Ao longo do seu percurso profissional, Manuela percebeu o impacto do esquecimento e da confusão mental na vida das pessoas que envelhecem. Observando o potencial da tipografia tradicional para estimular o cérebro, a designer de comunicação formada pela ARCA–EUAC Escola Universitária das Artes de Coimbra idealizou o Tipograficamente, projeto que combina composição manual e impressão artesanal para ajudar a retardar o declínio cognitivo em pessoas com mais de 50 anos, atualmente em fase de incubação e apoiado pelo Fator C’Idade.

No ambiente luminoso da Lufapo Hub, dentro da Chronospaper — uma oficina tradicional de encadernação manual, conservação e restauro de documentos gráficos —, Manuela trabalha em contacto com prensas antigas, tipos de chumbo e ferramentas manuais. Foi aí que nós a entrevistamos e onde o projeto encontrou provisoriamente o seu espaço para o arranque. A ligação primordial da Manuela com a tipografia iniciou-se em 2017, quando entrou numa tipografia centenária em Anadia e conheceu Carlos Nogueira, tipógrafo desde os 12 anos, que se tornou seu mestre e amigo. «Com ele aprendi uma técnica que não é só manual, mas uma forma de arte que põe o cérebro a funcionar de modo intenso. Observava-o e pensava: este homem nunca terá problemas de memória.»

Durante o isolamento da pandemia, Manuela aprofundou o estudo sobre neuróbica e neurociência, descobrindo que o exercício mental oferecido pela composição tipográfica manual — feita em espelho e de cabeça para baixo — trabalha memória, atenção, concentração e raciocínio. Nasceu assim o Tipograficamente, conjunto de oficinas criativas que conjuga expressão visual e estímulo cognitivo.

Essas oficinas propõem um reencontro com a manualidade e o foco. Cada participante compõe letras e textos, um exercício que excede a simples impressão digital — recoloca o cérebro numa posição ativa e presente, essenciais à preservação cognitiva. Para além disso, há a promoção da interação social e do sentimento de pertença e orgulho pelos produtos finais, que podem ser expostos em feiras locais ou comercializados.

Sozinha no desenvolvimento do projeto, Manuela enfrenta o desafio de reunir material tipográfico antigo para montar a oficina. Muitos equipamentos estão guardados em locais esquecidos, e ela lança um apelo: «Se alguém tiver tipos, prensas ou material tipográfico antigo e quiser ajudar, pode contactar geral@tipograficamente.pt»

O Tipograficamente está atualmente em fase de incubação, recebendo mentoria e apoio para ganhar tração e crescer. Com o suporte do programa Fator C’Idade, Manuela Rego acredita que o projeto tem potencial para ampliar suas sinergias artísticas e sociais, oferecendo uma nova forma de envelhecimento: ativa, criativa e focada no cuidado da memória. As próximas oficinas do projeto acontecem agora, na época do Natal, representando uma oportunidade para exercitar a mente através da arte tipográfica e envolver-se nesta iniciativa que alia tradição e saúde cognitiva.

Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care.
A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais próximos de si.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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