Nos números 4 e 6 da Rua Sargento-Mor situa-se uma das casas mais antigas de Coimbra, popularmente conhecida como “Casa Medieval”. Apesar da designação, esta habitação “não é necessariamente medieval”, como explica Luísa Trindade, docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
“Memória de uma cidade histórica”
A sua origem data entre o final do século XV e o início do século XVI, fazendo dela uma casa tardo-medieval com um conjunto de características correspondentes à construção corrente. Isto é, “com técnicas banais utilizadas no quotidiano e com materiais igualmente banais e usados no quotidiano”, esclarece.
Nesse sentido, apesar de não existir nada que garanta que é uma habitação medieval, Luísa Trindade considera que “o que ela representa é um tipo de casa que foi usado durante séculos e que desapareceu a partir do século XVI”.
“É irrelevante querermos datar aquilo que não é datável. [A casa] é o testemunho de uma forma de viver que desapareceu e estamos a vê-la esboroar-se sem que a cidade tome consciência da importância daquele património”. (Luísa Trindade)
Luísa Trindade frisa que “não é a casa em si que tem um valor patrimonial, é o conjunto urbano que prevalece enquanto memória de uma cidade histórica, que tende naturalmente a desaparecer, porque é pouco valorizado”.

A título de exemplo, relembra a destruição de um conjunto de casario corrente dos séculos XVII a XIX, na Baixa, para a construção do Metrobus. Face as estas circunstâncias, a docente acredita que todos os exemplares que ainda existam devem ser conservados porque eles representam a memória de uma vida urbana que durou séculos.
Um património “quase invisível”
Ao longo dos anos esta casa permaneceu enquanto outras desapareceram. Luísa Trindade brinca que a habitação “é quase invisível”, pois resistiu ao tempo, mas hoje está em deterioração total, o que a coloca em risco. Recorda a iniciativa Associação Casa Medieval – Coimbra Welcome Center, que tentou recuperar o imóvel durante os três anos que ocuparam o espaço. Desde 2018 que a habitação se encontra ao abandono.
A docente considera que a nível de custos financeiros, a recuperação daquele imóvel, seja para atividades culturais, como centro interpretativo do que poderia ser a baixinha da cidade no decorrer dos séculos, ou apenas para ser visitável, é “uma gota de água no oceano”, devido à sua pequena dimensão. A seu ver, falta vontade política e falta noção da importância do património.
No sentido de resolver o estado de degradação atual da Casa Medieval, Luísa Trindade acredita que é preciso chamar a atenção para o local, congregando vontades e divulgando a importância patrimonial porque “ninguém cuida daquilo que não conhece ou daquilo que não percebe”.
Quando questionada sobre o que impede que este património seja valorizado, a docente defende que existe um “divórcio entre a cidade moderna e a histórica”, pelo que “ainda falta fazer muito para trazer Coimbra ao seu próprio coração”.





