A tarde de 23 de Maio em Coimbra foi marcada por trânsito condicionado. Actualmente este relato parece trivial, devido a obras rodoviárias ou concertos mediáticos mas neste dia foi um evento que misturou saudade e euforia no centro histórico. Trata-se do afamado Cortejo dos Quartanistas, um dos eventos da Queima das Fitas de Coimbra que – não obstante o ano pandémico de 2020 – decorre regularmente desde os inícios da década de 80. Em 2023, este desfile académico voltou a receber a ribalta, dada a retoma de uma tradição que já não seguia desde 2008, a de se realizar numa terça-feira à tarde ao invés do domingo.
«Era um dia diferente em que já se sabia que ia haver todo aquele movimento de estudantes e familiares», relata Luís Filipe Carvalho que, enquanto gerente da Loja das Meias, testemunhou durante vários anos os carros alegóricos a passar na Rua Ferreira Borges, numa terça-feira de Maio, que anualmente se revelava insólita, ao ponto de fazer parar não só a Baixa mas toda a cidade durante uma tarde para apresentar os estudantes à cidade. «Via muitas pessoas que, por vezes, ficavam meses sem vir à Baixa e deslocavam-se para vir ver um neto ou um filho». «Agora penso que tudo isso mudou», confessa-nos. E não só pela alusão à mudança do itinerário do cortejo – que desde a pandemia, ao invés de seguir pela Rua Ferreira Borges, prossegue pela rua da Sofia, rua João Machado, Avenida Fernão de Magalhães até ao Largo da Portagem – mas sim pela maneira como a festa parece mais circundada à comunidade académica do que à cidade propriamente dita.
Pode-se pensar que a mudança teve raízes na mudança do dia do Cortejo para o domingo, mas há muitos outros factores. «Isso acaba por ser uma adaptação da cidade àquilo que passou a ser uma norma nacional», confirma-nos Bruno Ferreira da Comissão Organizadora da Queima das Fitas (COQF).
«Tradicionalmente falando, não existiam muitos eventos como festas e festivais que atraíssem tanta gente ou durassem mais de uma semana, mas com o passar dos anos isso foi mudando. Hoje em dia quase todas as terras de Portugal têm uma festa que dura um par de semanas e que move muita gente. Antes, era quase um fenómeno único ter uma festa tão duradoura a nível local como era a Queima».
A perda dessa peculiaridade da Queima das Fitas de Coimbra geralmente é apontado como consequência do ruir da tradição, mas o vice-coordenador da COQF realça a existência de um outro catalisador mais dissimulado: «A era de informação veio inevitavelmente diluir aquela que é a experiência da Queima, porque deixou de ser aquela situação que tínhamos de lá estar para ver. Existe toda uma mudança naquilo que é a vida normal de uma pessoa e de um estudante, o que é habitual e inevitavelmente leva a que a cidade já não pare como parava antes. Contudo, acho que o efeito que a festa tem na cidade não diminuiu de todo.»
A comprovar este remate, basta ver fotos ou relatos deste último Cortejo que esteve repleto de pessoas, não obstante o regresso excepcional à chamada terça-feira tradicional. Com presença forte de muitos visitantes de fora – e oriundos das localidades mais distintas, desde Anadia até São Miguel – para ver a procissão de estudante, as respostas e o entusiasmo foram uniformes: não conheciam Coimbra e tinham vindo especificamente naquele dia para ver alguém que participava no Cortejo enquanto caloiro, cartolado ou no carro.
João e Margarida – o único casal residente em Coimbra com que nos deparámos a meio do vasto trajecto que vai do Largo D. Dinis até ao Estádio Universitário – relatam-nos que muito mudou desde há 20 anos atrás, quando ambos estudaram na cidade. «Antigamente era mais organizado porque havia mesmo aquelas grades que certificavam que as pessoas não se misturassem no cortejo em si». Apesar de acharem que o ambiente convidativo não diferia muito dos últimos anos, confirmaram que «a confusão foi maior a nível de trânsito e em relação ao ano passado».
Na sede da Associação Cristã da Mocidade (ACM) de Coimbra, Fausto Martins de Carvalho confirma-nos que a mudança do dia não pareceu exercer qualquer influência em termos de energia ou do público: «Sou do tempo em que o cortejo era à terça-feira e de alguma maneira me faz recordar esses tempos, mas não vejo muita diferença em termos de participação ser ao domingo ou à terça-feira», confidencia-nos o presidente da ACM, cuja localização fornece uma vista privilegiada para a fase inicial do desfile, sendo um ponto de encontro para muitos. «É tudo uma questão de ocasião ou de vivência. Eu acho que para os estudantes em si é a festa deles como foi a minha, mas a cidade deve também festejar, para relembrar no futuro o dia de hoje. E para isso qualquer dia da semana dá», sublinha Martins de Carvalho.

