Em 2011, Hunter Halder perdeu três fontes de rendimento de uma vez. Estava a viver em Lisboa com a família quando, de repente, se viu sem saber como pôr comida na mesa. «Estávamos em plena crise financeira e percebi que tinha de fazer uma nova carreira. O problema é que também meti um espelho no meio desse pensamento e vi que o gajo era velho.» O «gajo», agora de barba branca e chapéu de palha, que conhecemos enquanto montava uma instalação na Aldeia de Inovação Social, tinha 59 anos.

Halder conta que o seu pensamento seguinte foi analisar o que já tinha feito e com que resultados e apercebeu-se de que tinha trabalhado sobretudo para si mesmo e que queria recomeçar por um caminho mais altruísta, voltado para a comunidade. Como? A ideia veio servida com a salada, quando a filha perguntou para onde iam os restos. Respondeu que não havia outra alternativa senão atirá-los para o lixo e a luzinha acendeu sobre a cabeça.

Helder Hunter na Aldeia da Inovação Social 2023

Em Março desse ano – já lá vão 12 -, o americano-alfacinha, como se auto-intitula, montou a bicicleta e fez a primeira recolha voluntária de excedentes alimentares em cafés e restaurantes da capital. Era o início do Re-food 4 Good, associação sem fins lucrativos com estatuto de IPSS presente em
mais de 60 núcleos em 30 cidades portuguesas, inclusive em Coimbra. Por cá, 16 voluntários compõem a equipa de gestão e cerca de 60 voluntários recolhem comida que 21 estabelecimentos iam deitar ao lixo, entre eles cantinas de escolas e seis hipermercados (quatro Continentes e dois Aldis). 

Os alimentos vão directamente para 26 instituições beneficiárias locais de apoio a orfãos, jovens carenciados, famílias desestruturadas, idosos, sem-abrigo e toxicodependentes. A gestão dos excedentes é feita consoante as dietas, mas Marta Graça alerta que os pães e os bolos são uma questão problemática, porque há mesmo muito excedente e é um problema transversal a todo o país. Quem é Marta? É a pessoa na proa de toda a operação da Re-food em Coimbra desde a criação do núcleo local, em 2015.

Oito anos de combate ao desperdício

Marta está na estrada e fala connosco ao telefone, em alta voz. Já devia ter chegado ao destino, mas a agenda trocou-lhe as voltas. Não é para menos, desdobra-se entre as aulas como assistente convidada na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (UC), o doutoramento na área de Ciências Jurídico-Criminais, as idas a casa em Sever do Vouga e várias acções de activismo social. Estava a começar o segundo ano do curso quando foi desafiada por David Luís, da direcção nacional da Re-food, para participar na reunião de preparação da primeira Reunião Sementeira na nossa cidade. Conhecia vagamente a ideia, mas sentia que em Coimbra «não se falava destas coisas». A reunião foi com Hunter Halder e Marta diz: «Só sei que saí de lá coordenadora de uma equipa que não conhecia e que tínhamos de trabalhar para conseguir ter um auditório cheio».

Voluntários do Re-food Coimbra num momento de convívio

Muitos participantes da primeira reunião tornaram-se voluntários e o núcleo Re-food de Coimbra nasceu e manteve-se até hoje. «Para mim, faz sentido uma vida em que paralelamente somos voluntários pelas causas em que acreditamos», partilha Marta, com o som dos piscas ao fundo. A viagem continua. A jovem já fazia parte da direcção do Grupo Ecológico da Associação Académica de Coimbra e outros projectos de representação de estudantes quando ajudou a criar o núcleo da Re-food em Coimbra, em Dezembro de 2015.

Em 2016, começou a Campanha Pão & Bolos, resgatando boa comida em parceiros como a SONAE, ALDI, Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, entre outros comércios de menor escala. Mas hoje, já não se limitam à recolha de pão e bolos e, trabalhando em equipa, cada voluntário contribui com o seu tempo para a redução de desperdício alimentar, aumento da justiça social e sustentabilidade ambiental numa lógica de economia circular.

