Cinco conimbricences entram num bar. Trocam ideias, conversam sobre tudo e nada, e depois daquele encontro vem outro e mais outro para, no fim, em total sintonia e com sentido de missão relativamente à comunidade onde se inserem, nascer um projecto que é bem maior do que eles. Esse projecto é a Coimbra Coolectiva, uma publicação que dá continuidade à revista Coolectiva, mas que vai além da divulgação cultural e é detida pela Associação Cool – Jornalismo de Soluções, independente e sem fins lucrativos, focada na realidade e desafios do concelho de Coimbra.
O que é isso do jornalismo de soluções? É um jornalismo que, além de investigar, analisar e relatar o que acontece, vai além da espuma dos dias e trabalha sobre as respostas aos desafios sociais de uma determinada comunidade; que além de explicar bem o que se passa, faz sempre um apelo à intervenção cívica e mobilização de quem lê, apontando a luz para os assuntos e pessoas que geralmente ficam na sombra da cobertura mediática mais imediata.
E perguntam vocês: então e a velha Coolectiva?
É melhor começar do início.
Há 5 anos, no Outono de 2017, Joana Pires Araújo e Filipa Queiroz, 33 anos, lançam-se o desafio de preencher uma lacuna em Coimbra e criar uma publicação que comunique a cidade e região Centro de forma acessível, desempoeirada, descontraída e atractiva (cool). A sensação é a de que há muita coisa por contar, mas a informação está dispersa, a comunicação não funciona, coisas a que uma revista bonita, bem feita e rigorosa quanto baste pode responder. Uma publicação que não só conta o que se passa como seduz os leitores a experimentação, atiça a curiosidade, desperta o amor à camisola, acreditando que o conhecimento é amigo do progresso e da harmonia, além da manifestação maior dessa coisa tão bonita chamada liberdade.
É assim que, em Março de 2018, nasce a Coolectiva – Revista digital de cultura, lifestyle & lazer. Por mais louca que pareça a ideia de criar um órgão de comunicação social online de raiz, com pouco mais do que os dez dedos das mãos das fundadoras, o projecto arranca com sede própria, numa pequena loja recuperada na histórica Alta de Coimbra. É entre os degraus das míticas Escada do Quebra Costas, à vista das dezenas de pessoas que diariamente sobem e descem, entre «doutores e futricas», locais e estrangeiros, novos e velhos, que a redacção sente o pulso à cidade e, diariamente, publica na revista artigos sobre o que acontece Coimbra e pela Região Centro.
O formato e conteúdos da revista são inspirados em referências nacionais e internacionais, como a Time Out, a Gerador, a Monocle ou a The New Yorker, mas também nos próprios desejos e necessidades das fundadoras enquanto cidadãs, trabalhadoras, ex-residentes no estrangeiro e jovens mães a viver em Coimbra. Sugestões culturais e gastronómicas, dicas de saúde e bem-estar, propostas para experimentar as mais diversas actividades e roteiros – individualmente, em casal, com amigos ou em família.
Os desafios são vários, desde logo o financiamento, mas a vontade é tanta que isso não abranda o passo e as boas energias levam ao aparecimento de co(o)laborações voluntárias que enriquecem o projecto como a de Inês Teixeira, Pedro Costa, André Santo, Ana Rita Rodrigues, Lara Lima, Luís Marques, Nanci Baptista, Pedro Marques, Vanessa Kuzer, Célia Lopes, Emanuel Casimiro, Ana Sousa Amorim, Ricardo Jerónimo, Rui Ferreira, Fernanda Paçó, Francisca Reis e Gabriela Torres. Acontecem também projectos originais, como a rubrica Coimbra Out Loud de sessões fotográficas e conversas com músicos locais ou com ligação a Coimbra, com João Azevedo. Também parcerias com entidades como a livraria Faz de Conto, a Blue House e viagens pelo território a convite do Turismo do Centro.
De braço dado com a cidade e a região, a Coolectiva segue caminho, comunicando com optimismo e desmontando, aos poucos, a ideia de que a terra está parada através da divulgação de eventos, lugares, produtos e experiências. Muda-se a narrativa, num esforço de escrever para todos e com atenção às ideias e sugestões que leitores atiram para a caixa de email. Centenas de seguidores, visualizações e partilhas depois, a equipa cresce, apesar de trabalhar por amor à camisola, sem vencimentos e pagando as contas com a publicidade criteriosamente seleccionada. Paula Vale Marques, responsável pela página Coimbra Cartaz Cultural no Facebook, passa a ser responsável pela Agenda, diariamente actualizada. Em Julho de 2019, junta-se Teresa Bento e torna-se sócia da então recém-criada Coolectiva Lda., assumindo as pastas do design, marketing e publicidade. No horizonte, está o dia em que todas vivem de e para a publicação digital, que soma leitores fiéis em Coimbra e não só.
