Da janela da casa de banho do ateliê, em São Martinho do Bispo, Manuela Rato tem uma vista esplêndida de Coimbra. É segunda-feira à tarde e depois de incontáveis dias cinzentos e húmidos, ganhou pinceladas ainda mais extáticas e um arco-íris. Foi também depois de uma tempestade pessoal que Manuela resolveu pintar novas cores na sua vida, aos 50 anos.
Natural de Coimbra, formou-se em Restauro e Arte Decorativa, na Fundação Ricardo Espírito Santo, em Lisboa. Depois voltou, casou-se e tornou-se professora, até ser convidada para integrar um projeto do Grupo Catarino de construção especializada, reabilitação e interiores, localiza em Febras. Manuela seria a primeira pessoa a trabalhar na área de decoração de interiores da empresa, uma área totalmente nova também para ela, mas aceitou o desafio e ficou lá por 20 anos. Saiu quando já tinha 11 profissionais a seu cargo no departamento.

«Foi uma grande escola para mim, onde aprendi todo o meu know-how, fui muito feliz lá», conta. Mas, mesmo sentindo-se realizada profissionalmente, uma vozinha interior dizia-lhe sempre que quando tivesse 50 anos não queria estar naquele lugar, por isso jogou a ideia para o universo e recebeu a resposta, mas não exatamente como queria. A doença oncológica e morte do afilhado, com apenas 20 anos, «despertou um grande desejo de mudar».
«Muitas vezes falta-nos tempo para nós e para os outros de tão envolvidos que somos com tantas coisas que temos», diz Manuela, emocionada. Quando decidiu dar uma reviravolta na sua vida, pediu demissão sem ainda saber o que faria. Só sabia que não queria não ter tempo para ela, para a família, para os amigos. «Quando se é escrava do tempo não se vive, apenas sobrevive», diz. E relembra, com um vasto sorriso, que quando se despediu dos colegas disse: «Agora já não sou a Manuela da imobiliária. Sou a Manuela Rato. E só!». «Queria saber o que eu conseguiria fazer sozinha», remata.

A filha, Catarina, estava a terminar um curso em design de joalharia na Escola Superior de
Artes e Design, no Porto, e a ideia de embarcarem juntas num negócio por conta própria
começou a ganhar forma. Três meses depois de sair do emprego, sem medo mas também sem demasiadas expectativas, Manuela lançou-se como empreendedora e abriu o Atelier Cinza Rato, de design de interiores e decoração, e joalharia. O maior desafio, como ela diz, foi sair de onde estava, literal e metaforicamente: abrir mão de um emprego que proporcionava uma vida confortável para abraçar o desconhecido. Tinha preocupações financeiras, mas procurava não ficar muito presa a esse aspecto. «Não me meti num projeto aos 50 anos para andar ansiosa. Quero ter tempo, quero viver. E uma das minhas condições de mudança era também meu estilo de vida. Posso trabalhar 18 horas, por exemplo, num projeto no Algarve, mas quando volto a dedico um tempo para mim.»
Mesmo sem ter feito nenhuma formação em gestão de negócios, Manuela foi convidada para compartilhar experiência com os participantes do Cinco Ponto Zero, um programa de
formação, capacitação e mentoria em empreendedorismo, realizado em 2022, sobre o qual falámos aqui. «Temos de estar sempre em processo contínuo de aprendizagem e melhoria», diz. Aos 60 anos, compara o seu empreendimento a um bebé quando começa a andar: um passinho de cada vez e nunca um passo maior do que as pernas, pois sabe que em qualquer negócio há sempre riscos. O primeiro espaço foi a casa dos avós. A rede de contatos que construiu durante décadas foi valiosa. «Um amigo contatava, outro tinha ouvido falar, uns tantos andaram no Facebook à minha procura… as pessoas foram vindo.»

Quando recebeu o primeiro projeto, Manuela sentiu um frio na barriga. Chegou a perguntar-se se conseguiria dar conta do recado, sem estar a trabalhar em equipa. Mas deu tempo e espaço e «as coisas começaram a acontecer de uma forma muito natural». Com dois anos de existência, o empreendimento tornou-se sustentável. O Atelier Cinza Rato é formado por quatro profissionais: Manuela, Catarina, uma designer e uma arquiteta. Quando esta entrevista foi feita, estavam bastante atarefadas, responsáveis pela decoração dos quartos do Seminário Maior de Coimbra, onde Manuela já tinha deixado a assinatura da equipa na biblioteca do café. Sem experiência, mas com a inabalável certeza de estar a a fazer a coisa certa, tornou-se empreendedora e sobretudo gestora do seu tempo, dos seus gostos e da sua vida.
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