Sentamo-nos — literalmente — à mesa da prova e experimentámos oito variedades de maçãs regionais. À volta, a comunidade: produtores, parceiros do UC Exploratório, do projeto Mercadinhos da Margem Esquerda e a delegação de Coimbra da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal – ACAPO.

A sessão «aProvar – prova de variedades regionais de maçãs» começou com uma imagem projetada que atravessava séculos e histórias: da maçã de Eva à de Branca de Neve, da que caiu diante de Isaac Newton à que se transformou em logótipo da Apple. Símbolo de conhecimento, desejo e imortalidade na mitologia celta, a fruta mais conhecida do mundo foi ali redescoberta em toda a sua simplicidade.

O evento assinalou o Dia Internacional da Maçã, celebrado a 21 de outubro, com a prova organizada no UC Exploratório em parceria com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro que trouxeram algumas variedades regionais de maçãs conservadas na Estação Agrária de Viseu.

Durante a prova, foram degustadas variedades como Camoesa Pera Velha, Verdeal, Bravo de Esmolfe, Pipo de Basto, Durázio ou Lixa Casa Xavier. Cada uma revelou a sua textura, aroma e sabor característicos, um convite para redescobrir a diversidade local.

Muitos descobriram, talvez pela primeira vez, que a maioria das maçãs que consumimos vem de longe — e que as variedades autóctones, mais resistentes e menos tratadas, representam vantagens ambientais e culturais. Falar de maçãs é também falar de sustentabilidade, biodiversidade e economia local.

A participação da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal deu um sentido literal à expressão «prova cega». Para Laura Mariz, a curiosidade foi o primeiro impulso: «Vim porque achei o projeto interessante. Aprendi muito com o que ouvi e percebi como uma degustação também pode ser uma forma de valorizar o que é nosso.» Já José Caseiro, presidente da delegação de Coimbra, sublinhou a riqueza dos outros sentidos: «Ainda que não possamos ver a cor da maçã, podemos focar-nos na textura, na fragrância, no sabor, e distinguir pequenas diferenças. É uma experiência que desperta tudo o resto.»

À mesa, percebeu-se como o olhar, tantas vezes limitado à aparência, empobrece o gesto de provar. As maçãs «imperfeitas» — com manchas ou pequenas irregularidades — foram as que mais surpreenderam. Nelas se encontra o sabor genuíno e a marca do território.

A conversa sobre sabor depressa se tornou reflexão sobre proximidade. Falar de maçãs locais é pensar também em circuitos curtos, consumo consciente e pegada ecológica. As que chegam de longe, amadurecidas durante dias em contentores, dificilmente competem com o sabor de uma que foi colhida ontem e pousada hoje na mesa.

Oito maçãs depois, todos compreenderam que o simples ato de provar pode e deve ser um convite à reflexão sobre o que é próximo, sustentável e verdadeiramente nosso.

Share.

Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

Comenta esta história