Rubricas como Coimbra no Mundo, com testemunhos de conimbricences a viver noutros países, aproximam a comunidade emigrante. Os Comes & Bebes fazem as delícias da maioria e apresentam a cena gastronómica da cidade e região. As Coisas para Fazer e os Passeios fazem saltar do sofá os mais preguiçosos e os artigos dedicados aos Miúdos safam os pais sedentos de propostas para desfrutar em família. Promove-se cultura, saúde, bem-estar, ecologia, leitura, conhecimento do património e participação em iniciativas municipais, comunitárias e solidárias, ao mesmo tempo que se pisca o olho ao empreendedorismo e dá um empurrão a negócios, em particular o comércio local.
Dois anos de trabalho intenso e espírito de missão, traduzem-se na construção de uma marca sólida de comunicação, capaz até de gerar pequenas mudanças. «É uma lufada de ar fresco», ouve-se vezes sem conta, e cai por terra o argumento inicial dos incrédulos, que desconfiam que o assunto se esgota, mas em vez disso multiplica-se em mais de um milhar e meio de artigos, que apenas conhecem um momento «folha em branco»: o início da pandemia.
O que é que a Coolectiva pode propor a quem não pode fazer nada? Quem vai querer anunciar? É possível continuar? Como a alma não é pequena e o Pessoa sabe muito, acredita-se que sim, que vale a pena, e segue-se em frente. Mesmo com a redacção ainda mais reduzida, mesmo sem poder sair à rua. É neste quadro (e a expressão é pertinente), que no Verão de 2021, em plena pandemia de Covid-19, o caminho da Coolectiva se cruza com o de pessoas preocupadas e com vontade de fazer algo por Coimbra. Filomena Girão, Gonçalo Quadros e Miguel Antunes são os conimbricences mencionados na primeira linha deste texto. De encontro em encontro, torna-se evidente a empatia e sinergia que acabam por dar origem à solução: a fusão da Coolectiva com um projecto que os empreendedores querem desenvolver, juntamente com outros parceiros locais, de criar uma plataforma que agregue a comunidade, escrutine o poder local e mobilize a população para a obtenção de respostas a alguns dos maiores desafios sociais de Coimbra. No meio do alvo: o desenvolvimento sustentável do concelho nos seus três pilares — social, económico e ambiental.
A proposta é a seguinte: renovar a revista, torná-la uma publicação de jornalismo de soluções, complementada com encontros e iniciativas regulares dentro e fora da malha urbana e tudo com vista a ter uma Coimbra melhor, mais sustentável, mais justa, mais inclusiva e com mais oportunidades, de forma totalmente livre e independente. A Coolectiva passa a Coimbra Coolectiva, agora propriedade de uma associação sem fins lucrativos. Reforça-se a vontade de apelar à acção e avança-se no sentido de construção de um modelo de financiamento sustentável, com base em contribuições de particulares e fundos dedicados ao desenvolvimento de trabalho jornalístico e de inovação social.
Um dos motes do jornalismo de soluções é procurar bons exemplos. Pegar em soluções que já estão a funcionar noutros lugares e implementá-las como resposta aos nossos próprios desafios. É o que acontece nesta história. Os caminhos cruzam-se com os de Maureen Carreira, co-fundadora da plataforma digital norte-americana The Philadelphia Citizen, a residir em Portugal há 6 anos e com total disponibilidade e sentido colaborativo. A Coimbra Coolectiva recebe inspiração da publicação que já leva uns anos de avanço nas lides desta técnica, que também vai beber aos chamados jornalismo construtivo, jornalismo cívico e jornalismo comunitário. Na memória, também exemplos como o do notável Jornal do Fundão.
Publicação de pessoas e causas, na Coimbra Coolectiva há histórias, podcasts, projectos cool, guias para mudar Coimbra e uma agenda cultural, comunitária e colaborativa, para quem quer saber tudo o que se passa, partilhar ou marcar no calendário.
A revista mantém-se enquanto houver vontade dos seus leitores, associados e apoiantes, por isso a transparência e a independência são asseguradas, até porque nenhum apoio dá direito a interferências nas decisões editoriais. A Filipa Queiroz e Joana Pires Araújo juntam-se Ana Sousa Amorim, Paula Vale Marques, Marta Melo, Rafael Vieira, Vilma Reis, João Pedro Rodrigues e o fotógrafo Mário Canelas. Já ninguém é voluntário. Trabalha-se para dar condições dignas a todos os que fazem o projecto acontecer, em tempos difíceis para o jornalismo à escala global, mas com optimismo e a porta escancarada para a comunidade.
A hora é de pôr assuntos que interessam na mesa, dar voz e rostos à comunidade coimbrã e convidar à reflexão e a fazer a diferença. É assim a Coimbra que se quer. É essa a Coimbra Coolectiva.
