Façamos um exercício de empatia. Uma pessoa foge da violência da guerra e procura um refúgio depois de galgar uma fronteira após a outra. Pouco traz consigo; tem a roupa que traz vestida e pouco mais. Pode ter vindo com família, mas ter-se-á separado à fronteira de outros familiares e deixou o restante de seu na Ucrânia. Chega sem nada e vai precisar de tudo aquilo que tomamos como adquirido, até das coisas mais simples que escapam a um primeiro olhar.
Perante um problema com enormes implicações sociais e humanitárias, como é a deslocação involuntária de uma enorme massa de refugiados ucranianos, surge uma solução conjunta em Coimbra, o Centro Logístico de Apoio aos Refugiados. A ideia partiu da União de Freguesias de Coimbra (UFC), à qual se juntou a comunidade ucraniana local e se associou a Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Localizado no Mercado do Calhabé e inaugurado a 14 de Março último, no 19.º dia da guerra, o nome do Centro em ucraniano é mais sugestivo: Centro de Apoio e Ajuda aos Refugiados. Refugiar é dar abrigo, providenciar ajuda de que os refugiados mais precisam.

«São a primeira onda, pessoas já com contactos cá. A próxima onda serão pessoas que não têm ninguém. Também é preciso salvaguardar que estas pessoas não caiam nas mãos de pessoas mais manhosas, É preciso muito cuidado, qualquer pequena coisa que se desconfie, mais vale investigar do que deixar de lado»
Artem Semenko, voluntário
O espaço conta com bazar solidário, mercearia solidária, gabinete de apoio social e afinam-se os detalhes para outros serviços, complementares àqueles. Estará sempre presente um elemento da comunidade ucraniana residente para fazer a ponte linguística e para emprestar algum sabor a casa, como Artem Semenko ou Viktoriya Golub. Artem diz que os refugiados que têm chegado, «são a primeira onda, pessoas já com contactos cá. A próxima onda serão pessoas que não têm ninguém. Também é preciso salvaguardar que estas pessoas não caiam nas mãos de pessoas mais manhosas, É preciso muito cuidado, qualquer pequena coisa que se desconfie, mais vale investigar do que deixar de lado». Viktoriya tem passado a mensagem da existência deste Centro nas redes, referindo «a segurança da cidade, que tem hospital, que é uma cidade universitária, que é um local seguro para eles. Temos aqui todas as condições para os receber. Coimbra está com eles».

Mafalda Fagulha, responsável pela Acção Social da UFC, comenta: «todos os contactos que temos recebido são de pessoas que já cá vivem e contam receber os seus familiares. Nós ajudamos da melhor maneira. Já recebemos alguns contactos de algumas pessoas sem familiares cá, sabem que existe este Centro Logístico e vêm. Ainda na semana passada fui receber uma mãe e dois filhos, que foram logo encaminhados para uma família de acolhimento.
Têm chegado ao Centro cerca de cinco famílias por dia, essencialmente mulheres e crianças, e também avós. Ficamos com o contacto das pessoas e vamos acompanhando. Tentamos perceber o que precisam, tentamos fazer um cabaz para os primeiros tempos. Temos estes dois espaços – o bazar e a mercearia – sempre que não há um número de sapato ou roupa que lhes sirva, vamos até à zona de triagem da roupa e escolhemos. Dizemos que podem voltar mais vezes, porque aqui damos o apoio quando chegam e as dificuldades não acabam na semana seguinte. Há sempre alguém que faz a comunicação. A comunidade ucraniana tem sido espectacular connosco, tem recebido os seus e está a ajudar».

Nataliya, ucraniana estabelecida em Coimbra, acompanha uma família de refugiados recém-chegada. Duas irmãs, a filha de uma delas e a avó com problemas de mobilidade. Não querem falar, guardam frases breves e alguns sorrisos entre si. A viagem desde que saíram da Ucrânia e até chegarem a Coimbra tomou-lhes 9 dias, entre fugas, caminhadas, transportes, uma estadia em Varsóvia e um ou outro percalço. Experimentam sapatos no bazar, tomam o seu tempo. É perceptível o quão exaustas estão. Este espaço é um primeiro abrigo. Uns dias antes tínhamos acompanhado Alina, que chegara com o seu bebé.
Eficiência no bem-receber
Ana Madeira, assistente social da UFC, responsável pelo acompanhamento social dos refugiados, prepara-se para levar uma família recém-chegada para a sua moradia de acolhimento. Desenrola como se processa tudo à chegada: «Temos logo o cuidado de fazer o diagnóstico social da família, como [averiguar] que ano lectivo as crianças frequentavam para fazermos a ponte com a Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE), para as integrar na escola, infantário ou creche.
Ao nível da saúde, para ver depois com a equipa médica e fazer a conversão da medicação. Estão também a chegar seniores, com mobilidade reduzida, que necessitam de equipamento técnico, e nós fazemos a ponte com instituições que fazem parte do Conselho Local de Acção Social de Coimbra (CLAS/C). A nível de Segurança Social (SS), espera-se que seja atribuído o número de SS para depois tratar de abonos, subsídios e integração no mercado de trabalho».

