Envelhecer é uma inevitabilidade mas pode ser um processo feito com qualidade, pelo menos é nisso que acredita João José Malva, coordenador do projecto Ageing@Coimbra, criado em 2013 depois de um repto da Comissão Europeia. Projecto pioneiro em Portugal, começou por juntar a Universidade de Coimbra, a Câmara Municipal de Coimbra, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, a Administração Regional do Centro e o Instituto Pedro Nunes. Abriu-se depois a outras instituições, empresas e organizações, que têm de ser de Coimbra ou aqui desenvolver actividade, e hoje são 90 os membros do Ageing@Coimbra, entre eles parceiros como a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro ou a Cáritas Diocesana de Coimbra.
«Funcionando em hélice quádrupla, estas entidades colaboram umas com as outras e transformam essa colaboração numa colaboração holística. Cada um não está focado exclusivamente no seu nicho de actividade, mas acaba por receber inputs, sugestões, projectos, preocupações ou reptos das diversas entidades», explica o também investigador da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

O trabalho em rede é tido como fundamental sobretudo quando a realidade mostra que, apesar de maior esperança de vida, «não houve um aumento paralelo de um número de anos em que as pessoas vivem com saúde e com qualidade de vida». É por isso, sublinha João José Malva, importante que sejam criados «novos modelos que as pessoas vivendo mais anos vivam saudáveis e que se mude o paradigma para assegurar que a sociedade é sustentada.» Uma urgência maior dado o quadro actual de Portugal em matéria de envelhecimento. Segundo as projecções do Instituto Nacional de Estatísticas, entre 2018 e 2080, o número de idosos (65 e mais anos) passará de 2,2 para 3 milhões. Actualmente, por cada 100 jovens portugueses, há 182 idosos: os idosos são quase um quarto de toda a população residente (23,4 por cento).
«O cenário na região», nota João José Malva, «segue o mesmo trajecto: já há municípios com índices de envelhecimento tão marcados que antecipam quase os fenómenos demográficos de 2060. Ou seja, já há territórios em que há um jovem de menos de 15 anos para 7 idosos de mais de 65 anos.»
Da investigação às Terras de Sicó

No processo de envelhecimento saudável entre as preocupações estão questões como a solidão e a perda de dignidade. João José Malva defende que as boas práticas devem ajudar as pessoas a serem retiradas «dos seus guetos sociais» e que se sintam envolvidas por forma as manter ligadas aos amigos, familiares e interesses sociais.
A investigação tem tido uma forte componente na acção do Ageing@Coimbra. O consórcio conseguiu trazer para Coimbra o primeiro Instituto Multidisciplinar para o Envelhecimento (MIA, na sigla inglesa) do país, focado no estudo dos mecanismos celulares e fisiológicos do envelhecimento para promover a saúde e o bem-estar da população. Aprovado em 2019, o MIA colabora com instituições internacionais como as universidades de Groningen, de Newcastle ou de Copenhaga. Financiado pela União Europeia, explica o coordenador, este projecto de 15 milhões de euros permite contratar recursos humanos para desenvolver investigação de excelência sobre o envelhecimento.
Ainda no campo da investigação, outra aposta é projecto EraChair, filiado ao Centro de Neurociências de Coimbra e instalado no UC Biotech de Cantanhede. Avaliado em 2,5 milhões de euros, este projecto centra-se no estudo do fenómeno de envelhecimento cardiovascular e terapias. João José Malva assegura que o Ageing@Coimbra é um comboio em andamento, com vários projectos em marcha, e que, embora tenha uma dinâmica importante, «não é investigação por investigação» que se destaca. «É investigação que cria conhecimento mas que depois chega às pessoas porque bebe da inovação e os jovens inovadores e empreendedores acabam por beber da investigação para desenvolver melhores produtos e práticas.»
A ciência tem também saído à rua com a chancela do Ageing@Coimbra. Aconteceu com o projecto Praça Vida+ que teve continuidade com o Vida+Móvel e que envolveu a criação de um instrumento que permite avalia estilos de vida. Esta avaliação esteve disponível, primeiro, na praça de um centro comercial, no coração da cidade. Depois, em 2019, ganhou rodas no programa Vida+Móvel: «pegámos nesta praça, com toda a tecnologia e ciência, e empocotamo-la em um veículo», que percorreu territórios de baixa densidade nas Terras de Sicó.
«Fomos interagir com as pessoas nos meios rurais, onde não têm tantas oportunidades. Uma equipa de jovens universitários ajudou as pessoas a interagir com a tecnologia e a preencher os relatórios para depois poderem oferecer recomendações às pessoas, clarifica o João José Malva. Havia uma interacção entre ciência, inovação e cidadania», conclui.
Quatro M’s amigos dos mais velhos