Só no ano passado, proporcionaram 78 099 refeições e entregaram 239 241 pães/bolos, obtendo uma média de 214 refeições e 655 pães/bolos salvos por dia. Marta orgulha-se do «crescimento exponencial», apesar de continuar a faltar um espaço físico com condições para montar uma cozinha e estabilidade na equipa de voluntários activos que está sempre a mudar. Por isso, dia 4 de Dezembro, às 21h, há nova Reunião Sementeira aberta à comunidade na Reitoria da UC, com a presença do fundador do movimento e presidente da direção da associação.

Como funciona o Re-food?

Primeiro, a organização identifica instituições que queiram receber comida. Depois, estabelecimentos dispostos a dar os seus excedentes. Cada núcleo organiza rotas de recolha e entrega que depois coordena com os voluntários. «No fundo, somos um Uber do desperdício», graceja Marta. Em Coimbra, ela agora partilha a coordenação da equipa de gestão com Luísa Coelho e Joana Henriques, uma mudança que aconteceu em Setembro, com o objectivo de ter o mínimo de posições e cargos possível e garantir a homogeneidade de responsabilidades.

Todos são voluntários e têm diferentes perfis. No início, eram maioritariamente jovens ligados à universidade, mas actualmente são também pessoas em idade activa (30 a 50 anos) e reformados. «As pessoas reformadas gostam imenso de fazer rotas em casal, porque gostam de fazer o bem em conjunto».

Mês sim, mês não há formação da Re-food para novos voluntários. Os interessados só têm de contactar por email, telefone ou através das redes sociais, escolher a data mais conveniente e participar na reunião online de cerca de 1h, sem compromisso. É explicado o conceito e funcionamento da Re-food, depois cada participante recebe um email pessoal onde é perguntado se pretendem juntar-se ao movimento. «Compreendemos quem considere que não se identifique com este tipo de voluntariado, mas queremos é que as pessoas nos conheçam e tomem a sua decisão de forma informada. Todos somos formados e tornamo-nos formadores, por isso ganhamos aptidões também», explica Graça. 

A Coimbra Coolectiva acompanhou algumas rotas em Coimbra, que acontecem de 2.ª a 6.ª, a partir das 18h e dependendo dos horários de encerramento das «fontes», que é como chamam aos estabelecimentos onde recolhem excedentes alimentares. Cada equipa, normalmente composta por duas pessoas, demora cerca de 1h30 a 2h a fazer as suas recolhas e entregas. Diariamente há duas ou três a operar em simultâneo em diferentes pontos da cidade. Pontualmente também recolhem ao fim-de-semana, por exemplo, em eventos no Convento São Francisco, casamentos e baptizados.

O voluntariado é em tempo e também recursos, para quem tem automóvel particular. As instituições beneficiárias podem fazer pedidos específicos ao longo do ano, que levam a recolhas e entregas extraordinárias. «Somos um complemento, mas nenhuma instituição trabalha 100% a contar com o nosso apoio.» 

Próximos passos da Re-food Coimbra

O núcleo local da Re-food 4 Good tem uma sede oficial na Rua do Brasil, que é um anexo da Casa Dignidade da Fundação ADFP (Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional). Já contou com o apoio da Junta de Freguesia para arranjar o telhado, mas a fraca capacidade eléctrica e outras insuficiências fazem com que não consigam realizar um sonho: abrir uma cozinha para «atacar a pobreza envergonhada». Marta explica: «Não é a população que já está a ser apoiada por instituições. É aquela população que está no limiar; que, em Setembro, para comprar os livros escolares se calhar não teve tanto dinheiro para comprar comida, boa comida. É a esse tipo de pobreza que queremos dar resposta. Pessoas que não têm fundamento para receber apoios do estado, que podem até estar a trabalhar, mas ainda assim estão em situação de pobreza.»

