No segundo piso da Associação Académica de Coimbra (AAC), entre a Rádio Universidade de Coimbra e uma daquelas máquinas automáticas de snacks, há uma pequena porta, que quase passa despercebida. Quem ali passa não imagina as histórias que se constroem naquela sala, tão escondida a muitos olhos. No entanto, é naquele pequeno espaço que ainda se faz, todos os dias, o único jornal universitário impresso do país.

Gerido diariamente por estudantes, o Jornal Universitário de Coimbra – A Cabra, criado em 1991 no seio da Secção de Jornalismo da AAC (SJ/AAC), tem conhecido vários desafios ao longo da sua história, desde as mudanças impostas no Ensino Superior pelo processo de Bolonha a um período de encerramento entre 2013 e 2014. Recentemente, viu-se a braços com a falta do pagamento de uma dívida por parte da Direção-Geral da AAC (DG/AAC), que se estende há três anos.

Ação e reação: a dívida e a nota de repúdio

Rita Sousa, presidente da secção cultural, revela que a quantia que não foi paga, que se soma aos 3500 euros, provém de «um protocolo com a Universidade de Coimbra (UC)», criado em 2023, com o intuito de apoiar a atividade da SJ/AAC e, em particular, o Jornal A Cabra. A falta de pagamento da dívida levou a SJ/AAC a emitir nas suas redes sociais, no dia 25 de março, uma nota de repúdio a expor a situação, que foi lida inicialmente em Assembleia Magna no dia 18 de março.

No conteúdo dessa nota de repúdio, a dirigente associativa aponta que a DG/AAC, na impossibilidade de conseguir saldar a despesa para com a estrutura, ofereceu-se a fazer um «pagamento de fundos públicos com barris de cerveja». Os barris seriam utilizados pela SJ/AAC em convívios, valor esse que seria descontado do total do dinheiro a ser ressarcido posteriormente.

Após a publicação da nota de repúdio, a DG/AAC, através das suas redes, publicou um comunicado, onde confirmou que se «disponibilizou a solucionar a situação, admitindo o erro cometido», através da utilização dos barris de cerveja da Super Bock, mas que a quantia destinada à SJ/AAC não veio discriminada por parte da UC, e que a própria estrutura nunca solicitou o dinheiro de volta. Na mesma publicação, o órgão de gestão da AAC também repudiou «a posição tomada», acusando a estrutura de incompreensiva para com a atual situação financeira da AAC, com «uma clara intenção sensacionalista inerente à nota de repúdio».

Segundo os relatórios de contas da última DG/AAC, a associação declarou cerca de 180 mil euros de dívida, apesar de se especular que esse valor pode ser mais alto. Rita Sousa acredita que isso se deve a falhas de gestão que não começaram agora, mas que «a dívida foi surgindo noutras direções gerais». Porém, considera que «ficou bastante desapontada quando o primeiro instinto não foi pedir desculpa pelo sucedido», mas sim acusar a estrutura de «mentirosa» por apenas expor o sucedido. A Coimbra Coolectiva tentou contactar o presidente da DG/AAC, José Machado. No entanto, até à data, não foi possível entrevistar o dirigente.

Para lá da porta: experiências de jovens jornalistas

Rita Sousa é estudante da licenciatura de História e conheceu a SJ/AAC através do Arquivo, o projeto mais recente da estrutura. No entanto, apesar de nunca ter partilhado da experiência de fazer parte do Jornal A Cabra, considera que este faz «um trabalho fenomenal» no escrutínio que leva a cabo e nos acontecimentos que reporta.

A estudante salienta como exemplo a cobertura da ocupação indonésia de Timor durante os anos 90, que motivou em parte a «criação do jornal». Nesse sentido, a dirigente reforça que A Cabra, e os restantes projetos da SJ/AAC, sempre tiveram um compromisso «com a divulgação democrática da informação» para a comunidade em que se encontra inserida.

Este compromisso é reconhecido também pela atual diretora, Sofia Moreira, já em fim de mandato. Membro do jornal há mais de três anos, a também estudante da Faculdade de Letras da UC recorda o momento em que soube da existência do jornal: «Vi que as inscrições para o curso de jornalismo estavam abertas e achei que fazia sentido.» Confessa que caiu «meio que de paraquedas», mas que depois de ficar não saiu mais.

«Ser diretora d’A Cabra é difícil, tem muita responsabilidade, mas no fim é bastante recompensador trabalhar para algo, ver a coisa fisicamente à frente e pensar “nós todos fizemos isto”», explica Sofia Moreira. Salienta que a equipa do jornal é uma grande razão pela qualidade do mesmo e «pela credibilidade que o jornal tem» junto dos seus leitores. Acredita, no entanto, que podia haver «um maior reconhecimento por parte das instituições da cidade».

