Na Rua do Brasil, 129, o velho portão abriu-se e o jardim esquecido começou a ganhar vida pelas mãos de muitos. Ao centro da ação via?se Catarina Maia, a orientar com entusiasmo a linha de montagem improvisada de pedras, lado a lado com os jogadores da equipa Sénior Masculina de Rugby da Académica, coordenados pelo treinador sul?africano Lodie Van Staden. A força organizada contrastava com a delicadeza do pequeno Emílio, menino de regador na mão, que insistia em dar água à horta nascente mesmo enquanto a terra ainda era remexida. E no meio da azáfama, chegava o gesto doce da professora Adelaide Chichorro, que trouxe um bolo caseiro para partilhar entre voluntários e atletas, como se a receita fizesse parte da construção coletiva.
O espaço privado que esteve escondido durante décadas abriu-se esta tarde à comunidade para a primeira jornada de jardinagem coletiva organizada pela iniciativa São Flores, Coimbra!, que saiu da incubadora da Geração Coolectiva 2024 e está no terreno a criar brigadas de profissionais da jardinagem amadora, com vontade de meter as mãos na terra para revitalizar canteiros e floreiras abandonados do centro da cidade. A iniciativa é dinamizada pelo Jardim Monte Formoso, coordenado por Catarina Maia, que se mudou para Coimbra em 2020 e tem apostado sobretudo na renaturalização dos espaços abandonados do seu bairro em colaboração com juntas de freguesia e privados.
O objetivo do projeto é transformar o terreno num lugar de conservação da biodiversidade e convívio comunitário: construir um charco para espécies aquáticas, semear prados, plantar uma pequena horta e criar sombras com plantas nativas raras e vulneráveis.
Para Catarina Maia, que tem sido a face visível deste movimento, o simbolismo do momento vai além do esforço físico: «Este jardim esteve inutilizado durante décadas, mas já havia aqui vida — insetos, animais discretos. Queremos interferir o mínimo possível e ao mesmo tempo criar habitats novos: o charco, os prados, a horta. O que se está a construir aqui é um espaço de conservação, mas também de encontro e pertença.»







A ideia nasceu de um convite inesperado de Ricardo Silva, o proprietário do jardim, que quis abrir o espaço à comunidade, contrariando a lógica de betão, carros e prédios que domina a Rua do Brasil. Ao longo da tarde, o renascimento do jardim contou com o apoio fundamental de dois especialistas, Jael Palhas e Afonso Petronilho, que além do suporte técnico trouxeram plantas nativas muito difíceis de encontrar atualmente na natureza, enriquecendo o projeto e tornando possível criar habitats para espécies raras e vulneráveis.
«Não é preciso um terreno como este para começar. Uma varanda pode ter muita biodiversidade, uma planta pode ser alimento para um inseto polinizador. O desafio é envolver toda a gente, porque o futuro faz-se da soma de pequenos gestos» Catarina Maia.
Entre pedras removidas, plantas raras e fatias de bolo partilhadas, ficou claro como um pedaço da cidade pode ser reinventado pela força da comunidade. Coimbra tem dado passos rumo à mobilidade urbana sustentável, mas ainda enfrenta escolhas urbanísticas que privilegiam o betão, com cortes de árvores como os plátanos e jacarandás emblemáticos.
A ação na Rua do Brasil mostra o lado oposto dessa equação: pequenos respiros de natureza nascem da mão dos cidadãos, oferecendo refúgios para espécies vulneráveis e para quem acredita que as cidades podem ser também santuários vivos. Este jardim é assim mais do que um espaço verde — é um símbolo tangível de que a cidade pode, e deve, renascer com base na participação e na preservação ambiental.