Quanto mais voluntários houver a gerir, mais repostas é possível dar, na escolha e, sobretudo, na entrega de alimentos. A Câmara Municipal de Coimbra propôs ao grupo participar num projecto com outras instituições, mas as características do Re-food são diferentes: não confeccionam e não podem garantir uma quantidade fixa.

Além de voluntários, com novas ideias e motivação, a organização precisa de garantir a sustentabilidade social e financeira. Marta Graça faz o mea culpa: não têm mais parceiros porque não têm feito divulgação externa. «Estamos a precisar, em geral, de capacitar novas pessoas para desenvolver esse trabalho.» O apoio pode passar por donativos, mas há alternativas. O grupo Alves Bandeira, empresa de soluções de energia e mobilidade, ofereceu 500€ em vales de combustível e a empresa Nolon Finsolutia dá aos funcionários a possibilidade de dedicarem tempo de trabalho ao voluntariado. «Já tive o carro cheio de pessoas da mesma empresa que, para além de terem feito um donativo, conheceram-nos e acompanharam-nos, viram como trabalhamos», conta Marta Graça.

A luz que não se apaga

A última vez que vimos Hunter Halder conduzia a sua bicicleta na Aldeia da Luz, no Alentejo. A próxima pode ser no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra Coimbra, onde o fundador da Re-food vai (re)apresentar o núcleo local, num momento que inclui a participação do comediante e voluntário da Re-food, Afonso Paiva. Halder considera que o núcleo de Coimbra «tem muito mérito porque nunca teve um centro de operações e, normalmente, ele aparece logo no primeiro ano. Mas, em vez de baixar os braços ou deixar cair o sonho, desenvolveu um modelo alternativo»

O Movimento Re-food faz parte do pioneiro ecossistema de Inovação Social e foi financiada pelo Portugal 2020. Conta com 7 500 voluntários a nível nacional, já tem núcleos em Madrid (Espanha) e Milão, e intenções de implementação no Brasil e nos Estados Unidos.

Quando conversámos com Hunter no Verão, estava a instalar uma exposição sobre os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, uma proposta que quer levar a todas as cidades portuguesas «para informar o povo da importância desta matéria». Porquê? «Porque os governos e os políticos já têm programas em que abordam o tema junto às empresas, aos académicos, etc, mas na minha leitura ninguém está a falar com o povo e precisamos de criar sensibilização e motivação para mudar
Através de mensagens e post its por preencher, convida à reflexão e partilha informação sobre os perigos da inação, motivos de esperança e «excelentes» projectos portugueses a trabalhar no mesmo sentido.

«Para quê ter comida para resgatar se não há planeta? Para quê ter lucros nas grandes empresas se não há planeta? Eu acho que isto tem de ser feito. É um sítio onde posso colocar a minha energia criativa, mas ainda está no início.» Há boas notícias? «Há. O Refood é uma entre muitas. Há muitas boas notícias que parecem não notícias, mas estou confiante.» E acrescenta: «Quem entra nisto para resolver o assunto não vai ter sucesso nem felicidade. Temos de perceber que os assuntos, seja o do desperdício alimentar seja o da fome, são enormes. O importante é fazer a diferença agora e mudar consciências. Quando comecei ninguém ligava a deitar fora comida. Era normal. Mas agora as pessoas ficam indignadas.»

Terminamos a redacção deste artigo no conforto da nossa redacção, mas está frio lá fora. Marta Graça anda com a equipa nas ruas e a tentar obter licença da Câmara para distribuir panfletos sobre o Re-food e a Reunião Sementeira no recinto da Coimbra Magic Land, por exemplo. Hunter prepara a vinda a Coimbra. A vida deu muitas voltas desde 2011. «Transformamos o mundo e o mundo transforma-nos. Há uma contrapartida. Percebi isto com a minha primeira empresa que era um bar com música ao vivo. Quando me perguntavam se a empresa era minha, eu respondia que sim, era minha, mas eu também era dela e agora já não.»

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Jornalista

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