Controvérsias parecem surgir anualmente enquanto tradição, mas esta ideia de aliança e adaptação encontra eco no testemunho de Orlanda Duarte, proprietária da Pastelaria Briosa situada no Largo da Portagem, recta final do Cortejo. «Desde 2007 que estou por Coimbra e já vivi várias versões do cortejo, mas acho que o mesmo não deixou de ter a sua essência», confidencia-nos a gerente do estabelecimento de restauração que, ano após ano, faz crescer a sua comunidade e clientela com os estudantes, mediante um espírito aberto a conviver com as novidades em vez de as contestar. «Tanto
nesta como noutras questões, a cidade tem realmente que se posicionar com uma atitude positiva para receber e colaborar, pois se ficarmos atrapalhados quando há uma mudança, acabamos por não tirar vantagem nem proveito das coisas que vão acontecendo.»
A História
A adaptabilidade é importante, tendo em conta as mutações que a Queima das Fitas foi sofrendo ao longo dos séculos. Apontamos desde já os seus primeiros passos no século XIX, quando os estudantes de Direito se juntavam no Largo da Feira e na Porta Férrea para queimar as fitas com que atavam os manuais e manuscritos, banhando-as de seguida com água da bexiga e enterrando-as. Um evento que mais tarde veio a sofrer bastantes transformações, até se tornar na actual Queima do Grelo, o cerne titular da festa académica.

A evolução do mediático Cortejo revela-se mais complexa, porque inicialmente ocorriam vários desfiles realizados em datas distintas pelas diversas faculdades, consoante os respectivos “dias do ponto” (em que se realizavam os exames finais). A veia satírica dos estudantes, que começou a surgir com carros e disfarces caricatos a partir de 1899 com o Centenário da Sebenta, acabou por convergir com essas marchas celebratórias. Acabou por se uniformizar num dia para todas as faculdades em 1905 com o Enterro do Grau, a partir do qual se originaram outras tradições como os livros de curso (mais tarde batizadas de Plaquetes) ou os patrocínios comerciais dos carros.
Durante cerca de três décadas, o cortejo ficou fixado numa data específica, independentemente do dia da semana em que calhava: 27 de Maio. Foi o dia em que, em 1913, um grupo de estudantes, no meio de um confronto com as forças policiais que procuravam controlar os festejos, conseguiu surripiar o boné de um Tenente da Guarda Nacional Republicana. Desde 1919 que o Cortejo decorreu sempre neste dia como se fosse um feriado, sofrendo outras mudanças eventuais, como a passagem pela Praça da República tornar-se parte do itinerário nos anos 20.


Desde meados da década de 50 até à Suspensão da Praxe e Luto Académico derivados da Crise Académica de 1969, o Cortejo decorreu sempre a uma terça-feira, tradição que se manteve após a retoma das celebrações académicas em 1980 até 2008, quando a Academia acatou a decisão social de se mudar para o domingo, não só para possibilitar a vinda de familiares e amigos não-residentes em Coimbra, mas também para aplacar o estorvo comercial e social que se fazia sentir na parte central da cidade que originou este costumes e celebrações estudantis.
«Existe sempre essa questão: é tradição até deixar de ser». Paradoxo exposto por Bruno Ferreira enquanto sublinha que há muitos outros elementos logísticos a ter em conta na organização da semana académica (como o calendário da pausa lectiva para a Queima, definido pelo Senado da Universidade de Coimbra). O verdadeiro desafio da COQF reside em encontrar anualmente o equilíbrio entre a componente da tradição «que nos diferencia e nos mantém enraizados, pois somos a única festa académica do país que tem tantas actividades fora do recinto» e as componente da logística e das finanças.

Quando falamos com o vice-coordenador da COQF esses lucros ainda não tinham sido contabilizados, mas no que diz respeito à venda de bilhetes para as chamadas Noites do Parque, um resultado demonstrou-se incontestável: a festa continua a ser maioritariamente frequentada por estudantes. Além da vantagem numérica dos bilhetes gerais «que são vendidos única e exclusivamente a estudantes», Ferreira confirma-nos ainda pela análise da venda online de bilhete. «Presencialmente, já temos uma presença maior de não-estudante, aquelas pessoas que vão sair vão beber um copo ou dois ali à portagem e depois decidem ir.»
A excepção a essa regra terá sido o dia em que Ivete Sangalo pisou o Palco Fórum na Praça da Canção, por muitos carinhosamente apelidado de Queimódromo. Também o Dia do Antigo Estudante da Universidade de Coimbra, data extra que calhou (propositadamente?) no passado dia 27 de Maio, certamente terá angariado muitos não-estudantes, mas torna-se difícil afirmar dado que o preço do bilhete foi unitário. Quanto a números, a COQF assegura que a limitação das latas de cerveja no Cortejo sofreu uma diminuição substancial nos últimos anos, sendo a diferença de aproximadamente 90 mil latas a menos no cortejo. Sinais de uma celebração que continua a evoluir, apesar dos séculos que passam.

Ferreira confessa que «apesar de ter sido melhor nos últimos anos, gostava que houvesse uma maior adesão nas actividades que nos verdadeiramente diferenciam de todas as outras queimas das fitas». Refere-se ao facto de a Queima das Fitas se diversificar através de uma série de actividades não incluídas no Cortejo ou nas Noites do Parque, como a Serenata Monumental, o Sarau de Gala, a Récita das Faculdades, o Baile de Gala das Faculdades, a Venda da Pasta, o Chá das Cinco, o Chá Dançante e, por último, a Benção das Pastas que se realiza nos dias 18 e 19 de Junho na Sé Nova.
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