Há imagens que se colam à memória de forma discreta, mas duradoura. Uma delas aconteceu num dia comum: vi um colega meu parar à porta de uma cantina, hesitar e depois recuar. Não havia rampa. Aquele gesto simples — dar meia-volta — revelou uma barreira que, para muitos, é invisível, mas que para alguns é intransponível.

Foi um momento silencioso, quase despercebido, mas carregado de significado. E desde então, tenho pensado: quantas vezes isto acontece? Quantas outras histórias semelhantes se passam diariamente, sem que reparemos, sem que falemos, sem que sintamos o dever de agir?

A Universidade de Coimbra, com todo o seu simbolismo e tradição, é uma instituição que se orgulha do seu papel na formação de cidadãos. Mas, ao mesmo tempo, continua a apresentar falhas que comprometem esse ideal de inclusão. As cantinas universitárias, por exemplo, continuam a ser espaços onde a acessibilidade plena ainda está por alcançar.

É certo que têm sido feitos esforços ao longo dos anos. Mas basta um olhar atento — ou uma simples experiência vivida por alguém com mobilidade reduzida — para perceber que ainda estamos longe do necessário. Rampas ausentes ou demasiado inclinadas, elevadores inoperacionais, portas estreitas, casas de banho não adaptadas. Estas barreiras não são exceção. São, muitas vezes, regra.

E para além do espaço físico, há também lacunas no plano humano e comunicacional: menus sem alternativas acessíveis, ausência de sinalética inclusiva, falta de formação dos trabalhadores para atender com sensibilidade diferentes necessidades. Tudo isto contribui para uma experiência fragmentada e, por vezes, humilhante.

É fácil esquecer aquilo que não nos afeta diretamente. Mas uma universidade não se mede apenas pelos seus edifícios, prémios ou tradição. Mede-se pela forma como cuida de todos os seus membros, especialmente daqueles que mais dependem de condições justas para participar plenamente na vida académica.

A inclusão não pode ser entendida como um projeto “para cumprir mais tarde”. Tem de ser um compromisso contínuo, assumido com humildade e coragem. Não se trata de criar espaços “especiais” para algumas pessoas — trata-se de garantir que todos possam aceder, de forma igual, aos mesmos espaços. Que todos possam entrar pela mesma porta.

Se há algo que esta reflexão nos pode trazer, é talvez a consciência de que o nosso dia a dia está cheio de oportunidades para melhorar — não por obrigação, mas por humanidade. E talvez o primeiro passo esteja mesmo em olhar com mais atenção para esses gestos pequenos, como o recuar de um colega à porta de uma cantina. Eles falam connosco, se estivermos dispostos a escutar.

Bernardo Lopes mostrou-nos o acesso, para quem tem mobilidade reduzida, em duas cantinas do Polo 1 da Universidade de Coimbra: Cantina das Químicas e Cantina do Colégio de São Jerónimo.


Bernardo Lopes é estudante de mestrado em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e fundador da Secção de Boccia da Associação Académica de Coimbra.


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Jornalismo de soluções, Coimbra.

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