Chegou ao mercado na quarta-feira de manhã, por volta das oito, e encontrou a rua já cortada com fitas e sinais de proibição. Pouco depois, «começaram a cair pedras na cobertura junto à peixaria; os pequenos deslizamentos viraram derrocada», forçando a evacuação dos que ali trabalham e o fecho das lojas nos pisos 0 e 1.

«Já vínhamos com constrangimentos desde a depressão Kristin. Os fornecedores têm dificuldade, os agricultores não conseguem ir ao terreno colher. Perderam estufas, infraestruturas», conta Filipe, que acrescenta: «Estes pequenos negócios vivem das vendas do dia-a-dia. Cada dia fechado é prejuízo – e apanha um sábado, que salva a semana». O mercado ainda abria, os clientes chegavam – agora é silêncio e dificuldade nas contas.

Há uns anos contámos a história de Filipe Duarte e do Super Local, criado para encurtar distâncias entre pequenos produtores da região e quem quer saber a origem do que come. De banca no Mercado do Calhabé aos sábados, passou ao D. Pedro V, aliando-se a outros comerciantes e restaurantes que apostam em ingredientes locais. É através dele que espreitamos agora o impacto no mercado e na teia de negócios que o anima.

Depressões sucessivas, cheias, derrocadas, estradas cortadas e famílias desalojadas: Coimbra vive semanas de alerta, com o Mondego a testar diques e 881 ocorrências registadas. A queda parcial da Cerca de Santo Agostinho chegou ao centro e ditou o encerramento preventivo do mercado, por decisão da Câmara e Proteção Civil.

A medida visa proteger quem trabalha e frequenta o espaço, após chuvas intensas; o Mercado Municipal D. Pedro V permanecerá encerrado até o próximo dia 16 de fevereiro, inclusive. Nessa data será efetuada uma nova avaliação das condições de segurança, após a qual serão comunicadas novas informações.

Os sucessivos golpes no pequeno comércio

«Cascata de eventos: há dois anos com obras do Metrobus, acessos limitados, tempestades e agora esta derrocada», resume Filipe. Para operadores miúdos, uma interrupção pesa; repetida, ameaça a sobrevivência. Dos produtores chegam relatos duros: «Investimentos grandes em estufas e plantas que desaparecem numa noite, seguros que nem sempre cobrem tudo», nota ele. Há subidas de preços e escassez pontual, mas resiliência; os danos em armazéns podem cortar a oferta local mais tarde.

Entre uma entrega e outra à porta de um restaurante parceiro, Filipe falou-nos do dia reorganizado: «Cabazes de mercearia, garrafas, frascos levados a casa, para equilibrar o fecho da banca. O calcanhar de Aquiles são os frescos: sem o vaivém das seis da manhã, sem produtores a montar bancas, faltam produtos que clientes esperam», explica.

Apelo à cidade que faz a diferença

Filipe não pede só à Câmara ou ao Governo: «Quem nos pode ajudar mesmo são as pessoas de Coimbra, clientes antigos e novos. É preciso que comprem para mostrar apoio ao comércio local. Cabe a todos nós decidir se queremos lojas vivas ou centros iguais aos supermercados sem alma.

«É essa malha de lojas únicas, mercados regionais, que dá identidade à cidade. Sem ela, Coimbra vira standard, igual em todo o lado», avisa. Num tempo de casas e telhados perdidos, que a cidade segure quem a anima.

Percorremos os corredores do mercado fechado guiados pelo Sr. Jorge, funcionário há nove anos que nos leva pela peixaria sem luzes: «Não vale a pena acender, não há o que fazer». Para ele, «somos uma família aqui, custa passar tempo sem eles». Mesmo fechado, «abrimos a porta de dez em dez minutos, a dois ou três, para resgatar encomendas – senão perdiam tudo», conta. 

Este fecho não é só um talude instável: é a raiz histórica de Coimbra, feita de mercados e trocas entre campo e urbano. Proteger vidas é essencial – mas e depois? Como é que a cidade preenche este vazio, apoiando o local, mudando hábitos, cobrando soluções? A resposta define o que seremos quando a água baixar.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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