Ao longo dos limites orientais da cidade de Coimbra estende-se o vale estreito e abrupto da ribeira de Chão de Bispo, afluente do rio Mondego. Orientado a sul, encontra-se sobretudo coberto de acaciais, eucaliptais, urzais e tojais sem gestão, formando combustíveis de fácil ignição e capazes de facilitar uma rápida propagação das chamas, como se viu nos grandes incêndios que aqui lavraram em 2005.
Sucede que a forma do relevo cria motivos adicionais de preocupação. Em caso de incêndio oriundo de cotas baixas, as chamas poderão propagar-se galgando as ladeiras, rapidamente atingindo os limites da área urbana no planalto. As massas de ar aquecido pelo fogo podem ascender por convecção, esta reforçada pelo confinamento lateral das encostas íngremes do vale, projectando a longas distâncias cascas, galhos e folhas em brasa tal como se viu na última vez que o fogo varreu estas terras.
Entretanto passaram-se quase duas décadas desde que aquela catástrofe ensinou esta lição. Passou este vale a ser melhor gerido em termos silvícolas? À parte algumas intervenções pontuais, passou aquela floresta às portas da cidade a ser tratada com o cuidado que se exige a bem da protecção das pessoas e bens, já para não falar da qualidade ecológica e paisagística?
Pedro Bingre do Amaral
(Professor no Instituto Politécnico de Coimbra e investigador nas áreas do Ordenamento do Território e Ambiente)

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