No Largo do Paço do Conde, em Coimbra, Angelina Madeira, 96 anos, e as suas companheiras do Centro de Dia da Oficina do Idoso da Associação Nacional de Apoio ao Idoso aceitaram sair da rotina habitual naquela tarde quente de outono. Com esponjas e tintas nas mãos, elas pintaram coletivamente ao ar livre, no coração da Baixa, respondendo ao desafio lançado pelo projeto CirculArte. Sob a orientação da professora Susana Baltazar, Angelina e as outras participantes — Eugénia, Maria Fernanda, Maria Conceição José, Maria Conceição Carneiro e Diogo Pereira — formaram um círculo que se abriu ao olhar atento dos transeuntes, enquanto experimentavam a técnica pouco convencional da pintura com pó de café.

Esse círculo representa a essência do CirculArte — projeto que é um dos 16 incubados no âmbito do Fator C’Idade, e que visa recuperar a centralidade da Baixa de Coimbra na vida dos cidadãos, unindo arte contemporânea e práticas colaborativas para combater o isolamento social e reabilitar o edificado urbano. Tudo acontecia ao ar livre, enquanto a cidade seguia o seu ritmo, observando um novo modo de habitar o espaço público: coletivo, criativo e inclusivo.

A iniciativa, dinamizada por Assunção Ataíde e Nelson Ricardo Martins, destaca o potencial transformador da arte na rotina dos mais velhos e a aproximação entre gerações. Assunção, psicóloga e ativista de longa data na educação especial, está há vários anos a trabalhar a reativação da Baixa de Coimbra. «Esta área perdeu dinamismo, por isso queremos combater o isolamento social e aumentar a segurança» explica Assunção. «Quanto mais ativarmos esta zona, mais segura ela se torna — afinal, o polícia é só a ponta do iceberg.» Outro objetivo é rentabilizar as microempresas locais, trazendo-as de volta para a Baixa para que possam exibir os seus produtos e reativar o comércio tradicional.

Nelson, artista visual e doutorando em Artes Contemporâneas, conta que ao chegar a Coimbra em 2018, começou a aprofundar o trabalho em espaços devolutos na Baixa, propondo intervenções imaginativas para revitalizá-los. «No âmbito da Bienal de 2022, que coordenei, transformámos uma loja na rua numa vitrine para performances de artistas contemporâneos, reocupando espaços públicos com arte e cultura.» A dedicação dele e de Assunção à dinamização da Baixa reflete a intenção de transformar o bairro numa comunidade criativa e segura, capaz de incluir todas as idades através da expressão artística.

Para o futuro, Assunção salienta a necessidade de garantir condições dignas para todos os envolvidos: «Tenho espaços na Baixa, mas os artistas não podem trabalhar sempre pro bono. É fundamental assegurar uma verba que permita remunerar criadores pelo trabalho e pelo produto que trazem, para manter as atividades gratuitas para os seniores sem sobrecarregar os artistas. Queremos criar dinâmicas em que quem pode pague um pouco pelos workshops, para que outros continuem a ter acesso livre. Aqui, a prioridade é o empreendedorismo social — tornar a Baixa um lugar vivo e diferente do quotidiano comum.»

Nelson acrescenta que o desejo é que CirculArte se expanda, integrando pessoas de diferentes idades e origens, ampliando as redes de aprendizagem, convívio e criação que fazem de Coimbra uma cidade inclusiva e aberta a oportunidades. «Trabalhamos para que o envelhecimento seja visto não como fim, mas como oportunidade de diálogo, expressão e pertença.»

Estas ações comunitárias servem ainda para mobilizar outras iniciativas e ideias na cidade. A próxima edição do programa está prevista para 2026, reforçando o compromisso da cidade em valorizar a longevidade como força dinâmica e criativa.

Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care.
A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais próximos de si.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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