«Olá!», diz Mariana Valente ao mesmo tempo que aperta com ternura as mãos de Lurdes. A cada vez mais baixa visão e condição cardíaca faz com que passe o tempo todo em casa. É o marido, António, sentado ao lado dela, que trata de todos os afazeres, apesar de também lhe faltar uma perna e a tensão volta e meia disparar. Mariana é formada em Psicologia é Voluntári@ de Companhia da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Coimbra. Hoje, excepcionalmente, conversam na rua, à porta de casa porque está sol, calor, e isso nota-se ainda mais pelo sobe e desce dos turistas. Estamos num dos inúmeros recantos da Baixa, já a meio caminho da Alta da cidade.
Mariana não está sozinha. A bombeira Susana Santos lidera a acção do projecto SIM à Vida. Comenta que ter voluntárias com a formação de Mariana é muito importante. «Ela tem um perfil que nós não temos. Nós só temos a capacidade de avaliar e sinalizar», diz a assistente social, já nesta vida do voluntariado desde a adolescência. Em 2023, passou a ser também funcionária da associação de prestação humanitária de serviço público de proteção, emergência e socorro de pessoas e bens.

Actualmente, há um voluntário por cada um dos 15 agregados (pessoas ou famílias) que o projecto apoia na Baixa de Coimbra. Susana corre-os todos, pelo menos, uma vez por mês. «Ó doutora, antes de vir para aqui, morei na Almedina», diz Lurdes. A vontade de falar é muita. O isolamento é um dos principais problemas identificados na zona. Lurdes e António dizem que tratam por doutores todas as pessoas que não conhecem e conversam um pouco sobre tudo – desde o dia em que António «se sentiu mal» e tiveram de pedir ajuda a um vizinho, às saudades das verduras das terras de origem, que deixaram há vários anos. «O meu marido gosta muito de alface, mas diz que a do supermercado parece couve», relata. «É rija que sei lá o quê. É como as pessoas, umas são mais rijas outras são mais moles», completa António.
Susana, António e Lurdes conheceram-se durante uma urgência hospitalar. Foram sinalizados e começaram a ser acompanhados pela associação. Apesar da autonomia de António, vivem em situação de grande vulnerabilidade.

Susana explica que «não tem sido muito fácil» colocar os voluntários a cobrir todas as necessidades, porque é um trabalho que deve ser feito com pinças. «Implica compromisso», «há sempre contratempos» e o adiamento de uma visita ou o render de voluntários tem um forte impacto, como se percebe pela impaciência de António quando fica a saber que no fim-de-semana será outra voluntária a visitar e não Susana, nem Mariana. «Para a gente não ficar com saudades, não apresente a pessoa!», reage.
O acesso à residência dos beneficiários também pode ser desafiante. Mariana partilha que uma idosa que acompanha vive no Terreiro do Mendonça com bastante medo, devido ao ambiente de insegurança na ruas, sobre o qual já falámos por aqui. A bombeira Susana e Teresa Almeida Santos, vice-presidente da associação, corroboram. «Os jovens voluntários chegam impressionados das visitas. É preciso um esforço conjunto para dar a sensação de segurança às pessoas.»

As visitas dos Voluntári@s de Companhia duram cerca de uma hora. A bombeira é responsável por supervisionar e perceber se há compatibilidade com os idosos, uma relação que demora no mínimo um mês e meio a consolidar, mas depois traz ganhos a ambas as partes. O projecto ganhou impulso com a entrada de Teresa Almeida Santos na proa da associação humanitária. «Há muitos idosos com necessidades muito grandes e cuidadores que, por vezes, são tão idosos quanto eles. Pensámos em como usar algum tempo disponível para ajudar e tornar as coisas menos pesadas», conta, por telefone. Teresa afirma que o apelo «correu muitíssimo bem: cerca de 60 pessoas voluntariam-se e muitas fizeram formação online».
O problema veio depois com a conjugação de disponibilidades entre voluntários e bombeiros. Teresa Almeida Santos, que é professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e diretora do Departamento de Ginecologia, Obstetrícia, Reprodução e Neonatalogia no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, diz que é uma dificuldade ter bombeiros ou técnicos com formação em áreas como a Gerontologia e Psicologia, por exemplo. E apenas por isso é que os voluntários não estão todos integrados.

O Projeto SIM À Vida tem como missão responder às necessidades dos cidadãos em situação de vulnerabilidade social, detectadas pelos serviços. Procura promover a ética do cuidar como um compromisso fundamental da sociedade, enriquecer competências técnicas e sociais dos cuidadores formais e informais, incentivar a articulação entre a rede social e capacitar a comunidade na resposta às necessidades, com vista à promoção da saúde e do empoderamento comunitário. O objectivo: criar uma comunidade compassiva em Coimbra, mediante a criação de uma cultura baseada na compaixão.
O apoio, como vimos, passa por conversar, e também auxiliar em pequenos arranjos ou até ajudar nas idas às compras ou à farmácia, mesmo que o beneficiário já tenha um cuidador. A ideia é ajudar ambos. Se for criada uma relação de confiança e ligação, os voluntários podem alargar esse âmbito da atividade.
«Fundos serviriam para contratar técnicos para acompanharem os voluntários e formarem os bombeiros. Temos de ir devagar e com cautela. Mas agradeço, desde já, a grande disponibilidade revelada pela comunidade», destaca Teresa Almeida Santos, que lamenta não ter tido tanto tempo como gostaria para se dedicar à causa. Ainda assim, garante que «o balanço é extremamente positivo e muito acima das expectativas» que tinha quando aceitou o desafio de liderar a entidade. «Pude dar de mim à sociedade, fora da minha área profissional, dos cuidados de saúde. Fizemos grandes modificações. Demos melhores condições de trabalho e segurança aos bombeiros – começámos por dentro». A presidente também referiu a profissionalização do atendimento aos sócios e da gestão da associação, a prestação de melhores serviços e a aquisição de cinco ambulâncias. O que sonha mais, a curto prazo? «Espaço para poder estacionar os nossos veículos, que estão amontoados.»

Qualquer pessoa pode ser sócia da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Coimbra, que está a comemorar o 135.º aniversário. Este fim-de-semana há Gala Solidária, sábado, dia 13 de abril, pelas 20h, na Sala D. Afonso Henriques do Convento São Francisco. Tem o objetivo de angariar fundos para melhorar as condições de operacionalidade da associação, criar novas soluções que permitam o conforto e a segurança dos bombeiros e atrair a comunidade que servimos para uma prática de solidariedade ativa.
Almeida Santos assegura que a entidade «começa a ter o reconhecimento que merece da sociedade». «As pessoas vêem que não andamos só a apagar fogos», afirma. Prova disso são os protocolos firmados com entidades como a Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, Associação Nacional de Apoio ao Idoso e o Centro de Apoio Social. A associação também se tem dedicado a promover e participar em encontros dedicados a temas como a compaixão, humanização da saúde e literacia jurídica. «Falta às pessoas informação tão importante como o direito ao acompanhamento», realça.
A quota anual para sócios é de 12 euros, com benefícios como descontos nos serviços de apoio e a oportunidade de ajudar os bombeiros voluntários a ajudar a comunidade.
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