A palavra urbanidade significa vida de cidade, mas também cumprimento das regras de boa educação e de respeito no relacionamento entre cidadãos. No entanto, os arquitectos Carlos Antunes e Desirée Pedro, o arquitecto José António Bandeirinha e o economista José Reis defendem que a urbanidade não está distribuída e não é acessível de forma justa por todos os 308 municípios que existem em Portugal, e nada devia impedir que existisse também em aldeias e vilas.
A convite da Bienal de Veneza, o Atelier do Corvo de Antunes e Pedro construiu uma exposição onde é possível conhecer dez «bons exemplos de arte e arquitectura que criam urbanidade em diferentes cidades portuguesas», como forma de despertar a discussão sobre a urgência de ter «um país mais horizontal» no que toca ao direito à urbanidade. O apelo é por um país mais «horizontal e uno», «mais ética e mais estética».

«Como é que o país pode ser pensado de forma mais horizontal? Como é que a arquitectura e a arte podem contrariar o esvaziamento do país, muito centrado nas grandes capitais, com enorme prejuízo para a própria Lisboa? São estas algumas das perguntas a que se pretende responder e dar soluções urgente, no sentido de Portugal ter núcleos urbanos mais fortes e um país mais justo e equilibrado», explica Carlos Antunes.
«Continuamos a considerar – em Coimbra menos, mas noutras cidades – que há coisas que existem em Lisboa e no Porto que nós não temos o direito de aceder a elas. Por que é que na Covilhã não há-de haver programação de altíssima qualidade? Ou urbanidade de altíssima qualidade? Ou praças de altíssima qualidade que as pessoas possam usar como usam em Londres e em Nova Iorque? Não devem existir? Essa diferença não pode existir. Temos de lutar com todas as nossas forças para que o direito à urbanidade civilizada seja transversal, horizontalizado. Esse é o nosso combate e nenhum de nós abdica disso», expõe o autor na apresentação de Todos os Tempos se Cruzarão, patente na Sala da Cidade até 2 de Março.

Lembrando que a saída e regresso ao país de tantos jovens ao abrigo de programas de intercâmbio como o ERASMUS elevaram a fasquia das gerações mais novas em relação ao nível de urbanidade, por comparação ao que conheceram lá fora, os autores desta proposta que é a primeira de um ciclo intitulado Cuidar de um País recusam a palavra «descentralizar» para descrever o objectivo do manifesto. «Porque pressupõem um erro: a ideia de um centro e um gesto caridoso de vamos lá levar. Não, nós não queremos gestos caridosos. O país ganhará todo por igual se for pensado de maneira horizontal e é isso que nos move e um dos motivos por que existe uma bienal», justifica Carlos Antunes.
José António Bandeirinha é curador informal da exposição que considera «um arranque para esse conjunto de intenções que são de clarificar e pôr as pessoas orgulhosas da sua urbanidade e da sua natureza sem as quererem misturar a torto e a direito». José Reis, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, observa que «temos uma riqueza territorial enorme que é desaproveitada». «Nós precisamos de mudar os olhos como olhamos para Portugal. Precisamos de reinterpretar Portugal. Basta sermos simples, limparmos os olhos ou os óculos e olharmos para o país de outra maneira. O país é, muitas vezes, descrito e interpretado de forma muito preguiçosa. Na base de binómios, dicotomias, Litoral e Interior, rural e urbano».
Os bons exemplos
A Biblioteca Central da Universidade da Beira Interior (Covilhã, 2001) foi inaugurada em 2001 e ocupou um antigo palacete do século XIX, adaptado pelo projeto do arquiteto Bartolomeu Costa Cabral. Carlos Antunes e Desirée Pedro afirmam que foi revolucionária, porque «a partir do momento em que se instalou, a Covilhã mudou todo o seu território e as pessoas que o habitam e frequentam».
Outros exemplos são a proposta House of Ferraria (2017) de Teresa Braula Reis, apresentada no festival Walk and Talk, nos Açores, e o Largo do Toural (2012), projecto de renovação urbana de Maria Manuel Oliveira que foi a principal intervenção proposta para o espaço público durante a Capital Europeia da Cultura, juntamente com duas artérias do centro histórico de Guimarães.
O edifício da Biblioteca Municipal e Arquivo de Grândola (2021), desenhada por Pedro Matos Gameiro e Pedro Domingos, é outro exemplo de boas práticas urbanísticas. Na descrição dos autores lê-se que «o espaço moderno e impactante que brotou em solo Alentejano por entre o conjunto de palmeiras que estruturam a renovada Praça da República, agora expurgada de todos os elementos ruidosos e conflitantes (…) removidos na busca de uma ordem mais pacificada». A praça é o lugar central da cidade e epicentro de ligação entre o Jardim Municipal, a sudoeste, e o Jardim das Laranjeiras, a nascente.
«No bairro das Alagoas, entre prédios levantados a toda a pressa, onde tudo parece precário e acidental, esperava-se uma novidade clara, luminosa.» Na Sala da Cidade, pode-se conhecer o novo edifício multiusos (ABA), desenhado por António Belém Lima, e que é a sede da Associação Bairro Alagoas, na Régua. Trata-se de uma intervenção social que aproximou a minoria de etnia cigana dos restantes moradores, onde são promovidas actividades e se cuida da nova imagem daquele que já foi um bairro crítico e degradado.
Apesar de ser numa das maiores e (por isso) mais privilegiadas cidades do país, Carlos Antunes e Desirée Pedro não quiseram excluir o projecto de Nuno Valentim para o Mercado do Bolhão, no Porto. «Um equipamento que era emblemático, estava obsoleto e que esta proposta veio resignificar, voltar a atribuir sentido a toda uma vida que ali existia e que tinha deixado de ter», justifica Desirée.
Coimbra está presente nas propostas de alunos de arquitectura para o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, as obras Silêncio IV de Moirika Reker e Gilberto Reis no Aqueduto de S. Sebastião e Museu de Francisco Tropa (fruto da Anozero’15) e as intervenções urbanas pontuais do Coletivo Zás, que o Atelier do Corvo destaca como fundamentais neste quadro de reflexão e apelo à mudança na forma como se pensa o país.
«Todos temos de encontrar formas de encontrar, à medida do nosso braço estendido, formas de reivindicar urbanidade. Todos temos a responsabilidade cívica de reclamar urbanidade, de reclamar qualidade de vida. E é por isso que é tão importante ter alguém como os Zás, que podiam estar na esplanada do Tropical a falar mal desta cidade, mas põe mãos à obra e, com as ferramentas que têm, a cidade somos nós, a cidade são as pessoas, não há outra conversa.»

