Patrícia Leston, 22 anos, acompanha o senhor José, um senhor bastante simpático e comunicativo, no âmbito do voluntariado no grupo Faz+, em parceria com a ATLAS. Apesar de ser bastante expressivo, tem algum comprometimento na articulação das palavras, devido ao isolamento social, agravado com a pandemia, conta. O acompanhamento ao senhor José faz é uma rotina mensal e começou no ano passado: esta iniciativa só vem combater essas dificuldades e é notável uma melhoria.

Patrícia Leston juntou-se à Faz+ em 2020. Na altura, deveria ter feito voluntariado em um lar da cidade mas a pandemia trocou-lhe as voltas e, com as restrições impostas, o projecto teve de ser cancelado. Foi, no entanto, a pandemia que levou o Faz+, com o trabalho em lares suspenso, à parceria, pela primeira vez, com a ATLAS, uma organização que sinaliza famílias em situação de vulnerabilidade social. «Com a ATLAS as actividades que desenvolvemos foram essencialmente ao fim-de-semana: dois voluntários iam recolher uma refeição a um restaurante parceiro e, à hora de almoço, iam entregar aos idosos», conta Ana Maria Rito, uma das coordenadoras do grupo que pertence ao CUMN (Centro Universitário Manuel da Nóbrega). Mas estas acções estendiam-se para além da entrega de comida: ficavam a conversar com eles, ver se a medicação estava em dia e se estava tudo dentro do nível de orientação que é desejado, acrescenta.


Contacto entre gerações

O grupo Faz+ integra actualmente 45 voluntários. São jovens universitários e pré-universitários (12.º ano), com idades entre os 17 e os 25 anos. Os jovens universitários, entre os 18 e os 30 anos, são também a aposta do mais recente programa da Associação das Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel (ACERSI). Em Setembro último, a associação e a Associação Académica de Coimbra (AAC) assinaram um protocolo para pôr em marcha o programa Abraço de Gerações.

«Com o mote “Amigos (Im)Prováveis para uma vida”, este programa», explica Teresa Sousa, assistente social na ACERSI, «consiste no diálogo entre gerações para promover o convívio». O desejo é também promover relações entre as duas gerações, através da valorização e respeito pelos mais velhos, visando uma partilha de experiências entre gerações e a companhia como forma de minimizar o isolamento social, acrescenta a assistente social.

«Tudo isto que fazemos ajuda muito as outras pessoas mas também nos ajuda muito a nós a crescer e a perceber que a bolha de muitos privilégios que vivemos não é a que existe em todo o lado e que todas as pessoas têm.»

Ana Rita Sarmento, coordenadora Faz+

O projecto «Abraço de Gerações» tem estado, ainda assim, em banho-maria. Teresa Sousa diz que com a pandemia a condicionar nem tem sido oportuno apostar na divulgação. Acresce também o facto de este ser um projecto em fase embrionária, não sendo do conhecimento de grande parte dos estudantes e da comunidade. A pandemia tem trocado as voltas também ao Faz+, que acabou por suspender as actividades em lares e centros de dia. Esperam agora, no segundo semestre escolar, com a mitigação das medidas de prevenção da COVID-19, o regresso ao trabalho em lares e centros de dia.

Uma vez por semana, um grupo de voluntários, designado para uma instituição, vai ao lar ou ao centro de dia e elabora actividades didácticas com os idosos. Iniciativas que são impulsionadas sempre que se assinala um dia festivo, como o Dia de S. Martinho, ou mais temático como o Dia Mundial da Diabetes. «A temas sérios junta-se sempre a criatividade: houve uma semana que era o Dia Mundial do Dinheiro e fizemos uma espécie de Preço Certo. Foi divertidíssimo.»

Acompanhar seniores em sua casa é também uma das valências do projecto da ACERSI. Segundo Teresa Sousa a ideia do projecto é, depois de uma avaliação feita aos idosos e aos estudantes, cada jovem ser responsável por fazer companhia, no mínimo duas tardes por semana, ao candidato de mais idade. «Ao voluntário», explica a assistente social, «caberá dinamizar, com as pessoas idosas, actividades de estimulação cognitiva, assim como deverá estar disponível para o(a) acompanhar em situações que tenha de se deslocar ao exterior.»

Há ainda a opção da co-habitação: a avaliação mantém-se e será de acordo com os perfis de cada candidato que se procurará promover a integração na casa da pessoa de mais idade.

Motivação? Ajudar

Patrícia Leston tem como principal motivação dedicar tempo a servir a comunidade da forma que eu mais gosto. No quarto ano de Direito, a jovem admite a sua admiração pelos mais velhos, não só pela sua experiência de vida tão completa mas também por considerar que têm imenso para ensinar. «Entristecem-me bastante os casos em que os familiares não têm muita disponibilidade para estar com eles», assinala Patrícia Leston.