«Dizemos que podem voltar mais vezes, porque aqui damos o apoio quando chegam e as dificuldades não acabam na semana seguinte. Há sempre alguém que faz a comunicação. A comunidade ucraniana tem sido espectacular connosco, tem recebido os seus e está a ajudar.»
Mafalda Fagulha, responsável pela Acção Social da União de Freguesias de Coimbra
Na mesma entrevista, os técnicos tentam perceber quais as habilitações dos adultos, «se têm curso ou não de especialidade, para podermos também fazer a ponte com os serviços de emprego ou mesmo com as nossas instituições, se têm emprego ou formação [disponíveis] para as pessoas estarem ocupadas». A responsável explica que foi criado o Centro Comunitário Infanto-Juvenil, por cima do Café Santa Cruz, em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), para as crianças poderem ter um ATL gratuito e actividades nas férias escolas. A máquina está muito bem oleada para bem-receber e integrar, eficiente ao detalhe. «Nós trabalhamos de manhã à noite e as respostas vão sendo criadas à medida das situações que aparecem».
Mafalda Fagulha sublinha: «Os refugiados chegam apreensivos, têm vontade de trabalhar mas têm que descansar. Vêm cansados física e psicologicamente, isso nota-se. Eles vêm à procura de trabalho, mas não tive ainda nenhum pedido concreto. Estamos preparados e há a possibilidade de arranjar trabalho, até aqui [no Centro] a fazer voluntariado. As pessoas chegam muito cansadas, estamos a dar o apoio imediato, com roupa e alimentos, achamos que o resto vem a seguir. Estamos a falar de famílias que estão cá nem há uma semana. A comunidade está receptiva, preocupada com quem chega».

Encontro de vontades
Artem acorre a todas as questões, infatigável. Recebe pessoalmente cada refugiado que chega, com um indomável sorriso e um diálogo em ucraniano – milhares de quilómetros percorridos e a língua materna recebe-os numa terra estranha. Já não tão estranha assim. Artem corre e resolve os pequenos problemas que vão surgindo, como em qualquer estrutura sem um guião estabelecido. Acompanham-no voluntários, alguns que vieram da bolsa de voluntários criada pela UFC [ver lateral], outros do iCreate, uma associação que promove o envelhecimento activo e que tem aqui mais uma intervenção. Os voluntários fazem a triagem da roupa, organizam tamanhos, separam por cores, por materiais, organizam as doações, fervilham de actividade e propósito. Os bens foram doados pela comunidade conimbricense, desde bens alimentares a roupa, produtos de higiene e de cuidados de saúde.

A autarquia acompanha de perto todo o processo conduzido pela União de Freguesias. Ana Cortez Vaz, vereadora com os pelouros da Educação, Acção Social, Habitação Social, entre outros, refere: «É importante estarem aqui as pessoas da comunidade, eles sentem-se acolhidos, se fossemos só nós – estamos aqui de coração aberto – mas estando os conterrâneos, e nós cientes do trabalho que temos que fazer, isto tem tudo para dar certo».
O município criou um Gabinete de Crise para lidar concretamente com a questão dos refugiados ucranianos, que congrega os serviços de educação, acção social e de habitação da CMC, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), a SS, o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e todas as juntas de freguesias. A vereadora identifica as instituições como parceiros fundamentais. «Porque nem tudo nos chega», explica. «Quando os refugiados chegam, os seus familiares vão falar com as juntas. Nós quisemos que fosse uma coisa articulada. Nós vimos o exemplo de outras câmaras e falavam apenas da parte habitacional. Achámos que era importante juntar tudo, o apoio psicológico, a parte da formação. Obviamente que não vão aprender português num mês, mas vão conseguir desenrascar-se».
Este centro logístico é o «quartel-general». Assim que chega uma família de refugiados, «são logo vistos pelo SEF – na Rua Venâncio Rodrigues, com tratamento prioritário -, depois é feito um atendimento todas as Quintas-feiras na SS, em articulação com IEFP, com o objectivo de integrá-los logo pela parte da língua. Chegam, têm logo direito aos abonos. A maior parte deles, quando chega, não querem apoios, estamos a falar de pessoas que, de um momento para o outro, perderam tudo. Não é fácil uma pessoa sentir-se frágil. Têm vergonha, é isto que tentamos desmistificar. Quando vem alguma família, os funcionários dão-lhe espaço. Dizem-lhes “sirvam-se, isto é para vós“», conclui a vereadora.

O que está previsto
Como medida extraordinária e original, e por ser uma resposta de emergência que comporta várias dimensões, há diversos elementos ainda em processo, como a questão das aulas de português. O IEFP prevê criar duas turmas com aulas presenciais de Português Língua Não Materna e a Escola Superior de Educação e a Cruz Vermelha cursos online.
Mafalda Fagulha refere que está previsto que um médico faça o acompanhamento necessário e a UFC requereu uma reunião com as forças policiais para haver apoio a nível de segurança, e envolvimento do máximo de entidades oficiais possível. Ana Cortez Vaz menciona que estará sempre presente um funcionário da acção social da CMC e, no que toca ao apoio apoio psicológico, refere a disponibilidade de vinte profissionais e estudantes da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra, que terão de ser necessariamente acompanhados por alguém da comunidade para facilitar a comunicação.
Algumas destas questões estão ainda em bruto, a serem trabalhadas e equacionadas ao mesmo tempo que está a ser redigido este artigo. Todo o conceito é um diamante sendo lapidado até se aproximar da perfeição. Chega outra família de refugiados. É uma mãe e o seu bebé, recém-nascido, tão minúsculo e indefeso. Recomeça o ciclo no Centro.
