Coimbra, abril de 2026. 19h00. Waltimira Monteiro fecha a caixa daquela pequena loja de decoração do Alma Shopping depois de mais um dia intensivo de trabalho. Em mente, tem a preparação do noticiário que lhe cabe apresentar amanhã, na aula de Jornalismo Radiofónico. Está cansada, mas sabe que sem ele não termina o curso que começou já lá vão seis anos. A poucos quilómetros dali, no Fórum Coimbra, Mariana Costa atende clientes numa loja de joalharia. Questiona-os, ouve atentamente as suas histórias e leva-as consigo para casa, como quem nega desfazer-se do hábito de investigar e contar. Curioso, pois já passaram anos desde que rompeu com o caminho que a levou a estudar Jornalismo em 2017. Mais abaixo, na Quinta da Portela, Clode N’Tchama veste o uniforme de segurança para vigiar as entradas e saídas daquele supermercado onde trabalha faz meses. Pelo meio, pensa no regresso ao curso que, trinta anos depois de interromper, se decidiu novamente a tentar. Desta vez, para o terminar.
Nenhuma destas três histórias se conhece entre si. E cada uma segue o seu próprio rumo. Mas todas partilham do mesmo ponto de partida: o jornalismo, em Coimbra.



Tudo, mais alguma coisa… e, no final, nada.
Mariana fez, como se costuma dizer, «tudo o que era suposto» e mais um pouco. Licenciou-se em Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra – ESEC, seguiu para mestrado em Jornalismo na Universidade de Coimbra e, concluído o curso, lançou-se imediatamente na busca por trabalho. O percurso foi afinando o objetivo – e, se quando se matriculou, sonhava com rádio e televisão no ramo do entretenimento, rapidamente se viu apaixonar pela informação e, mais tarde, pela gestão de redes sociais. Então, em 2022, procurou. Procurou em Coimbra, nos arredores, online, presencial, em regime híbrido… E o resultado, sempre o mesmo: «as ofertas disponíveis eram maioritariamente de estágios longos e não remunerados, o que acabou por me desmotivar», confessa. Com o tempo, foi percebendo que, para trabalhar, com condições, na área, teria de sair da cidade. Pouco depois, dava por si a procurar emprego fora do jornalismo.
Hoje, Mariana trabalha numa loja do Fórum Coimbra, a tempo inteiro. Antes disso, chegou a ter uma experiência como técnica de comunicação, mas «não tirava nem o salário mínimo», confessa. Então conformou-se. E regressou ao atendimento ao cliente. «Inicialmente, achava que estava a ‘sair da área’ apenas para juntar dinheiro… Que seria temporário. Mas, hoje, percebo que talvez tenha fechado a porta definitivamente. E é difícil não sentir que investi – que tentei, que estudei, que me esforcei – em vão», desabafa. «Sinto que arrumei o curso numa gaveta e que 5 anos da minha vida ficaram ali, estagnados, só por falta de oportunidades».

Se as ferramentas que se viu dar no curso de comunicação a acompanham ainda hoje no dia-a-dia – «Na minha loja é necessário chegar à necessidade do cliente e isso faz-se com as perguntas certas e com um contar de história breve e direto» –, Mariana acredita agora pouco na possibilidade de vir um dia a regressar ao jornalismo. Pois, explica: «trabalhar na área atualmente significa viver em Lisboa ou no Porto, onde quase todo o meu salário serviria para me manter na cidade. Portanto, sinto que regressar ao jornalismo seria quase que escolher ‘sobreviver’ apenas pelo sonho de trabalhar na área. E, neste momento opto pela qualidade de vida».
Por isso, conclui: «é notório que ainda existe um longo caminho a percorrer até Coimbra ser uma cidade equivalente a Lisboa ou Porto quando se trata do jornalismo, seja ele em que vertente seja». Porque, se Coimbra oferecesse oportunidades semelhantes, partilha: «talvez não me tivesse desencantado desse mundo e não tivesse optado por deixar o sonho de lado». O problema, faz questão de frisar, não está na formação: «Ambas as minhas experiências foram extremamente enriquecedoras», diz. «O verdadeiro problema, na minha opinião, está mesmo no facto de que inevitavelmente existe o estereótipo de que ‘Jornalismo é Lisboa’». Hoje, depois de muito desconstruir, aceitou. Aceitou e diz ter finalmente deixado de se achar menos do que os outros por não ter feito carreira na área de formação.
Mais devagar, sim, mas sempre em frente…
Waltimira chegou a Coimbra em 2019, com a ideia utópica de que ser jornalista não passava de «sentar na televisão e ler notícias». Tinha 20 anos, vinha da Guiné-Bissau e trazia consigo um português aprendido na escola, mas pouco praticado no dia a dia. «Em casa, na rua e com os amigos, nós só falávamos criolo», partilha.