Ana Maria Rito acredita que a adesão ao grupo de voluntariado está muito associada ao gosto que os jovens têm de se sentir bem consigo e também a uma dose de altruísmo. «As pessoas só querem mesmo dar mais, fazer mais. Percebem que estão numa posição que, felizmente, não é de vulnerabilidade e gostam de ajudar quem sabem que está, infelizmente, nessa condição, e ainda por cima é muita gente.» Esta é uma realidade à qual Patrícia Leston não fica indiferente. Crescida num ambiente familiar e escolar com forte promoção de valores de solidariedade, a jovem assinala lacunas na resposta social aos seniores que a fazem agir: «a sociedade portuguesa é muito unida, mas peca pelos cuidados precários que tem com a terceira idade».


É focado nas mais-valias do contacto inter-geracional que a ACERSI pretende também actuar, por forma, a provocar a mudança no modo de intervir junto de pessoas mais velhas e dos mais novos, criando uma simbiose de saberes e idades. «O contacto com os seniores», admitem os jovens, «traz ganhos em sentido duplo». É pelo menos essa a visão de Ana Rita Sarmento, também coordenadora do Faz+. «Tudo isto que fazemos ajuda muito as outras pessoas mas também nos ajuda muito a nós a crescer e a perceber que a bolha de muitos privilégios que vivemos não é a que existe em todo o lado e que todas as pessoas têm.»

Com 23 anos, Ana Rita Sarmento acredita que estas actividades permitem também crescer um bocadinho. «Sentimos que fazemos a diferença», confessa Ana Maria Rito. A jovem resume na palavra gratidão o resultado das suas actividades. «A relação que se cria com os idosos», relata, «acaba por ir mais além do voluntariado. Se faltarmos um dia, os idosos perguntam onde fomos, o que aconteceu, se estamos doentes e preocupam-se connosco.»

O desafio de manter o voluntariado prende-se, muitas vezes, com as dificuldades em conciliar o calendário escolar com as actividades desenvolvidas. Ainda assim, para Patrícia Leston este é um obstáculo superável, que se resolve com organização. O seu maior desafio, confidencia, passa por arranjar maneiras para combater a solidão na terceira idade. «Efectivamente, apesar de me sentir útil enquanto estou em contacto com eles, sinto-me preocupada quando fico mais tempo sem os conseguir ir visitar.» «Cuidar para melhor envelhecer» – o exemplo da Lousã às portas de Coimbra, foi também de um grupo de voluntariado que nasceu o projecto Rede Cuidas, desenvolvido pela ADSCCL – Associação de Desenvolvimento Social e Cultural dos Cinco Lugares. Tem como finalidade traçar um plano personalizado para cada idoso que queria envelhecer em casa, garantindo as condições necessárias para que esse processo aconteça de forma digna.


Na base do Rede Cuidas está o Gerasol, que começou por volta de 2011 com um grupo de voluntários a visitar idosos. «Dávamos-lhe tempo que era aquilo que elas gostam e elas precisam de quem tenha tempo para elas; elas têm muito tempo», recorda Liliana Simões, coordenadora e fundadora do Rede Cuidas. A resposta dada estava relacionada com a realidade dos idosos da região: «Muito activos, já com bastante idade, mas que não queriam serviço nenhum, nem de apoio domiciliário, nem de centro de dia, nem de coisa nenhuma. Eles queriam era viver a vida deles.» Mas o projecto ganhou asas e, hoje com financiamento, estruturou-se e conta com uma equipa multidisciplinar, mantendo o modelo de intervenção. A pandemia marca o início da actividade – Fechámos o país e abrimos o [Rede] Cuidas, recorda Liliana Simões.

O público-alvo é a população com reformas abaixo do salário mínimo e foram já apoiados 200 idosos. O modelo de intervenção passa por ir a casa dos idosos, sem fazer qualquer alteração na sua rotina, e perceber as suas necessidades. «Vamos conhecemo-las, percebemos o que elas querem para si, como querem envelhecer e se querem envelhecer nas suas casas tentamos transformar isso em uma possibilidade», explica-nos a coordenadora. «A intervenção pode ser feita a vários níveis, porque», entende o Rede Cuidas, «o idoso tem de ser olhado de um ponto de vista holístico».

Com o plano individual traçado, um dos objectivos deste projecto é também não criar dependências. Liliana Simões nota que este «é um projecto sem financiamento e, não havendo, queremos que a pessoa fique com um plano para continuar a ser autónoma». O trabalho da Rede Cuidas tem extensão em voluntários, que visitam os idosos mais sozinhos e fazem a ponte com os profissionais. Para já há dois voluntários integrados e mais quatro para receber formação. O expectável é que cada um acompanhe um, dois, três ou quatro idosos, em função da disponibilidade que tenha, e depois faça a visita semanal. A Rede Cuidas vai agora estudar o impacto das suas intervenções na vida de cada idoso, com o desejo de expandir o projecto.

«Se verificarmos que esta é uma metodologia interessante e com impacto significativo na vida das pessoas, gostávamos muito de poder alargar o projecto a outros territórios e que ele pudesse ser replicado.» Nesta caminhada com os idosos da Lousã, Liliana Simões fala de histórias de resiliência incríveis e fontes de aprendizagem brutais. Têm histórias de vida deliciosas e acho que nós ganhamos muito mais do que eles, conclui.

https://www.cm-coimbra.pt/areas/viver/social/banco-de-voluntariado

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Jornalista

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