Depois da tempestade que deixou várias regiões do país às escuras, um grupo de intérpretes surdos de Coimbra lançou um apelo: há pessoas surdas isoladas, sem energia, sem rede e, portanto, sem acesso à informação há vários dias. «Estamos disponíveis para ajudar», lê-se no cartaz partilhado por A Ponte Gestual e o Movimento Surdo de Coimbra, que estão a organizar uma rede solidária de apoio através da Língua Gestual Portuguesa (LGP) — desde o contacto com seguradoras e juntas de freguesia até o simples esclarecimento sobre o que se passa.

Foi esse alerta que chegou até nós pelas mãos de Beatriz Romano, jovem surda de 23 anos e rosto do movimento. Gravámos um vídeo com Beatriz, que partilhamos aqui e nas nossas redes sociais, onde ela transmite diretamente a mensagem:

«Olá, eu sou Beatriz Romano, a representante do Movimento Surdo de Coimbra. Venho aqui dizer-vos que a Ponte Gestual, a Associação da Alta Extremadura de Leiria e o Movimento estão disponíveis para ajudar a comunidade surda. Também com intérpretes que estão disponíveis para facilitar a comunicação através de língua gestual à comunidade surda. O Movimento vem também dizer-vos e chamar a atenção às pessoas ouvintes que vejam este post e este vídeo e pedir-vos, por favor, que se têm vizinhos surdos, pessoas surdas perto de vocês, tentem, por favor, ajudar para dar-lhes acesso a alguma informação. As pessoas surdas não conseguem ouvir rádio, não têm tido informação alguma, não têm rede para acessar a internet, não conseguem ligar a pedir informações porque são surdas e tem sido muito difícil este acesso à informação. Queria pedir-vos que se tiverem pessoas, vizinhos perto de vocês, por favor, eles precisam da vossa ajuda.»

«Enquanto pessoas ouvintes têm acesso à rádio e à televisão, as pessoas surdas não têm rede, não ouvem rádio e estão completamente sem informação», explicou-nos Beatriz na entrevista, realizada com o apoio da intérprete Jéssica Ferreira. «Há pessoas surdas que estão há uma semana sem saber o que acontece. Algumas já tentaram ir às juntas de freguesia e encontraram-nas fechadas. Outras nem isso conseguem.»

O Movimento Surdo de Coimbra nasceu da necessidade de criar um espaço de encontro para a comunidade surda na cidade. «Em Coimbra não temos nenhuma associação de surdos ativa, como existe noutras cidades. Já houve, mas acabou por fechar. Então, criámos o movimento para unir a comunidade e não deixar os surdos isolados», explica Beatriz.

O grupo junta pessoas surdas e intérpretes num esforço de representação, informação e solidariedade. A Ponte Gestual, onde Jéssica colabora, faz parte deste trabalho: «Queremos que este aviso chegue a outras regiões, como Leiria, porque há surdos sem contacto e sem forma de comunicar. Precisamos que os vizinhos e familiares ouvintes ajudem a fazer chegar a informação», reforçou.

O pedido é simples:

  • Se conhece alguém surdo na sua rua, vá até lá.
  • Comunique por escrito, mímica ou imagens.
  • Explique que há intérpretes disponíveis e que o movimento pode ajudar.

«Mostrar o telemóvel, usar frases curtas, ser visual — tudo ajuda», recomenda Beatriz. Além da ajuda imediata, o Movimento Surdo de Coimbra está em processo de filiação com a Associação Inclusão e Contacto, com o objetivo de criar um departamento dedicado à área surda. «Queremos ter uma sede, um espaço para reunir e dinamizar atividades, receber famílias com crianças surdas e facilitar o acesso à informação», adianta Beatriz.

Jéssica sublinha que o problema vai além da falta de espaço físico: «Há alunos surdos a estudar nas escolas e universidades de Coimbra, mas ainda enfrentam barreiras enormes. E há famílias que fazem quilómetros todos os dias para dar acesso à educação adequada aos filhos. Muitas crianças crescem sem conhecer adultos surdos e sem perceber que podem ter uma vida plena. Queremos desconstruir isso.»

Em plena crise provocada pela tempestade, o movimento resume o seu apelo em duas palavras: comunicar e cuidar. «Nós estamos disponíveis para ajudar — só precisamos saber onde estão as pessoas», conclui Beatriz.

Se conhece alguém surdo que precise de apoio ou se quer colaborar com o Movimento Surdo de Coimbra, entre em contacto:

E-mail: mscsurdoscoimbra@gmail.com

Jéssica Ferreira: 916 647 292

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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