Recém-chegada, em plena pandemia, à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, deparou-se com um sistema para o qual descobriu não estar preparada: aulas exigentes, com linguagem técnica incompreensível, um ambiente académico distante – e um ensino muito, muito diferente. «Para dar um exemplo simples», diz, «quando eu cheguei, não tinha sequer familiaridade com o computador, porque, lá na Guiné, nós só escrevíamos à mão». Então, teve de se adaptar. «Mas foram tempos muito difíceis», admite. A língua isolava-a. Os colegas afastavam-se. Os trabalhos de grupo faziam-se difíceis. E as aulas, custosas de acompanhar. «Naquela altura, eu só saía das aulas e chorava todos os dias, porque não percebia nada», recorda.
Vezes sem conta, viu-se desistir. «Perguntava-me a mim mesma: ‘O que é que eu ando a fazer nesta universidade? Não sou capaz… Estou só a gastar o dinheiro dos meus pais’». Mas ficou. Ficou, porque «Não tinha como voltar atrás», ressalta. «E, lá no fundo, eu não queria voltar atrás». Eis que, na Guiné, explica: «Os jornalistas não são livres. Não existe liberdade de expressão: quando a pessoa tenta contar a verdade, sofre imediatamente repressão e violência». Então, admite: «eu pensava que podia mudar alguma coisa, um dia». Por isso, continuou. E, no primeiro ano, viu-se concluir quatro cadeiras: seis a menos do que o suposto, mas quatro a mais do que se achava capaz de conseguir. E ficou feliz.
Mas foi no segundo ano letivo que sentiu verdadeiramente o processo avançar. «Nesse ano, tive aulas de ‘Técnicas de Redação’ com a Professora Ana Teresa Peixinho e foi mesmo um ponto de viragem no meu percurso», conta. «Ela disse-me que eu estava num curso que exige muito da escrita e, quando reparou na minha debilidade a esse nível, ofereceu-se para me dar aulas particulares de português, onde me ensinava voluntariamente a escrever palavras e me convidava a fazer resumos. E dizia-me sempre ‘Não desistas, eu sei que não é fácil, mas tu vais conseguir’. Essa pessoa foi verdadeiramente um anjo no meu caminho: a primeira a reparar em mim, a preocupar-se e a querer ajudar». Foi assim que, aos poucos, Waltimira começou a ganhar confiança. Mais do que isso, sentiu-se investir de uma missão: orgulhar – ou, pelo menos, não desiludir – aquela que lhe tinha dedicado tempo e esforço, sem nada lhe pedir em troca.

Então estudou. Horas a fio. Mas sem apoio financeiro familiar estável, rapidamente se viu forçada a trabalhar para pagar as propinas. Primeiro num café, depois noutro, a seguir num restaurante de fast food e, hoje, numa loja de decoração do Fórum Coimbra… Pelo meio, deixou um semestre passar, pois entre horários longos, dias intensos e noites tardias, pouco lhe foi sobrando para estudar. «Acho que as pessoas não têm noção do cansaço desumano que é conciliar estudos com trabalho», sublinha. «É mesmo muito complicado. Uma pessoa fica exausta, mesmo». Por isso avança, mais devagar do que os outros, mas sempre em frente.
Hoje, está finalmente a uma cadeira de acabar o curso. E, depois, só quer é exercer. Rádio ou televisão, de preferência. Ainda assim, reconhece que o caminho não é fácil – e que o domínio da língua permanece uma barreira. «Tenho medo de falar e falar mal. Mas com o tempo, fui percebendo que a minha forma de falar também é uma riqueza». Quem sabe, talvez um dia regresse à Guiné, para ser professora de jornalismo? «No meu país as pessoas precisam de saber que o português não é só o que ouvimos lá. E há muitos guineenses capazes, mas a quem não são dadas as ferramentas certas. Então, eu gostaria muito de ajudar, porque sei o que passei. Mas, por enquanto, não há liberdade. Inclusive tiraram recentemente a Agência Lusa e a RTP de lá. Nessas condições, eu sei que não ia chegar lá e aceitar apenas tudo o que me pedissem para fazer – e ainda não quero morrer. Por isso, por enquanto, prefiro ficar cá, mas, quem sabe, talvez um dia regresse…e use da minha experiência para melhorar a dos outros».
De volta à sala de aula, 30 anos depois
Esta – terceira e última – história recua no tempo e começa no liceu da Guiné dos anos 90, onde o português fluente de Clode, hoje 53 anos, encantava professores sem formação superior à vista. Paula Melo, mentora que viria, mais tarde, a dirigir a Televisão da Guiné-Bissau (TGB), insistia: «Escreves muito bem, devias fazer jornalismo».
Em 1995, cada vez mais «apaixonado por ler e escrever» e jovem de 22 anos, Clode decidiu fugir à ausência de cursos na Guiné e desembarcou em Coimbra – o primeiro da família a pisar uma universidade. Mas ninguém preparara aquele rapaz para o sistema de ensino português. E se a paixão «resistiu» à intensidade, a bolsa de cooperação, ela, rapidamente caiu após mais de uma repetição esforçada. É, pois, que as notas desceram drasticamente, roubando-lhe assim aquela bolsa mantida apenas para alunos de 18 para cima.

