
«Muito muito obrigada! O vosso apoio é muito importante para nós», grita Ivan Kuzmin, engenheiro informático ucraniano, a viver em Portugal desde 2000. Acabou de cantar o hino ucraniano com os amigos, junto à Igreja de Santa Cruz, na Praça 8 de Maio, centro de Coimbra. Visivelmente agitado e comovido, repete agradecimentos enquanto segura um cartaz onde está escrito, em inglês: «Nós odiamos-te Putin.»
«Parece que voltámos à Segunda Guerra Mundial, em que o Hitler fazia o que lhe apetecia. E a questão é: onde é que isto vai parar?», desabafa, pensando em todos os conterrâneos e nos primos, tios e avó em particular. «Aquilo que eles fazem é mesmo sacanagem. Por «aquilo», Ivan refere-se às campanhas de desinformação e propaganda disseminada na comunicação e redes sociais pelos apoiantes do governo russo, retratando a Ucrânia como hostil e um peão nas mãos do Ocidente.


A vigília de solidariedade com os ucranianos «contra a selvagem invasão russa» foi promovida de forma inédita por 13 forças políticas de Coimbra, com a participação de representantes dos partidos e movimentos políticos Aliança, BE – Bloco de Esquerda, CDS-PP – Centro Democrático Social, CpC – Cidadãos por Coimbra, IL – Iniciativa Liberal, NC – Nós Cidadãos, PAN – Pessoas Animais Natureza, PPM – Partido Popular Monárquico, PS – Partido Socialista, PSD – Partido Social Democrata, RiR – Reagir Incluir Reciclar, SC – Somos Coimbra e Volt Portugal.
Horas antes, outros membros da comunidade ucraniana em Coimbra reuniram-se também no Largo da Portagem, numa Manifestação pela Paz com o objectivo de apelar ao fim da invasão russa à Ucrânia e chamar a atenção da comunidade para a necessidade de recolher donativos e bens para apoiar os ucranianos que consigam sair do país e refugiar-se nos países vizinhos ou outros, como o nosso.
Ao lado de Ivan Kuzmin, estão os irmãos Ruslan e Roman Nayavko, também ucranianos, a viver em Coimbra há 8 anos. Dizem-nos que o pai tem uma transportadora que terça-feira, 1 de Março, levará até à Polónia toda a ajuda humanitária que conseguir reunir. Quem quiser contribuir com roupa, comida, água ou medicamentos para a recolha da Transportes Pascoal, em conjunto com os Transportes Marquês de Pombal, pode entregar directamente nas empresas, ambas no IC2 entre Coimbra e a Mealhada, até ao final do dia (28 de Fevereiro).

«Adoramos Portugal. Eu sinto-me português e se houvesse aqui uma guerra eu ia defender este país também. O meu coração está com os dois», diz Roman, natural da cidade de Lviv, próximo da Rússia, neste momento um dos últimos pontos de paragem para os refugiados em fuga da guerra na Ucrânia. «A nossa família está toda lá, para já em segurança, esperamos que os russos recuem e não chegue a ser atacada», atira Ruslan. Perguntamos quais seriam as melhores notícias que podiam receber. «Que o povo russo vai sair para as ruas e manifestar-se. As notícias deles são que a Ucrânia está a destruir a Rússia e isso não é verdade.»


«Só esta manifestação de apoio já ajuda muito», diz Roman, e ouvimos uma senhora aproximar-se e perguntar: «Tenho aqui um saquinho, a quem posso entregar?» É a vez de Tatiana Varanovsk ficar comovida. Tapa a boca e as lágrimas saltam-lhe dos olhos. «Muito obrigada por tudo e por estarem aqui connosco», diz. «Estive a mandar agora uns vídeos para os meus pais, que não conseguem fugir daquela zona, só para mostrar que todo o mundo está a apoiar.» Tatiana conta que se esforça por fazer o que está ao seu alcance e que é tentar, juntamente com outros conterrâneos, espalhar informações pela internet, sobretudo no Facebook.


Do alto do muro, junto à entrada da Câmara Municipal, ouve-se Margarida Pocinho gritar «Glória à Ucrânia!». Parece ucraniana mas é portuguesa, o chapéu de pelo engana. «Foi uma amiga que me deu. Estou aqui pela Ucrânia, porque acho que transmite algum conforto; acredito que estão aqui muitos ucranianos e muitas ucranianas que enviam estas fotografias e notícias para o povo que está lá a lutar e que isto lhes dá ânimo. Estamos com eles. Estamos perto.»
Ao lado, Luís Carlos acrescenta: «Sempre que os russos vêem uma manifestação em qualquer parte do mundo, o apoio que as pessoas estão a dar a esta causa, desfavorece-os.»


Por todo o país multiplicaram-se as manifestações de apoio ao povo ucraniano. Além de Lisboa e do Porto, há notícias de que centenas de pessoas se reuniram nas ruas desde Braga, Paços de Ferreira, Leiria, Viseu, Marinha Grande e Pombal até Faro com cartazes com mensagens de apelo à paz, a pedir o fim da guerra, de solidariedade com o povo ucraniano e protesto contra o governo russo liderado por Vladimir Putin.
A onda solidária vai mais longe e multiplicam-se também as recolhas de alimentos, roupas, medicamentos, artigos médicos e de primeiros socorros. Na Coimbra Coolectiva juntamo-nos à causa e estamos a reunir todas as informações sobre o concelho de Coimbra que vamos divulgar assim que possível. Se tiverem informações, partilhem-nas connosco para o email: geral@coimbracoolectiva.pt.
