Com uma actividade que se tem cingido apenas à recolha e entrega directa de alimentos a entidades parceiras, a Refood prepara-se agora para abrir uma cozinha. Este é o grande desafio de 2022. «Vamos ver o que temos hoje», é o que lança Fernanda Branco no início da sua rota para recolha de excedentes alimentares por volta das 20:30. É quarta-feira e o percurso inclui três pastelarias.
Esta é a rotina diária dos cerca de 90 voluntários da Refood. Ao cair da noite, em viatura própria, recolhem comida em pastelarias, restaurantes, cantinas e em grandes superfícies da cidade. No total são 31 as fontes de abastecimento. Fernanda Branco chegou à Refood, em finais de 2019, motivada pela vontade de fazer voluntariado e este movimento, conta, pareceu-lhe ser o mais acertado, tendo em conta que existe um grande desperdício do qual nem temos consciência.

«São coisas que vão para o lixo e há tantas pessoas que precisam delas», observa. No ano passado, a Refood em Coimbra recolheu 5.751 refeições e quase 33 mil unidades de pão e bolos. De fora destas contas estão ainda as recolhas de grandes superfícies, que arrancaram em meados do ano. Mas nem todos os dias há alimentos para recolher em todos os locais onde os voluntários vão. Aconteceu numa das pastelarias. Mas isso também diz bem da gestão que existe nos estabelecimentos, sublinha.
Miguel Moura, voluntário da Refood há três anos – dois passados em Lisboa e último em Coimbra. Sobre a experiência em Coimbra, é peremptório: «não vejo de modo algum a quantidade de comida que vi em Lisboa.»

Desafio para 2022: uma cozinha
Os alimentos recolhidos pelos voluntários são entregues directamente em instituições de solidariedade social, que trabalham, por exemplo, com idosos, famílias em recuperação ou sem-abrigo. Em plena pandemia o número de beneficiários aumentou: em Março de 2020 eram 10 as instituições, actualmente são 20. «Foi possível porque, em Junho, iniciámos recolhas diárias em quatro grandes superfícies comerciais e com isto aumentámos a quantidade de alimentos recolhidos», esclarece Marta Graça um das coordenadoras do movimento.
Para este ano, o desafio da Refood em Coimbra é a abertura de uma cozinha. A expectativa é de abrir na Primavera e que o novo espaço permita manusear e armazenar os alimentos recolhidos. Além de criar um projecto com maior abrangência, vai ser possível ir a mais estabelecimentos e entregar comida também a famílias, assegura Marta Graça. Ainda assim, para já, as recolhas e entregas directas vão manter-se por receio de não haver capacidade para tratar todos os alimentos, dado que o espaço é pequeno.

«Numa situação óptima, o ideal era irmos buscar os alimentos, levar para esse espaço e dividirmos de forma equilibradas, fazendo refeições equilibradas para entregar a famílias», explica a coordenadora da Refood. A existência deste espaço será positiva na opinião de Miguel Moura. Essa, aliás, é uma das grandes diferenças que encontra na acção do movimento na cidade e em Lisboa, onde começou a fazer voluntariado há três anos. Por questões profissionais está em Coimbra há um ano. No núcleo que integrava na capital, o de Santa Clara, havia um espaço para acondicionar comida que era distribuída diariamente ao final do dia, bem como uma carrinha que fazia recolhas de manhã à noite. As distribuições eram directas a cerca de 80 agregados familiares.
«Distribuíamos cabazes com mercearia, fruta e pratos feitos adaptados a cada agregado». Marta Graça tem a certeza que, em Coimbra, assim que o centro de operações abrir, vão surgir muitas famílias e o desafio passa também por estarem preparados para ter capacidade de resposta. A coordenadora lembra que a regra da Refood é que não seja negada comida a quem pede ajuda, para além da articulação feita com instituições e redes sociais da cidade para que quem realmente precise de apoio o tenha.

Os efeitos da pandemia
Com a pandemia também a acção da Refood foi afectada. Fernanda Branco sentiu uma redução muito significativa de excedentes alimentares nas recolhas. Nas rotas que realizou, ainda antes do primeiro confinamento, a quantidade de alimentos era muito maior, recorda. Mas com o fim das restrições houve uma estabilização: «Agora já há mais normalização». Marta Graça estima que, durante a pandemia cerca de cinco por cento dos estabelecimentos que forneciam alimentos ou não voltaram a abrir ou não nos voltaram a contactar.
Os últimos dois anos representaram também mais procura, com Marta Graça a contabilizar mais pedidos de pessoas. Mas da forma como trabalhamos, não conseguimos ajudar directamente famílias porque não há um espaço, lamenta. A pandemia também significou mais voluntários para a Refood, considerando Marta Graça que a situação que se vive há dois anos trouxe alguma consciencialização para pessoas em situações de vulnerabilidade.

Passo a passo da consolidação
Quem está no terreno sente alguns desafios. Fernanda Branco destaca a forma como, por vezes, os voluntários são tratados: «Não estou a dizer que são todas, mas podemos encontrar pessoas que olham para nós como se aqueles bens fossem directamente para nós e não como uma peça a tentar ajudar». A Refood tem vindo, no entanto, a conquistar o seu espaço. Passo a passo. «Chegar às três dezenas de pontos de recolha», conta Marta Graça, «foi mais difícil no início de actividade». Se na primeira fase, foi preciso bater porta a porta a explicar o projecto, hoje, com o reconhecimento do movimento são os estabelecimentos que nos vêem como um parceiro seguro.
Já havia instituições que, não tendo por missão resgatar alimentos, já faziam esse tipo de trabalho. «Daí que», acrescenta, «tivesse sido preciso alguma sensibilidade na abordagem para não sermos acusados de estar a querer alterar algo que já estava a funcionar tão bem». A aceitação por parte da sociedade também tem sido satisfatória e a procura por parte da sociedade civil tem sido elevada. Semanalmente, temos uma média de quatro a cinco novos voluntários interessados, mas a taxa de retenção é mais baixa, aponta Marta Graça.

«As dificuldades para manter os voluntários prendem-se», justifica Marta Graça,« também com o tipo de entregas indirectas e com os horários das rotas por tornarem mais complicada a gestão da vida pessoal. Há depois oscilações, sobretudo ao fim-de-semana, porque entre os voluntários há estudantes. A cidade é, as vezes, mais de trabalho e não tanto de lazer. Por ser uma recolha de entrega directa a instituições, o trabalho da Refood em Coimbra acaba por ser diferenciado do desenvolvido em outras cidades. Em Lisboa era mais duro porque contactava diariamente com as necessidades das pessoas: a idade, a fragilidade, as carências, as queixas. No início, muitas vezes ia para casa incomodado», recorda Miguel Moura.
Apesar de não haver contacto directo com as instituições beneficiárias os voluntários não ficam indiferentes ao trabalho desenvolvido. Há uma realidade paralela que é a das instituições, descreve Fernanda Branco. A voluntária admite desconhecimento que tinha sobre algumas delas, apesar de viver na cidade há cerca de 40 anos. A realidade também a surpreendeu por Coimbra ser uma cidade tão pequena. «Há muita gente a precisar e muita gente a trabalhar nessas instituições, e depois estamos nós aqui, a tentar dar mais um bocadinho de mimo», conclui.