Recusando-se a desistir sem antes tentar, começou a trabalhar nas cantinas universitárias, mas pagavam-lhe pouco e «mal dava para comprar comida», recorda. Pouco depois, via-se, de coração apertado, forçado a interromper o curso. Ainda tentou, na Itália, juntar dinheiro para regressar, mas, para já, tinha de se fazer à evidência: o sonho coimbrão tinha de ser adiado. Sem diploma, deu por si a regressar à Guiné, onde equivaleu os três anos e meio de bagagem localmente. Lá, reencontrou Paula Melo, que lhe abriu os braços da TGB, única estação pública do país. De iniciante a repórter contratado via carta de recomendação da UC, Clode passou assim a cobrir debates políticos complexos, histórias de luta de libertação nacional e eventos que testavam a ética aprendida. Muito rápido, ascendeu a editor político e, depois, chefe de redação, gerindo equipas jovens e experientes num Bissau de manipulações diárias. «Aqueles anos em Coimbra serviram muito», confessa.
Em dezembro de 2023, o idílio rompia-se abruptamente. Após o presidente Umaro Sissoco Embaló dissolver a Assembleia Nacional Popular num alegado golpe, militares invadiram a redação da TGB e roubaram o computador do diretor-geral, aterrorizando tudo e todos. Naquele dia, jovens jornalistas choraram e gritaram; muitos abandonaram a profissão; e metade fugiu para Portugal, Lisboa incluída. Clode, no centro da notícia como editor político, assistiu ali ao «desmoronamento do Estado de direito democrático». Dois meses depois, tradutor e guia para cineastas italianos na remota ilha de Caxiu, acordou de um AVC – sem voz, nem equilíbrio. Internado numa clínica italiana, diz ter recuperado o essencial. Mas o susto, ele, silenciou aquela que é «a nossa maior arma»: a voz.
A 6 de junho de 2024, decidiu fugir e, com estatuto de asilo político, escolheu Coimbra: «a cidade que conheço e gosto», explica. Aqui, o destino teceu reencontros de boémia estudantil: Sofia Branco, agora jornalista da Lusa; Joaquim Reis, ex- RUC; e Clara Almeida Santos, agora professora… todos impulsionaram o reingresso curricular que agora ocupa o seu tempo. Em 2026, trinta anos depois de interromper o curso, o recém-exilado regressava, pois, à sala de aula, para estudar, uma vez mais, Jornalismo e Comunicação. Mais do que obter finalmente um diploma, Clode motivou-se com o reencontrar do ar que respira vida à profissão: a liberdade. Porque, «sem ela, não é jornalismo», cita de memória o professor Mário Mesquita, fundador do pioneiro curso português.
Em paralelo, sobrevive, hoje, entre outros, como segurança privado num supermercado na Quinta da Portela, sustentando o filho de 16 anos trazido da Guiné por risco de retaliação: «muitas vezes, atingem o filho para te atingirem a ti», conta.
Como jornalista-cidadão, luta para edificar democracia e evitar repetições. Matriculado na Faculdade de Letras da UC, quer «ferramentas de jornalista de verdade» para a Guiné-Bissau, onde o povo vota em consciência pela democracia – quarta vez consecutiva contra intimidações, torturas, mortes e golpistas, mesmo após eleições manipuladas. Clode conhece os sítios, as gentes de todos os estratos, e diz: «todos merecem atenção». Mundo conectado, trabalhará remotamente de Portugal, num sem desistir, mesmo com saúde frágil e filho a cargo.
E contra pessimistas que dizem «Coimbra não tem lugar para jornalistas», contrapõe: «Tem liberdade, sempre». Então, aqui, sonha rádio, TV e impresso, sem medo de invasões ou silêncios forçados. Pois se, como evocava Mesquita, «a liberdade para um jornalista é o ar que se respira», Coimbra é, para Clode, o oxigénio. O oxigénio que lhe permite renascer. No exílio, sim, mas para o seu povo, sempre.
A distância que separa o sonho da realidade
Apesar de diferentes na forma, todas estas histórias expõem, quando colocadas lado a lado, uma mesma tensão: a de uma área que continua a exigir muito – tempo, estudo, persistência, vocação – e a devolver cada vez menos a quem a persegue. Parece que, hoje, escolher o jornalismo já não basta. É preciso que ele também nos escolha – e, muitas vezes, não o faz. Apesar de tudo, Waltimira continua a escrever notícias à noite, entre turnos de trabalho. Mariana insiste em fazer perguntas, ainda que fora da redação. E Clode regressa à sala de aula, décadas depois, para reencontrar aquilo que nunca deixou de ser. Nenhum deles aceitou deixar o sonho por completo. Simplesmente, nenhum o vive exatamente como o imaginou.
