Coimbra foi palco de uma competição tecnológica internacional, mas o que aconteceu nos bastidores do Tech Challenge está longe de ser só inovação.

Em poucos dias, startups estrangeiras chegaram, representantes de grandes empresas circularam pela cidade — e enquanto palestras e negócios decorriam atrás de portas fechadas, grupos de cidadãos montaram faixas, ergueram cartazes e exigiram respostas sobre o uso de dinheiros públicos, transparência e ligações internacionais que ninguém quis esclarecer.

O Coimbra Tech Challenge apresentou-se como uma competição internacional de startups, promovida pela Câmara Municipal, pelo Instituto Pedro Nunes e pela empresa Impact – da empresária israelo-americana Nirit Harel, com apoios financeiros e institucionais de grandes empresas nacionais como Brisa, NOS, Semapa, Santander, Visabeira e Morais Leitão.

O programa tem o objetivo de atrair empresas inovadoras estrangeiras para a cidade, oferecendo mentoria especializada, rede de contactos e eventual instalação em espaços especialmente preparados na Baixa da cidade.

Entre o Pátio da Inquisição, o Instituto Pedro Nunes e a Câmara Municipal de Coimbra, a semana ficou marcada tanto pela corrida à inovação como pela contestação social. Manifestantes pediram explicações, as instituições preferiram comunicados e o futuro do evento permanece envolto em perguntas sem resposta.

Os coletivos Vigília por Gaza Coimbra, Coimbra pela Palestina e Assentadas desafiaram o silêncio institucional e trouxeram o debate para as ruas — e para dentro dos gabinetes, onde a resposta oficial ficou aquém das perguntas.

O Coimbra Tech Challenge começou oficialmente no dia 19 de outubro. A 20 de outubro, grupos organizados de cidadãos realizaram uma ação de protesto no Instituto Pedro Nunes, com faixas, cartazes, megafone aberto e um buzinão, numa assentada pacífica já noticiada pela imprensa local.

No dia 23, último do evento, os mesmos coletivos manifestaram-se em frente à Câmara Municipal, entregando um documento que exigia esclarecimentos sobre o financiamento e o processo de seleção das startups, e denunciava a falta de transparência na organização.

Apesar do evento ter uma agenda intensa em diversos locais emblemáticos, as listas completas de startups participantes e vencedoras não foram divulgadas publicamente, assim como o orçamento detalhado e os critérios exatos de seleção. Essa reserva inédita para uma iniciativa com financiamento público alimentou as dúvidas que levaram às manifestações.

As críticas e os protestos

Os movimentos Vigília por Gaza Coimbra, Coimbra pela Palestina e Assentadas têm denunciado nas suas publicações o que classificam como «uma conivência com empresas israelitas» num contexto marcado por críticas internacionais à atuação do Estado de Israel em Gaza.

O manifesto entregue na Câmara Municipal, além de acusar as entidades organizadoras de ajudarem a «branquear as ações do Estado de Israel» ao permitirem a participação e potencial instalação de «empresas ligadas a Israel», também menciona a existência de agentes internacionais ligados à promoção do evento. Segundo o documento, esses agentes e promotores, incluindo empresários israelitas e figuras do ecossistema de inovação israelita, tiveram um papel significativo na organização e direcionamento do Coimbra Tech Challenge. O manifesto destaca que esta influência internacional contribui para o secretismo que envolve o evento e reforça o pedido de transparência total sobre todos os dados do programa, sublinhando a responsabilidade do município e do Instituto Pedro Nunes em esclarecer esses pontos.

A Coimbra Coolectiva solicitou esclarecimentos formais ao presidente da Câmara Municipal, José Manuel Silva, ao presidente do Instituto Pedro Nunes, João Gabriel Silva, e à presidente eleita da autarquia, Ana Abrunhosa.

Foram enviadas perguntas directas e específicas com o objetivo de esclarecer pontos cruciais que permanecem obscuros no evento. Além de investigar o envolvimento financeiro e institucional da Câmara, solicitámos a divulgação da lista completa de startups participantes, dado que essa informação ainda não foi tornada pública. Questionámos igualmente quais os critérios e os métodos aplicados para a seleção das empresas, bem como a identificação de todos os membros do júri responsáveis pela decisão final sobre as startups vencedoras – e quais são elas. Estas questões visam garantir transparência num processo que, até agora, tem sido marcado por dúvidas e falta de informação ao público.

As respostas oficiais

As respostas enviadas pelas assessorias da Câmara e do IPN chegaram na forma de um comunicado conjunto, sublinhando que o evento foi um «sucesso» que ampliou o estatuto de Coimbra como polo de inovação e empreendedorismo internacional.

O comunicado destaca a participação de cerca de 100 startups de várias sectores e regiões, incluindo a «particular atenção a Israel», país com a «maior densidade de startups inovadoras no mundo», e anuncia a intenção de direcionar a próxima edição para a Índia.

No entanto, não foram divulgadas as listas de participantes ou vencedores, nem houve detalhamento do orçamento, dos apoios públicos utilizados ou dos critérios de seleção. O texto redigido não respondeu diretamente às perguntas mais críticas da reportagem.

A presidente eleita Ana Abrunhosa, contactada antes da tomada de posse, afirmou que «não dispõe de informação para responder com rigor e isenção» e que irá avaliar a pertinência do evento após assumir funções, em novembro.

O que permanece por esclarecer

A ausência de dados concretos sobre as startups participantes, a composição do júri, os valores de financiamento e os mecanismos de seleção reforça as suspeitas de opacidade levantadas pelos coletivos.

Apesar dos protestos públicos e do pedido de esclarecimentos da imprensa, nem a Câmara nem o IPN tornaram acessível documentação detalhada sobre o evento, o que deixa várias interrogações por responder. Este episódio ocorre em contexto de elevada sensibilidade internacional sobre a guerra em Gaza e o debate acerca da cooperação económica com Israel, sobretudo nos países europeus.

Em Coimbra, o caso evidenciou fragilidades institucionais na comunicação e na transparência em projectos públicos de inovação.

Com a tomada de posse do novo Executivo na Câmara programada para 4 de novembro, resta aguardar as decisões da nova direção sobre a divulgação destas informações relevantes sobre a edição de 2025 do Coimbra Tech Challenge, o futuro do evento face às propostas do novo Executivo para a criação de um distrito de inovação na Baixa e a eventual revisão dos seus critérios e parcerias.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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