«A maior tradição que os estudantes de Coimbra têm ou pelo menos dizem ter é a irreverência.» O testemunho de Paulo Ramos nos jardins da Associação Académica de Coimbra (AAC), no passado dia 19 de Junho, resume bem o que aconteceu na conferência Os Jardins e Edifícios da Associação Académica de Coimbra, integrada nas comemorações do 10º aniversário da inscrição da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia no Património Mundial da UNESCO.

Foi na antiga cantina dos Grelhados do edifício da AAC. Um espaço renovado – e rebaptizado de Bloco 2 – que tem vindo a ser alvo de controvérsia devido à cisão dos Grelhados com uma chapa de ferro, colocada sem qualquer cerimónia ou comunicação prévia com os estudantes. Decorado por fotos a ilustrar o aspecto inaugural do edifício-sede e jardins da AAC, o encontro prestava-se a ser uma oportunidade de se desenhar um futuro que não só passasse pela requalificação desses espaços, mas visasse igualmente a partilha de opiniões – e áreas – entre a AAC, A Universidade de Coimbra (UC) e o Teatro Académico Gil Vicente (TAGV).

Amílcar Falcão inaugurou o debate com uma intervenção a realçar esse visual do passado, referindo a necessidade de requalificação com um forte ênfase na dificuldade da gestão do património enquanto «desafio da própria Associação de criar mais espaço e condições para as secções culturais». Seguiram-se as intervenções dos vários convidados para argumentar sobre a temática, que inicialmente acabaram por incidir mais sobre a índole histórica ou patrimonial do que sobre as necessidades pragmáticas.

Ver o futuro a olhar para o passado

Somente com a dissertação de António Pedro Pita, ao centrar o seu discurso na «tensão entre a longa duração da experiência histórica e a curta duração das vivências individuais» dos estudantes é que se deu o primeiro sinal da omissão dialéctica entre UC e AAC que funciona como agravante ao já hercúleo desafio de requalificação. Adiantou inclusive que os estudantes «têm toda a razão em não querer ser figurantes num filme», afirmando-os como «as personagens centrais da identidade cultural da cidade».

Ratificando desse modo as secções da AAC como verdadeiros agentes dinamizadores da cultura local – pois envergam um inegável valor patrimonial próprio –, as palavras do professor catedrático de Filosofia, Comunicação e Informação da Faculdade de Letras da UC e investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX encontraram eco nas restantes participações da parte da manhã. Fase inicial que Gonçalo Byrne encerrou ao sublinhar a dicotomia entre a cidade-memória e a cidade-viva, pondo em evidência que as cidades são entidades a lunga durata.

O arquitecto confidenciou-nos inclusive, no final do dia, que «a alternância rápida das direções e das associações académicas complica a gestão deste tipo de processos de requalificação, por si só já bastante moroso e complicado». Embora elogie a reitoria por assumir o processo, remata que «é fundamental ouvir os estudantes, pois eles são os utilizadores da obra e toda a arquitectura de uma cidade revê-se numa história colectiva, onde todos têm direito à palavra».

A Associação faz a força

Foi ao reclamar esse direito à palavra que a Direcção-Geral da AAC marcou presença na parte da tarde, usando a citada chapa de ferro enquanto manifesto claro da opacidade no diálogo até à data e a preocupação geral dos estudantes ao serem excluídos da conversa. Tanto o presidente da DG-AAC João Caseiro como o presidente do Conselho Cultural da AAC César Sousa abordaram a reitoria (representada na parte da tarde pelos vice-reitores Alfredo Dias e Delfim Leão) do outro lado da referida cerca metálica que tem vindo a servir de armazém para material relativo a diversas iniciativas da AAC, referindo que os estudantes não tinham acesso à parte onde decorria o debate.

Luísa Mendonça, presidente da Secção de Jornalismo da AAC que relatou a barreira em Fevereiro, entende que esta intervenção da DG-AAC foi oportuna ao aproveitar o momento para não se falar somente dos jardins, «porque é um tema altamente pertinente e estavam aqui presentes pessoas a servir como testemunhas que esse descontentamento existe», sublinhando a monopolização da discussão por parte da reitoria nos últimos tempos. De acordo com a estudante de Direito, «efectivamente não comunicam nem pedem opinião quando dizem muitas vezes que estão abertos ao diálogo».

«É fundamental ouvir os estudantes, pois eles são os utilizadores da obra e toda a arquitectura de uma cidade revê-se numa história colectiva, onde todos têm direito à palavra.»