Desde 2017, que no âmbito do Ageing@Coimbra, têm sido galardoados projectos com efeitos práticos na melhoria da qualidade de vida dos mais velhos. Lançado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro), o concurso de Boas Práticas Envelhecimento Ativo e Saudável conta já quatro edições. João José Malva estima em sete centenas as candidaturas às três categorias deste prémio: Vida +, Saúde+ e Conhecimento+. «Por essa via, há um estímulo com conhecimento público da qualidade das práticas que a entidades desenvolvem e isto é um estímulo para que as entidades sejam mais empreendedoras e mais inovadoras», salienta.
Este ano, um dos projectos galardoados foi o Hospital amigo dos + velhos, promovido pelo Hospital Arcebispo João Crisóstomo, de Cantanhede, na categoria Saúde+, e que assenta na implementação de intervenções baseadas em boas práticas dirigidas aos idosos, partindo de quatro elementos: a motivação, a medicação, o estado mental e a mobilidade. A estratégia bebe inspiração em um modelo americano que a administração do hospital tentou implementar, tendo em conta que 80% dos utentes são idosos. Tornou-se «claro que estas pessoas tinham de ter condições e haver, de certa forma, uma discriminação positiva», argumenta Diana Breda, presidente do Conselho Directivo do Hospital.
Da teoria à acção, no campo da motivação, as práticas passaram, por exemplo, por criar cursos de formação para cuidados informais. Segundo a presidente, estes cuidadores lidam com problemas sérios e, por vezes, «não têm respostas para eles». Em foco estão ensinamentos práticos como «posicionar uma pessoa na cama ou como mudar uma fralda de forma mais simples», explica Diana Breda. Na unidade de reabilitação, continua, a equipa de terapeutas, criou ainda actividades como yoga adaptada para pessoas com dificuldade de mobilidade e são realizadas actividades com os utentes, como foi, neste Natal, a confecção de bolachas.
Na vertente da medicação, e por ser um ambiente controlado, os profissionais procuram mudanças terapêuticas quando o número de medicamentos «parece excessivo», numa tentativa de «avaliar o doente globalmente». Mudanças que acabam por ter consequências ao nível do estado mental dos utentes, às vezes, notada pelos familiares, constata Diana Breda. A responsável ressalva igualmente como pequenos gestos como um calendário no quarto, um relógio ou mesmo uma persiana aberta pode fazer a diferença. «São coisas simples, mas que ajudam a pessoa a orientar-se.»
Na mobilidade, um dos objectivos passa pelos utentes do hospital terem uma rotina o mais parecida com a normalidade. A prática é que, sempre que possível, o doente vista a sua própria roupa, almoce no refeitório ou participe em actividades. A aplicação deste programa, nota Diana Breda, beneficia da dimensão do hospital, com cerca de 50 camas e 150 trabalhadores.
Menos solidão e mais envolvimento

No processo de envelhecimento saudável entre as preocupações estão questões como a solidão e a perda de dignidade. João José Malva defende que as boas práticas devem ajudar as pessoas a serem retiradas «dos seus guetos sociais» e que se sintam envolvidas por forma as manter ligadas aos amigos, familiares e interesses sociais. Entre as motivações, diz, consta combater o «estigma que ser-se mais velho é ser-se inútil.»
A necessidade de manter a dignidade eleva-se quando se fala de doenças neurodegenerativas, a demência ou a perda de autonomia. E nesta vertente, defende, o conhecimento ganha mais relevo: «É muito importante compreendemos bem o que acontece nas doenças neurodegenerativas para que haja esperança de um dia poder haver tratamento. Claro que não temos a ambição que vamos ser nós a descobrir uma coisa desta magnitude mas seguramente todos nós damos um pequeno contributo nesse sentido. Tanto na produção de conhecimento como no reconhecimento da realidade social das pessoas afectadas.»
A importância de ressalvar a dignidade humana é igualmente um dos pilares das práticas defendidas por Diana Breda, do Hospital Arcebispo João Crisóstomo, de Cantanhede. Tendo por base as projecções de que, em 2050, 1,4 milhões de pessoas a viver em Portugal terão mais de 80 anos, a responsável da unidade hospitalar reivindica um trabalho em rede: «é a coisa mais importante do mundo.»
