Aconteceu na aula de Estruturas da Língua Portuguesa no Colégio São Jerónimo, onde há algumas aulas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. No meio dos alunos, todos estrangeiros, estavam Olesia Matusevych e Tetiana Olefirova, jovens ucranianas. Aquelas eram as primeiras horas de uma Ucrânia sob ataque russo e o mundo estava com a respiração em suspenso. Como Mikhail Zaitsev, a professora Liliana Inverno também não tinha conseguido dormir na noite anterior: «Passei a noite a pensar como iria encará-los e falar de determinantes demonstrativos a pessoas que não sabiam ao certo se a família estava viva.»
Olesia Matusevych, natural de Dnipro, é colega de turma de Mikhail. Ela chegou há pouco mais de seis meses em Portugal, é advogada e trabalha para uma organização que trata de doentes com tuberculose. Olesia conseguiu apoio de amigos para trazer alguns familiares, apenas mulheres e crianças, que viajam lentamente de Dnipro até Coimbra: «Minha mãe e meu irmão de 12 anos ficarão comigo, meu pai segue na Ucrânia a combater. Vou receber algumas vizinhas, uma tia, uma afilhada, minha avó – ao todo dez pessoas, que não falam português nem inglês e dependerão exclusivamente de mim. Sou muito grata aos portugueses e peço que tentem não culpar todo o povo russo… tenho muitos amigos russos e todos são contra esta guerra», pede Olesia.

A viver em Portugal desde setembro passado, Tetiana Olefirova nasceu em Odessa e está com o marido e um gato em Coimbra. A família se recusou a sair da Ucrânia, o que coloca Tetiana em permanente estado de alerta: «Putin age como Hitler. Ele e boa parte dos russos quando tentam se apoderar de outros países. Vejo em redes sociais comentários russos que dizem “nós estamos a salvar vocês” e “vocês estão renegando suas origens”. Pergunto: Como assim, porquê? Até entendo que tudo é uma demonstração de força, mas é muito difícil de aceitar», diz Tetiana.
Na sala de aula em Coimbra, Liliana ouvia o pedido de Mikhail e limitou-se apenas a dizer «faça favor». O estudante russo falou primeiro em português, mas o nervosismo o obrigou a mudar para inglês: «Peço desculpas a todos vocês, pois o presidente da Rússia, meu país, começou ontem à noite uma guerra contra a Ucrânia e eu peço imensas desculpas em nome do povo russo. Quero que todos vocês saibam que o povo russo e Putin não são sinónimos, esta invasão não é unanimidade! Em especial para as minhas colegas ucranianas, quero oferecer meu apoio e minha solidariedade. É importante para mim dizer hoje que existe um povo russo contra a invasão e contra Vladimir Putin», desabafou Mikhail Zaitsev, engenheiro de comunicação a viver em Portugal desde outubro do ano passado.

«Foi isso exatamente isso o que ele disse e eu tive de reunir toda a minha força para não chorar, mas a maioria das pessoas na turma não conseguiu suster as lágrimas, aquilo foi uma demonstração genuína de empatia num espaço sem nacionalidades, apenas um sentimento de empatia pela angústia e dor do outro e isso é uma coisa muito rara de se testemunhar», descreve Liliana Inverno. «Ao final todos os estudantes o cumprimentaram antes de irem embora. Mikhail demorou a sair da sala parecia que carregava todo um fardo às costas».
Olesia e Tetiana foram falar com ele que ofereceu boleia para a manifestação que aconteceria dois dias depois em Lisboa e que reuniu quatro mil pessoas frente à embaixada russa. Os três foram juntos. Mikhail insistiu em pagar sozinho o combustível e portagens.