Gonçalo Byrne, arquitecto

Com a divisória metálica a figurar como marco pontual e ilustrativo deste progressivo asfixiar do espaço estudantil, foi-nos igualmente relatada uma série de problemáticas na AAC – desde questões de acessibilidade até à falta de casas de banho funcionais – que demonstram um atrofio na comunidade académica. Ana Filipa Paz, que também pertence à redação do jornal A Cabra, aponta-nos a falha essencial: «O edifício está numa condição de degradação tão evidente que, neste momento, já põe em causa a segurança dos próprios estudantes».

Um relato marcante da estudante de jornalismo que, procurando não hierarquizar os vícios estruturais tão distintos como as secções do edifício, cinge-se à opinião de que «ao pensar-se e trabalhar num projecto que resolva estes problemas evidentes e a partir daí pensar numa forma de incluir todos, é importante que os estudantes sejam ouvidos». A esse entender colaborativo conjuga-se o desvendar de um projecto assinado por Byrne há mais de 15 anos que, na altura, nunca se chegou a implementar por questões financeiras e que o arquitecto espera recuperar em consórcio com a AAC e a reitoria da UC.

«O edifício está numa condição de degradação tão evidente que neste momento já põe em causa a segurança dos próprios estudantes.»

Ana Filipa Paz, estudante de jornalismo

Com esta revelação promissora, torna-se claro que a solução passa não tanto pela nostalgia restaurativa do passado, mas pela requalificação e manutenção dos espaços no futuro. Ao falarmos com Pedro Andrade, o mesmo relata-nos que já houve esforços da AAC para resolver as questões relativas às áreas verdes, como a iniciativa Valorizar os Jardins anunciada há cerca de um ano ou, antes disso, tentativas da DG-AAC ao negociar a gestão completa dos jardins para a empresa a cargo do Bar da AAC, com a condição obrigatória da mesma implementar a requalificação dos mesmos.

Infelizmente, nenhuma dessas investidas chegou a dar fruto. De momento, o Bar passou a ter apenas a gestão do espaço que está empedrado, estando a AAC responsável pelo resto dos jardins. Sucede que, por ser um espaço aberto ao público e propenso a festejos nocturnos, o controlo tem vindo a ser melindroso, ao ponto dos estudantes ponderarem o uso de sistemas de videovigilância. «Estamos num meio académico onde a festa e a boémia também faz parte mas, se calhar, há um excesso que é praticado aqui porque não tens alternativas de outros espaços que anteriormente já receberam esse ambiente festivo», aponta-nos Pedro Andrade, vogal do Conselho Cultural da AAC.

Mais espaço para entendimentos

O cariz sobrelotado do complexo e jardins da AAC reflecte-se não apenas nas questões de segurança e conforto, mas no atrofio cultural que as secções culturais e desportivas AAC têm vindo a sentir. Ramos, actual presidente do Centro de Informática da AAC (CIAAC), revela-nos que essa secção partilha o mesmo espaço com as secções Padel, Boccia e Jogos de Tabuleiro. «Tivemos de criar um formulário para que o pessoal visse se a hora já estava marcada ou não, porque não dá para uma utilização conjunta dadas as necessidades distintas de cada uma dessas secções.»

Situação que deriva da UC ter retirado o espaço originalmente atribuído ao CIAAC e que reflecte bem as dores de crescimento institucional da AAC nas últimas décadas, muito pela problemática de Coimbra olhar para o passado, como se tornou óbvio nas intervenções iniciais do debate. Como Andrade expôs, «desde a década de 60 que a vida universitária cresceu. Há mais estudantes, há mais actividade, há mais secções e o edifício manteve-se na mesma. E nalguns casos, como se vê aqui, até diminuiu», diz-nos enquanto aponta para a chapa de ferro. «As coisas não podem ficar assim, tem que haver soluções.»

Uma resposta que passa pela concordância que parece confirmar-se com o compromisso de assinatura de um Memorando de Entendimento entre a UC e a AAC. Este documento não só instituirá uma Comissão de Gestão partilhada e igualitária do espaço dos Grelhados, mas propõe-se igualmente a criar uma comunicação mais transparente entre a UC e a AAC nas decisões relativas a esse e eventualmente outros espaços, de modo a que no futuro nenhuma das partes seja surpreendida por alterações ou altercações como as dos últimos meses.

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