Em quatro minutos e meio, duas centenas de pessoas, reunidas no mesmo espaço, muitas sem nunca terem trocado uma palavra antes, vão sentir-se capazes de subir a um palco e dizer que são a solução para um problema. Para trás estão quase oito horas de trabalho nas antigas instalações da Coimbra Editora onde as ideias voltaram a ter um som: um intenso e contínuo burburinho, a unir o mar de gente que pelas 9h da manhã de Sábado se juntou à segunda edição da Geração Coolectiva e não desmobilizou até ao final do dia – nem mesmo depois de um inusitado desafio para dançar a Macarena ter servido de isco para virar as atenções da sala para um tema sempre cinzento nestes cenários: dinheiro. Será um dos raros casos em que os fins justificam os meios. Daqui saíram 27 projectos para cidade e a convicção de que as pessoas não só continuam a querer mudar o mundo como têm a certeza de que vão fazê-lo.

«Coragem. Foi o tema que marcou o dia» conclui Mário Gago, CEO da Pink Room, ao destacar o «intenso trabalho» e a «muita capacidade» de «todos estes empreendedores sociais que querem inovar e melhorar a cidade». Mário Gago fez parte do júri que avaliou os projectos gerados no nosso evento e vai ser um dos mentores dos 16 escolhidos para passar a fase seguinte: o programa de capacitação para pôr as ideias em prática.

À semelhança da última edição, os participantes foram distribuídos por mais de vinte mesas, organizadas por temas e orientadas para um objectivo: cada uma fechar o dia com pelo menos uma solução viável para um problema identificado em Coimbra, apresentada num pitch de dois minutos. As propostas gravitaram para o uso comunitário dos espaços públicos e para a proximidade – entre gerações, bairros, vizinhos e novos moradores, muitos deles migrantes. Foram validadas as ideias «mais exequíveis» e com «potencial de impacto», sem que o júri deixasse de pensar em todas as outras. «Há vários projectos que potenciam a partilha de conhecimento e levam as pessoas para a rua, para os jardins, para se tornarem responsáveis pelo espaço público», resume Mário Gago.

«É inacreditável ver todas estas pessoas a trabalhar em soluções e, num dia, apresentar propostas de qualidade. A diversidade de temas – ambiente, economia circular, mobilidade, integração – mostra o que é uma cidade», acrescenta João Bigotte, engenheiro e também membro do júri. «Comoveu-me o mar de gente que assume, diz e está disposta a dar o seu tempo para uma cidade que tem de ser melhor vivida, tem potencial e é de todos», reforça Désiree Pedro, arquitecta e responsável pela organização da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. «Estamos a viver um momento especial em Coimbra», diz, ao destacar como ideia vencedora um projecto que até acabou por não ser validado pelos restantes membros do júri: a criação de uma Academia Cidadã, um centro de apoio técnico aos cidadãos interessados em influenciar o poder político.

Visto por quem vem de fora, o «momento especial» sentido na Geração Coolectiva tem um nome: «Vontade de mudança», sinaliza Catarina Carvalho, directora do jornal digital A Mensagem de Lisboa que, como nós, também faz «esse jornalismo de ser um vizinho bom, que pode mudar a cidade». «As pessoas querem tomar em mão projectos que deviam ser de entidades públicas e isso prova que sentem que é preciso mudar muita coisa. Ver reunir esta actividade de cidadania à volta de um órgão de comunicação social é super emocionante», realça.

«Vírus» e outras ideias irrequietas

Declaração de interesses: as ideias cool que vamos destacar são os favoritos do nosso jornalista Rafael Vieira, arquitecto, que, enquanto membro do júri, valorizou «muito os projectos que podem ser replicáveis», como o Solum 21, um movimento que propõe intervenções cidadãs para devolver o sentido de comunidade ao bairro, com a limitação ao tráfego automóvel e criação de zonas de coexistência para que, «pelo menos a cada domingo», «pessoas que andam a pé, de skate ou de bicicleta» possam circular em segurança e sentir que vivem numa cidade dos 15 minutos.

«Este projecto tem potencial de deixar uma semente e fazer com que outros bairros se associem», frisa Rafael Vieira, para quem «a Geração Coolectiva é um vírus». Ele explica: «São vários os projectos que vão fazer com que as pessoas olhem para Coimbra, se envolvam e queiram fazer coisas bonitas».