Esta ideia é reforçada por Francisca Costa, atual editora de cultura e finalista da licenciatura de Jornalismo. Além das responsabilidades, a editora salienta «as dinâmicas de equipa que se criam» dentro dos espaços da SJ/AAC, nos momentos em que há mais trabalho, como determinantes para manter pessoas no jornal depois da fase de formação.

Em relação à polémica relacionada com a dívida e a nota de repúdio, Sofia Moreira admite que, quando a DG/AAC apresentou o seu comunicado, «não percebi as acusações de sensacionalismo a uma nota de repúdio que foi emitida pela SJ/AAC e não pelo jornal». Sofia Moreira também considerou «desrespeitoso a direção achar que seria satisfatório o pagamento com cervejas, como se o trabalho feito pelo jornal não fosse sério». Acredita também que não faz sentido ser a DG/AAC a decidir o método de pagamento da dívida em questão.

Tanto a diretora do Jornal A Cabra como a presidente da SJ/AAC sublinharam que a gratuitidade e os moldes de trabalho voluntário do jornal não permitem a criação de lucro através de convívios. «Fazemos um convívio por ano, para assinalar o aniversário do jornal; as despesas são pagas através de outras linhas de financiamento», salienta Rita Sousa.

Francisca Costa também acrescenta que chamar sensacionalista a uma nota de repúdio «é uma forma de descartar desculpas, até porque ela foi feita com base em dados, passíveis de serem comprovados». Aponta também a falta de transparência dentro da própria AAC como um fator de criação de desconfiança entre a DG/AAC e os restantes associados, pelo que vê como positivo a situação da dívida ter chegado a outros públicos. «Faltam conversas, reuniões para que não haja alegação de desconhecimento da informação», adiciona.

Jornal A Cabra: o espelho do jornalismo em Portugal

Ana Filipa Paz, antiga editora de cultura e diretora d’A Cabra no ano letivo de 2023-2024, acredita que a polémica da dívida da DG/AAC, além da falta de transparência, revela problemas estruturais mais antigos. «As direções-gerais são cíclicas, enquanto os membros das secções culturais permanecem mais tempo», refere. Segundo a também antiga estudante de jornalismo, isto permite que as secções culturais consolidem o seu conhecimento em relação à AAC e estejam mais a par dos seus problemas do que a própria organização.

Também Ana Raquel, antiga diretora do jornal, considera «falta de respeito só se preocuparem com o jornal e querer resolver os problemas quando se coloca o dedo na ferida». Eduardo Neves, antigo editor de Ciência e Tecnologia, considera que estas atitudes «representam um descrédito ao trabalho jornalístico, por se confundir escrutínio com sensacionalismo».

Os três antigos membros do Jornal A Cabra partilharam o mesmo sentimento de desilusão face à resposta da DG/AAC, bem como alguns dos seus elementos em relação à nota de repúdio. «É triste ver dirigentes a publicar textos nas redes sociais a difamar uma secção da própria casa», acrescentaram.

Nesse sentido, Ana Filipa Paz faz um paralelismo entre o tratamento do trabalho do Jornal A Cabra com o panorama do jornalismo nacional. «Há uma falta de noção e consciência sobre o jornalismo e, em particular, sobre o papel do jornalista», lamenta. Salienta que a dedicação que os jornalistas d’A Cabra, que reconhece como um «jornal-escola», têm é a mesma dedicação e paixão pelo que fazem como qualquer outro jornalista profissional: «um jornalista tem de ser apaixonado pelo que faz, de outra forma não aguentaria com a precariedade patente da profissão».

Qual é o futuro?

Tanto Rita Sousa como Sofia Moreira esperam que a dívida seja paga na sua totalidade. A presidente da SJ/AAC salientou como positivo o facto de, após a nota de repúdio, a DG/AAC vir consultar as secções sobre verbas que receberam desde o sucedido. A diretora do Jornal A Cabra espera, da sua parte, que esta polémica não afete a credibilidade que o jornal criou junto do seu público-alvo.

Já Ana Filipa Paz e Ana Raquel Cardoso consideram preocupante a falta de cuidado na gestão financeira e o desconforto na vontade dos jornalistas em escrutinar a mesma. Por um lado, «não se sabe de onde vem o dinheiro, as despesas não estão controladas e isso demonstra um certo nível de infantilidade», acrescenta Ana Filipa Paz. Por outro, Ana Raquel Cardoso refere que, mesmo quando se tenta fazer esse trabalho, o jornal A Cabra é acusado de «fazer jornalismo de oposição».

Rita Sousa salienta que a SJ/AAC como um todo enfrenta vários desafios, tanto a nível logístico como a nível financeiro, para manter a sua atividade. «O dinheiro não estica, pelo que não nos podemos dar a certos luxos.» No entanto, salienta que, em momentos de dificuldade, a SJ/AAC e o Jornal A Cabra têm os seus membros e a sua resiliência em que se apoiar.

 

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