Rita observou um raro fenómeno: dezenas de pessoas, desconhecidas, reunidas há quase duas horas sem olhar para os telemóveis, escutando-se pacientemente.«Isto é muito difícil de se conseguir hoje em dia e eu estou-me a sentir privilegiada de estar a viver este momento aqui convosco», disse ela, numa das mais lúcidas reflexões da sessão zero do Clube de Leitura Coolectiva. Apesar do frio e do chuvisco da noite desta sexta-feira, 9 de janeiro, os participantes foram chegando, enchendo a sala do TUMO Coimbra com livros na mão e vontade de partilhar.

À frente do clube está Martha Mendes, que lançou as quatro perguntas — nome, idade, motivo para estar ali, um livro marcante — e depois recuou um passo, abrindo espaço para um exercício de escuta quase extinto: em círculo, todos falaram, todos ouviram, quase sem interrupções. Muitas pessoas traziam os seus livros preferidos na mochila e mostraram-nos, trocando impressões.

Da antiga bibliotecária de 71 anos ao engenheiro civil que «descobriu» a leitura há pouco tempo com Zafón, da professora que lê para recomendar livros aos alunos à leitora que atravessou anos de Ulisses sem se permitir desistir, a sessão mostrou uma sala radicalmente heterogénea. Médicas, programadores, estudantes, professores, engenheiros, bancários, músicos, contabilistas, leitores que nasceram em Coimbra, em África ou no Brasil – e outros que vieram da Alemanha ou até da Letónia – compuseram um retrato inesperado da comunidade leitora da cidade.

Leituras que unem e surpreendem

Durante quase duas horas, o que ligou toda esta gente foi uma ideia repetida ao longo da noite: ler é sempre surpresa e encantamento, mesmo quando o livro é difícil, desconfortável ou nos obriga a abrandar. Houve quem confessasse que cria relações tão intensas com personagens que sente saudades quando o livro acaba e quem assumisse, entre risos, um problema comum: «Como é que se pedem livros de volta sem ser indelicado?».

Na ronda inicial, os títulos formaram uma espécie de mapa afetivo: Balada de Amor ao Vento e Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane, ao lado de Ulisses, de James Joyce, e de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Passaram pela conversa O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse; O Homem em Busca de um Sentido, de Viktor Frankl; As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino; Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos; ou ainda policiais de Manuel Vázquez Montalbán. Num momento especialmente revelador, quando dezenas de participantes foram citando os autores que mais os movem, o nome de Afonso Cruz acabou por ser o mais mencionado entre os autores portugueses, confirmando a forte presença que a sua obra já tem entre os leitores do clube.

No final da sessão, já depois de dezenas de apresentações, Martha Mendes tentou pôr em palavras aquilo que se tinha passado naquela sala. «Esta sessão zero foi um primeiro encontro para nos conhecermos uns aos outros e a história de cada um enquanto leitor, e foi realmente um momento muito especial de partilha, escuta e encontro», resumiu, sublinhando a diversidade de idades, nacionalidades, profissões e percursos ali reunidos e o «poderoso elemento de união» que é a Literatura.

A mediadora assumiu também o desafio dessa heterogeneidade: sem conhecer previamente o grupo, foi difícil escolher as obras para o primeiro debate formal do clube. Mas dessa dificuldade nasceu uma pista para o futuro: a atenção às preferências por poesia, pela língua portuguesa e por ficção que dialogue com questões políticas e com o tempo presente.

Próxima paragem: dia 30

A primeira sessão «oficial» do Clube de Leitura Coolectiva ficou marcada para a última sexta-feira do mês, 30 de janeiro, às 19h, novamente no TUMO Coimbra. A partir daí, queremos manter a cadência mensal, sempre à sexta-feira ao fim da tarde, com encontros pensados para durar cerca de uma hora e meia, com intervalo no meio e lanche partilhado. As inscrições estão agora encerradas e o clube seguirá em frente com o grupo já formado, que conta com quase 90 participantes entusiasmados.

Para esse primeiro encontro, Martha propôs dois romances recentes, que os participantes poderão escolher livremente: A Idade Frágil, da italiana Donatella Di Pietrantonio, inspirado num crime verídico na região de Abruzzo e vencedor do Prémio Strega, e Huris, do argelino Kamel Daoud, distinguido com o Prémio Goncourt 2024 e proibido na Argélia por abordar a guerra civil dos anos 1990. Na mensagem enviada depois da sessão zero, a mediadora deixou um convite claro: não é preciso ler os dois livros, basta ler um e trazer ideias e vontade de partilhá-las.

Entre o receio de falar em público e a excitação de finalmente encontrar «um sítio para falar de livros com quem também gosta de ler», a sessão zero do Clube de Leitura Coolectiva deixou promessa de continuidade. No fim de janeiro, voltamos ao TUMO, com novas leituras, novas vozes e partilhas e o mesmo impulso simples que fundou este clube: parar para ouvir o que os livros têm para nos dizer.

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Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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