A Capela de Santa Filomena remata a exposição com um toque espiritual e surpreendente. Desenhada pelo arquitecto Pedro Maurício Borges, fica numa zona industrial do lugar de Netos, nos arredores da Figueira da Foz. Com uma estrutura angular, de recorte direito e minimalista, apenas recortado por duas janelas e uma porta de entrada, tem um santo giratório que quando há missa está virado para os fiéis e quando não há fica virada para quem passa na rua, como uma alminha.
Aperitivo para a Anozero
Às portas de mais uma Anozero, a exposição Todos os Tempos se Cruzarão serve como uma espécie de aperitivo para a bienal de arte contemporânea, de 6 de Abril a 30 de Junho, que Desirée Pedro diz que «é fundamental as pessoas sentirem a Bienal como sua». A arquitecta defende que «as propostas representam equipamentos e acções na cidade, em cidades de diversas escalas, arquitectónicas, urbanas, mas também feitas por artistas» e que a programação que já plantou várias obras em Coimbra «é uma acção para a cidade». «É por isso que está num continuum a programar, não acontece só de dois em dois anos. A ideia é que as pessoas sintam que o que propomos, o que os curadores propõem, são reflexões sobre o sítio onde vivemos, e que isso faz parte da nossa vida e que para nós é tão essencial como respirar. Isso era o que nós gostávamos mesmo que a Bienal fosse.»

José Manuel Silva, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, afirmou na apresentação para a imprensa que o seu desejo é que as exposições permitam «questionar o nosso artigo 82 do Plano Director Municipal, provocá-lo e reconstruí-lo, para que esta cidade consiga integrar provocações distintas da área da arquitectura e se considere que o efeito da integração pode ser a desconstrução de conceitos clássicos para perspectivas mais contemporâneas de urbanismo e da vida numa grande urbe, com um património extraordinário, onde tantos tempos se cruzam, como é Coimbra.»
O ciclo de exposições acerca do território, arquitetura e arte Cuidar de um país é coorganizado pelo Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, Universidade de Coimbra, Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra, Centro de Estudos Sociais e Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
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