Parque Inquieto entra também na lista das ideias com potencial de contágio, com origem num grupo de «pessoas de quadrantes diferentes que convergiram para esta ideia de há uma deficiente utilização dos jardins públicos por parte das famílias e das crianças», situa Luísa Cardoso. A ideia é distribuir QR Codes pelo Jardim Botânico, Sereia, Choupal, Parque Verde e Vale de Canas que, quando lidos, mostrem o calendário de actividades previsto para as zonas verdes da cidade, combinado entre juntas de freguesia, associações, escolas e grupos culturais.

Falámos os sonhadores-fazedores do Parque Inquieto horas antes da preparação o pitch, ensinada por Pedro Girão (CEO da Triber), das dicas para a construção do plano de execução da ideia dadas por Hélder Loio (TUU) e das estratégias para a angariação de fundos partilhadas por Filipa Morais (Aldeia de Crianças SOS).

Quando nos aproximámos da mesa, mediada pelo professor José Carlos Mota, o projecto andava já à volta do conceito «activadores de parques», com Luís Silva empenhado em garantir às crianças brincadeiras na rua livres de ecrãs até Fabiana lembrar que «a tecnologia pode ser uma aliada» e, no regresso à ideia de «humanização» dos espaços públicos, devolvida por Ana Maria, Filipe Carvalho responder que «os activadores podiam pegar nos grupos profissionais de teatro e criar um calendário de actividades regulares nos parques». O rápido ping-pong de ideias terminou com Luís a reconhecer, ao fim de poucos minutos, que a tecnologia pode servir para dizer: «Olha, hoje vamos ao parque». Gonçalo Cartaxana, o mais jovem da mesa, assistia maravilhado: «Defrontei-me com perspectivas diferentes que tive de tentar perceber e conjugar. Isto dá-nos vida», diz.

Noutros casos, a diversidade de ideias resultou na apresentação de mais do que um projecto por mesa. Foi assim num dos vários grupos que passaram o dia à procura de respostas para população idosa. José Pratas chegou com a «ideia de criar clubes de bairro destinados a pessoas entre os 65 e os 75 anos». E logo durante a manhã, Maria José Pessoa já assumia que a ideia que trazia para mesa – «criação de um diálogo intergeracional» – «era complementar». Na cadeira ao lado, Francesco Navarrini avançou para a apresentação de uma plataforma para colocar em contacto doentes com cuidadores, validados por entidades certificadas e com garantia de confiança. Os dois projectos passaram para o programa de capacitação.

Dicas «para a vida»

«Só tenho vontade de ir às mesas, sentar-me e perguntar o que precisam», reage Carla Duarte, gestora de inovação do Instituto Pedro Nunes, de olhos postos na nave da Coimbra Editora, depois de ter dado uma talk sobre soluções (e como devemos pensar para chegar a elas). «Temos de reconhecer esta vontade de participar. Não se pode perder este capital de pessoas que querem contribuir. O que levam daqui não é só para a sua ideia, é para a vida», realça.

«É muito interessante ver como, a partir dos materiais que nos dão, a gente consegue organizar uma ideia em pouco tempo e com grandes expectativas», refere Leandro Cordeiro, documentarista brasileiro que aderiu ao grupo São Flores, Coimbra, dos biólogos Silvia Castro e João Loureiro, que propõe a criação de Brigadas Profissionais de Jardineiros Amadores, uma rede colaborativa para revitalizar e manter os espaços verdes urbanos. «O Leandro trouxe-nos uma perspectiva muito interessante: temos de criar uma estratégia de comunicação para envolver os cidadãos», atira João Loureiro.

O cruzamento de profissões, interesses e perfis da Geração Coolectiva fez também com que «sete pessoas que não se conheciam» avançassem para a criação de um «agregador que juntasse pessoas interessadas em fazer a mesma actividade», que já tem nome e logotipo – Companhia Ativa. Outros sonham com um Coletivo de Coletivos, para aproximar as associações de Coimbra, e também há quem tenha chegado da Indonésia há um par de anos, entrado na Geração Coolectiva para apresentar o Ukele Social Club, que tem sido um instrumento de inclusão de migrantes através da música, e saído com a ideia de que a cidade «provavelmente, também precisa de uma cozinha pop-up multicultural», projecta Mira Octaviani, «super-inspirada». Andamos todos com apetite por outros mundos.

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