faculdade de Ciências do Desporto da UC, as equipas desportivas da Universidade e as dezenas de secções desportivas da AAC. O complexo desportivo de padel no Polo II é o mais recente equipamento desportivo construído pela UC.

De acordo com Rui Loureiro, diretor-geral da Secção de Rugby da Associação Académica de Rugby (AAC Rugby), os principais utilizadores do EUC são as secções desportivas da AAC. O dirigente considera que é “difícil conciliar as necessidades das estruturas que têm de acomodar com a visão que a reitoria tem para o EUC”. Na sua visão, apesar da sua “boa vontade e sensibilidade”, Carlos Marques, diretor adjunto do EUC, não usufrui da autonomia necessária para ir ao encontro das necessidades das secções desportivas.
O dirigente da AAC Rugby critica a ausência de construção de novos equipamentos polidesportivos em Coimbra ao realçar que o EUC é o único complexo com vários pavilhões capazes de receber diferentes modalidades. “Só quem está muito distraído é que não sabe as dificuldades pelas quais as secções se debatem diariamente a nível de espaços”, assevera. Perante este panorama, considera que “a grande novidade ser a construção de seis campos de padel” representa “falta de visão e de estratégia que não responde às necessidades do desporto da cidade”.
Rui Loureiro declara ainda que “Coimbra é uma cidade de oportunidades perdidas e esta foi mais uma. O facto de existirem espaços desportivos à priori é sempre positivo, a crítica [a ser feita] é a falta de visão e de estratégia”. Na sua leitura, a aposta em seis campos de padel não responde às necessidades mais urgentes das secções desportivas da AAC, que enfrentam dificuldades diárias para garantir treinos, jogos e estabilidade às equipas. Nesse sentido, deixa o questionamento: “Tendo em conta os milhares de praticantes envolvidos no desporto da Académica, não seria mais estratégico e abrangente um equipamento polivalente?”
Segundo Rui Loureiro, durante os últimos dois anos, a AAC Rugby tem submetido pedidos junto à reitoria para disponibilização de um terreno junto ao Polo II para a edificação de um espaço próprio. Porém, os esforços não foram bem-sucedidos: “Nunca houve resposta”.
Enquanto dirigente da AAC Rugby, acredita que o desporto em Coimbra se encontra numa “crise enorme”, refletida nas classificações das principais modalidades. “Em tempos, foi uma cidade que teve equipas de futebol, basquetebol, andebol, hóquei e vólei no topo”, exemplifica. Assim, defende que a Universidade e o Município devem encarar o desporto como um investimento estratégico, pois equipamentos bem planeados poderiam fortalecer a competitividade de Coimbra enquanto cidade universitária e desportiva.
“Se a reitoria olhasse para o trabalho que as secções fazem como um ativo a explorar na captação e retenção de jovens para estudar na cidade, poderia deixar de ver o dinheiro utilizado no desporto como um gasto e passar a vê-lo como um investimento com benefícios para Coimbra e para a academia”, Rui Loureiro.
Resistir com a casa às costas
Paulo Peixoto, presidente da Secção de Patinagem da AAC (SP/AAC), reconhece o EUC como o espaço que tem dado a resposta mais consistente às necessidades de vários clubes da cidade, designadamente às secções desportivas da AAC e os seus milhares de atletas. Porém, no último ano, as obras no Pavilhão 3 do EUC tiraram o acesso da SP/AAC ao único equipamento desportivo da UC capaz de receber a prática de patinagem artística e hóquei em patins. “O Pavilhão 3 tem sido fundamental para o desenvolvimento da secção ao longo dos últimos 10 anos, quando ficámos sem acesso a equipamentos municipais, designadamente o Pavilhão Mário Mexia”, explica.
A falta de acesso ao Pavilhão 3 obrigou a SP/AAC a treinar e jogar fora do concelho e do distrito de Coimbra, porque “não havia outra solução”. Os escalões de formação treinaram em Vilarinho de Cima, na freguesia de Brasfemes, “num pavilhão sem o piso adequado e as condições acústicas necessárias”. Paulo Peixoto expõe que a SP/AAC se viu obrigada a cancelar mais de 20 jogos porque o nível de humidade do espaço não permitia a prática de patinagem com segurança. Por sua vez, as equipas séniores utilizaram um pavilhão na Ventosa do Bairro, no distrito de Aveiro.

Segundo Paulo Peixoto, esta circunstância impactou severamente a secção, tanto financeiramente como emocionalmente. “Foi um caos, tivemos de gastar muito mais dinheiro em combustível. Estávamos sujeitos aos horários que os clubes locais não queriam utilizar, sempre depois das 22h30, e a chegar a casa às tantas da noite e ter horários de treino que não são compatíveis com uma vida normal”, desabafa. Além disso, a estrutura interna da SP/AAC também foi impactada. A realização de eleições para a direção falhou por duas vezes devido à ausência de candidatos e um número significativo de atletas desistiram.
Quando as obras foram anunciadas, a SP/AAC procurou junto da UC uma solução para continuar a realizar os seus treinos em Coimbra no Pavilhão 1. Após conversações, o EUC decidiu que tal não era viável, pois não era adequado montar e desmontar tabelas para os treinos e jogos do hóquei. O Pavilhão Municipal Multidesportos Mário Mexia também não se mostrou como alternativa, pois, segundo Paulo Peixoto, a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) afirma que os patins riscam o chão do pavilhão. “A SP/AAC não entende porque a modalidade coletiva de pavilhão, em número de atletas e resultados, mais relevante de Coimbra, não tem acesso ao Mário Mexia desde 2016”, declara.
Neste momento, a secção está a inscrever as suas equipas nas competições da próxima época sem saber se vai ter local para realizar os treinos e jogos. Sem uma resposta em breve, não poderão competir no próximo ano. Nesse sentido, esperam que, até setembro, a UC conclua as obras no Pavilhão 3 e que a CMC providencie uma solução para que os escalões de formação possam praticar sem restrições.
Tal como Rui Loureiro, Paulo Peixoto defende que qualquer equipamento para o desenvolvimento da prática desportiva é de extrema necessidade. Enquanto dirigente da SP/AAC, considera que o desenvolvimento de pavilhões para a prática de modalidades coletivas de pavilhão deveria ser uma prioridade absoluta na cidade. Do seu ponto de vista, o número de atletas em Coimbra excede a capacidade de acolhimento do EUC, e a resposta para suprimir esse problema deveria partir do Município.
