A missão começou quase por acaso, mas depressa ganhou o peso de uma escolha de vida. Jorge Fonseca trabalhou toda a vida na hotelaria, até a pandemia o obrigar a parar e a repensar tudo. Vieram depois o desemprego, a reforma antecipada e, com esse novo tempo em mãos, a possibilidade de se envolver numa causa que lhe trouxe uma forma diferente de utilidade, de presença e de afeto: acolher em casa um cão da Escola de Cães-Guia de Mortágua.

Essa escola, a única em Portugal dedicada à formação de cães-guia, depende de um trabalho silencioso e exigente, feito em grande parte por famílias de acolhimento. São essas famílias que recebem os cães ainda pequenos, os ajudam a crescer, a aprender a viver em sociedade e a chegar à fase do treino já com uma base de socialização sólida. Como resume Jorge, o que começou por necessidade de disponibilidade acabou por se tornar missão.

No caso dele, tudo começou também por uma coincidência feliz. A mulher, Teresa, acabou por conhecer a escola através de uma ligação antiga com uma das treinadoras, Sabina, e, a partir daí, o programa entrou de forma muito concreta na casa e na vida da família. Primeiro vieram os formulários, depois a adaptação, depois a rotina de receber, acompanhar e devolver o cão à escola, sempre com a consciência de que se estava a participar numa cadeia maior do que a própria casa. “É a escola”, diz ele, quando lhe perguntam a quem se refere quando fala de “eles”.

Jorge fala dessa rotina sem enfeites, mas com uma emoção que se sente em cada resposta. O cão está em casa, mas não é “só” um animal de estimação. É presença, é companhia, é disciplina, é vigilância constante, é uma aprendizagem mútua. Há horários, regras, visitas à escola, treinos, deslocações, cuidados veterinários e, acima de tudo, uma disponibilidade emocional que não se improvisa. “Isto é um voluntariado”, sublinha, quando explica que cada família participa numa tarefa que é ao mesmo tempo prática e afetiva.

O primeiro cão foi o Honey, um labrador branco que entrou na família ainda jovem e acabou por ficar muito tempo, devido ao ritmo do treino e às necessidades da formação. O segundo é a Asta, também recebida pela família com o mesmo espírito de missão, mas já com um percurso mais rápido no processo de treino. Entre um e outro, o que permanece é a mesma impressão de estar a preparar alguém para mudar a vida de outra pessoa que ainda nem conhece. “Eles, no fundo, deram-nos este espírito de missão”, diz Jorge, referindo-se aos cães e à forma como toda a família foi sendo envolvida.

O momento da entrega é, para Jorge, o mais difícil e o mais belo. A escola organiza uma cerimónia em Mortágua, onde o cão é finalmente entregue à pessoa cega que vai acompanhá-lo. É um gesto que carrega semanas de treino, anos de trabalho e uma carga emocional que ele descreve sem exagero: ver o cão partir é uma separação real, quase como entregar um filho, mas também é a prova de que tudo aquilo fez sentido. “Vai ser sempre nosso”, diz ele, mesmo sabendo que a vida do animal segue noutro lugar e para outra pessoa.

A primeira vez que assistiu a uma entrega não esqueceu. O impacto foi tão forte que, mais tarde, quando chegou a vez de entregar o Honey, a emoção voltou com a mesma força. “Eu estava a chorar”, recorda, ao falar de um casal jovem na despedida final de outro cão, uma imagem que ficou consigo até ao momento em que viveu o mesmo. Essa identificação diz muito sobre o tipo de laço que se cria: não é apenas cuidado, é pertença, é um intervalo de vida partilhada.

Essa dimensão de sentido tornou-se ainda mais intensa quando o próprio Jorge enfrentou problemas de saúde. Teve de perguntar ao médico se poderia continuar a ter o cão em casa durante uma biópsia e, nesse momento, percebeu que o voluntariado não era incompatível com a fragilidade, desde que houvesse prudência e acompanhamento. “Tive de perguntar ao médico”, conta, descrevendo a necessidade de ajustar a rotina durante uma semana ou duas para não criar risco desnecessário.

 A presença do animal, em vez de ser um peso, transformou-se numa forma de companhia e de amparo num período delicado. Jorge fala da Asta quase como uma presença silenciosa que percebe a casa, o ambiente e o estado de espírito dos seus donos. “Ela deita-se ali ao meu lado, eu não saio dali”, diz, para mostrar como esse vínculo também se constrói nos dias comuns, nas horas de trabalho no computador, nos serões em casa e nas pequenas rotinas que fazem a vida acontecer.

Há, no que ele conta, uma recusa muito clara do coitadismo. Jorge não fala de deficiência, doença ou envelhecimento como limitações que afastam as pessoas da vida; fala delas como condições que pedem adaptação, naturalidade e respeito. É por isso que também insiste tanto na forma como a escola e os cegos se relacionam entre si: com humor, com confiança, com proximidade e sem a solenidade que tantas vezes a sociedade impõe a quem vive com uma diferença.

A força desta história está precisamente aí. Num tempo em que tudo parece passar depressa, há famílias em Coimbra que podem fazer parte de uma missão que começa em Mortágua e acaba por mudar a vida de alguém que nunca conhecerão. Jorge é um desses exemplos raros de voluntariado que exigem tempo, cuidado e entrega, mas devolvem uma coisa difícil de medir: a certeza de que a vida de uma pessoa pode ser melhorada com um gesto feito em casa, todos os dias, com afeto e responsabilidade. “É como ter um filho”, resume, quando tenta explicar o tamanho da ligação que se cria.

Nota de serviço: para ser família de acolhimento, é preciso ter disponibilidade para manter o cachorro em casa, garantir que ele não fique sozinho por longos períodos e aceitar as orientações da escola. As candidaturas são feitas através deste formulário, seguindo depois uma visita às instalações e a formação necessária.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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