Em carta aberta, um movimento de cidadãos conseguiu nos últimos dias mais de 500 assinaturas a defender a manutenção da Anozero – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em vias de ser transformado num hotel. O manifesto, subscrito por artistas, programadores culturais, académicos, intelectuais, trabalhadores da cultura, estudantes e cidadãos, foi já enviado ao Governo e à Câmara Municipal de Coimbra (CMC), e renova os sucessivos apelos que têm sido feitos no último ano pela «construção de uma solução» que garanta a continuidade do evento no convento e mantenha a cidade no mapa europeu das grandes mostras de arte.
«Nós, fazedores/as e públicos, reivindicamos uma solução, construída por um diálogo, que permita que a Bienal Anozero solidifique a relação da arte com a vida desta cidade, a partir deste espaço [do Mosteiro]», pode ler-se na carta.
Organizada desde 2015, a bienal é também reconhecida pela nova vida que deu ao mosteiro, um edifício do século XVIII que estava ao abandono e se assumiu como o lugar central do evento. É um espaço tido como estratégico tanto para a exposição colectiva, como para o desenvolvimento de Coimbra, com os signatários a darem conta dos «inúmeros exemplos» de cidades que se afirmam a partir de mostras de arte. «O Mosteiro é Bienal Anozero e Coimbra é, cada vez mais, Bienal Anozero», apontam os signatários, que recuperam também a ideia expressa logo na segunda edição do evento: a programação artística do convento «devolveu este espaço à cidade».
Com o título «Defender a Bienal no Mosteiro», a carta foi dirigida ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, à ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, ao ministro da Economia, Pedro Reis, e ao presidente da Câmara Municipal de Coimbra, José Manuel Silva.

Ministério da Cultura pondera «soluções possíveis»
Na semana passada, uma fonte oficial a disse à Agência Lusa que o Ministério da Cultura está «a analisar as soluções possíveis, no quadro das limitações que decorrem dos compromissos já assumidos», considerando que a bineal se «concilia harmoniosamente com as componentes histórico-artísticas do monumento».
A concessão do Mosteiro está a ser transferida para a empresa Soft Time que, em Abril, venceu o concurso público para a transformação do convento, com uma área edificada de cerca de 13 mil metros quadrados, num hotel de cinco estrelas. A concessão é por um prazo de 50 anos. Foram apresentadas duas propostas, mas a empresa que ficou em primeiro lugar desistiu.
Os subscritores da carta aberta, entendem que devem «ser consideradas condições que permitam o desenvolvimento e aprofundamento» da bienal no mosteiro, «substancialmente diferentes» das avançadas pelo Governo, no âmbito do programa Revive, que requalifica património para fins turísticos.
O concurso previa a bonificação das candidaturas que reservassem um espaço de 600 metros quadrados para a Anozero, mas a opção foi sempre rejeitada por Carlos Antunes, director do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, entidade que organiza a bienal em conjunto com a CMC e a universidade, e que desde o primeiro momento avisou que sair de Santa Clara-a-Nova podia significar o fim do evento.
Também os signatários da carta aberta entendem que a coexistência da bienal com um hotel torna o «projecto inviável, seja do ponto de vista do tempo de ocupação ou das áreas consagradas para espaço positivo».
Na inauguração deste ano da Anozero, o presidente da CMC, José Manuel Silva, avançou como alternativa o antigo Hospital Pediátrico, mas Carlos Antunes mantém «a mesma posição de princípio». «Qualquer transferência da bienal para uma situação mais frágil e débil é inaceitável. Estamos num caminho de crescimento, de solidificação nacional e internacional, bastante superior ao que esperávamos, nos primeiros momentos», reitera, ao sublinhar que a sugestão atirada por José Manuel Silva, «para um edifício que o próprio considera uma ruína», não foi completada com um plano de acção que, inclua, por exemplo, obras no espaço, que também data ao século XVII e está desocupado desde 2011.
