Na véspera de Natal de 2024, a Rádio Universidade de Coimbra (RUC) lançou uma campanha de crowdfunding com o objetivo ambicioso de arrecadar 30 mil euros para a renovação do Estúdio 1. No passado dia 26 de dezembro, pelas 19 horas, a emissão do 107.9FM regressou à sala renovada com o habitual «Santos da Casa». Tal só foi possível porque, entre 24 de dezembro de 2024 e 14 de fevereiro de 2025, 844 pessoas doaram 31 450 euros através da plataforma PPL. Segundo a presidente da RUC Margarida Santos, o valor total ronda os 33 mil euros, devido às doações feitas diretamente à rádio.

O valor angariado pela PPL foi utilizado na íntegra e o restante vai ser utilizado na aquisição de mobiliário novo e parte da renovação do Estúdio 3. O PLAYit, novo sistema de automação, ainda não está configurado, mas esperam pô-lo em pleno funcionamento até março, mês das comemorações dos 40 anos da RUC.

Medo de falha absoluta da emissão motiva renovação

A degradação acumulada de 15 anos de utilização diária estava a afetar a qualidade das emissões e a colocar em causa a continuidade da própria rádio, o que revelou uma necessidade urgente de substituir o material. Rui Rodrigues, tesoureiro da RUC, fala num «receio de que o material desse de si, porque as vias umas vezes abriam, outras vezes não, e as pessoas estavam a fazer o programa sempre em receio de subitamente a coisa falhar».

Por sua vez, Margarida Santos relembra um Observatório em que os quatro convidados utilizaram o mesmo microfone, algo que ela considera não representar condições de trabalho dignas. «Chega o momento em que já não dá para arranjar, tem de se ir para uma coisa nova e temos de evoluir», reforça.
Beatriz Sousa, vice-presidente da RUC no mandato 2024/2025, recorda o momento em que a mesa parou de funcionar no verão de 2024, que expôs o risco iminente de falência absoluta do material. O problema foi solucionado pelos técnicos, mas deixou um lembrete permanente sobre a necessidade de material novo.

«Decidimos avançar com o crowdfunding a pensar ‘é agora ou nunca’, se esperarmos mais, a mesa é uma bomba-relógio que pode deixar de funcionar e ficamos sem emissão», confessa Beatriz. Ao longo de 15 anos foram feitas incontáveis reparações, mas esses pequenos remendos já não bastavam.

Apoios financeiros insuficientes obrigam a crowdfunding

Apesar de receber apoios financeiros anuais da Associação Académica de Coimbra (AAC), da Universidade de Coimbra (UC) e da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), a RUC optou por uma campanha de crowdfunding para financiar a renovação do seu estúdio principal. Beatriz Sousa esclarece que ocorreram reuniões com a AAC e a UC, porém não foi possível chegar a um acordo que satisfizesse as necessidades urgentes da rádio. Já Margarida Santos admite que os apoios não eram suficientes e que por vezes nem sequer recebem o dinheiro.

A estudante admite que a campanha de crowdfunding foi «um tiro no escuro» num «momento limite». «Sabíamos que teríamos o apoio da comunidade, mas não esperávamos ter alcance nacional e ultrapassar o valor pretendido. Foi uma grande reafirmação do nosso trabalho e estamos muito gratos», sublinha Beatriz.

De acordo com Beatriz Sousa, o orçamento de 30 mil euros pedido no crowdfunding foi uma aproximação dos valores de mercado. A SiteMaster foi a empresa escolhida para comprar os materiais de radiodifusão em maio de 2025. No mês de junho, os técnicos responsáveis pelo projeto, José Martinho e João Aveiro, deram início à renovação. Como Rui Rodrigues explicitou na conferência de imprensa, a demora deve-se ao facto de a montagem ter sido realizada de forma voluntária pela «prata da casa», o que implica a conciliação de horários entre todos.

A emissão do 107.9FM continuou a todo o custo

Durante a renovação do Estúdio 1, que decorreu entre junho e dezembro de 2025, a emissão foi feita a partir do Estúdio 3, utilizado principalmente para a formação dos integrantes dos cursos de Informação e Programação. Apesar de também ter sido renovado há 15 anos, este estúdio apresentava menos desgaste por não ser tão usado. Margarida Santos explica que reutilizaram peças ainda em bom estado do Estúdio 1 para o Estúdio 3.

Contudo, a transição para este estúdio agravou o estado do material e revelou a necessidade de também o renovar. As prioridades passam pela substituição da mesa, dos microfones e das UPS, que protegem o material contra picos de energia, interrupções e instabilidades. O objetivo é oferecer a melhor experiência de formação possível aos jovens que chegam à rádio todos os anos.

Ainda não há data prevista para a renovação deste estúdio, porém, para esta próxima etapa, a RUC não vai recorrer a crowdfunding por querer «ser autossuficiente sem depender das pessoas» que ouvem a emissão.

Neste momento, o financiamento estatal de cinco mil euros recebido através do tempo de antena dos candidatos às eleições autárquicas de 2025 e uma doação anónima são as contribuições destinadas para a renovação do Estúdio 3. Margarida Santos acredita que esta renovação vai custar entre cinco e seis mil euros.

Segundo a presidente, têm o sonho de renovar a rádio inteira nos próximos anos. «Precisamos de computadores novos para a redação, mas a nossa prioridade agora é o Estúdio 3, então temos de ter tudo muito bem contado», assevera.

Além disso, explica que, mais uma vez, não contam com os apoios da AAC, UC e CMC por se revelarem insuficientes para a remodelação, preferindo utilizá-los para outras necessidades, como as comemorações dos 40 anos da rádio.

«Uma grande prenda para as pessoas que mantiveram a RUC durante 40 anos»

A renovação do Estúdio 1 vem dar uma lufada de ar fresco à rádio, que espera ter uma vida útil ainda mais extensa sem a preocupação constante de reparação do material. Carlos Roxo, coordenador do departamento de técnica, fala numa modernização com novos sistemas de áudio, controlo e emissão, que prometem melhor qualidade sonora e fiabilidade da operação da rádio, além de melhores condições de trabalho para as equipas voluntárias e uma escuta mais limpa para os ouvintes.

A estreia do novo estúdio acarretou sessões de formação para os locutores se familiarizarem com o novo material. Segundo Margarida Santos, a transição está a decorrer suavemente e os ruquianos estão felizes com a qualidade sonora dos seus programas.

Contudo, pequenas falhas na transmissão continuam a fazer parte do quotidiano devido ao desgaste do material na sala 10, responsável por realizar a emissão. Margarida Santos refere que o departamento de técnica está a trabalhar no sentido de arranjar uma solução dentro das disponibilidades financeiras atuais da RUC. A presidente descreve a renovação como «uma grande prenda para as pessoas que mantiveram a RUC durante 40 anos» e «uma garantia de que queremos continuar».

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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