Empoleirada sobre o rio, a freguesia de Torres do Mondego equilibra-se à margem de Coimbra. Com território espraiado pelas duas margens do rio, esquerda e direita, ocupa o vale do Mondego acima da Ponte da Portela até raiar o concelho de Penacova. Esta é a periferia rural de Coimbra, às portas, mas longe da cidade, emoldurada pela paisagem e não por prédios.
O que separa esta freguesia da cidade não é o rio, é o seu território montanhoso. Era pelo rio que se comunicava com a cidade, por ele navegavam as barcas serranas e também as bateiras, barcos de fundo chato onde as lavadeiras destas aldeias colocavam as trouxas de roupa para as devolver lavadas às gentes de Coimbra. A freguesia é densamente coberta por floresta e é ciclicamente afectada por grandes incêndios, como os de 2005 e 2017, o anterior mais extenso na área afectada, mas este último de contornos trágicos bem conhecidos.

À margem do Mondego
Numa área com esta complexidade florestal, lançam-se várias medidas para estruturar e organizar o território, como Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), Aldeia Segura e Condomínio de Aldeia. A ZIF de Coimbra Este, a primeira criada em Coimbra, abarca várias freguesias da zona leste do concelho. O grande vector da entrada de incêndios em Coimbra é por este território, já que é o maior contínuo florestal com os municípios vizinhos.
Paulo Cardoso, presidente da junta de freguesia de Torres do Mondego, comenta: «Desde cedo, face à mancha florestal [da freguesia], decidimos tentar fazer algo para modificar a eucaliptização daquele espaço todo. Quando nos foi proposto o projecto da ZIF de Coimbra Este, aderimos de imediato, com o objectivo de, aos poucos, ir modificando esta paisagem arbórea. Costumo dizer, a brincar, que se os antigos tivessem investido em vinha, teríamos outro tipo de paisagem. Aquele vale é muito parecido com o Douro».

Zona de intervenção florestal
A ZIF é uma área delimitada contínua, sobretudo florestal, tutelada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e sujeita a um Plano de Gestão Florestal. Tem uma entidade gestora, nomeada pelos proprietários aderentes, que se reúnem em Assembleia Geral.
Raquel Vieira, engenheira da Natural Sustainability, entidade gestora das ZIF de Coimbra Este e também da ZIF de Coimbra Sul, clarifica: «A ZIF tem como objectivo fazer uma gestão integrada do território, para ultrapassarmos o problema do minifúndio. Agrupar os proprietários, valorizar aquilo que têm».
A ideia pretende criar zonas tampão para evitar a propagação dos incêndios e reduzir a densificação de eucaliptal. No início, os proprietários tinham receio que se apossassem dos seus terrenos; fizeram então várias acções e apresentações nas aldeias, andaram no porta-a-porta e, ainda que permaneça alguma desconfiança, o projecto amadureceu.

Criaram uma equipa de sapadores florestais, com veículo instalado em Ceira e de serviço à área da ZIF. Financiada por esta e pelo ICNF, às quais dedicam 110 dias de trabalho a cada, «fazem prevenção e primeira intervenção em pequenos fogos; apoio logístico e contenção em incêndios de maior dimensão, para este não progredir», explica Paulo Cardoso. Têm estado no terreno a fazer limpezas e, acrescenta Raquel Vieira, «fazem vigilância no Verão e silvicultura preventiva na Mata Nacional de Vale de Canas», que pertence na sua quase totalidade à freguesia de Torres do Mondego.
Aldeia Segura, Pessoas Seguras
No âmbito da defesa da floresta e das pessoas, Torres do Mondego foi a primeira freguesia a aplicar o Aldeia Segura Pessoas Seguras. Estes dois programas são tutelados pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e envolvem uma série de medidas de protecção e organização das populações como forma de combate passivo aos incêndios florestais. Assume-se ainda como um guia de comportamento e de acção perante a iminência desse risco, sobretudo em época estival.
São nomeados chefes de aldeia, pessoas a quem é reconhecido consenso social. Fernando Simões e Abílio, ambos da aldeia que espelha a sede de freguesia do lado de lá do Mondego, são o chefe de aldeia das Carvalhosas e o seu substituto, respectivamente. São originários de Torres do Mondego, mas encontraram o amor na margem esquerda.

O chefe de aldeia tem que saber onde estão as pessoas acamadas e com reduzida mobilidade, ter um ponto de referência para onde as encaminhar, ter conhecimento profundo do território para conduzir os bombeiros e têm ainda um rádio para estar em comunicação estreita com a ANEPC. O programa envolve também a definição de locais de refúgio, um abrigado e um ao ar livre.
Fernando lamenta que a sua intervenção esteja limitada, porque «não têm estatuto». Diz isto porque não «têm poder de chamar a atenção a quem seja», isto é, a madeireiros e proprietários desleixados. Paulo Cardoso refere a necessidade de se irem actualizando tanto o levantamento das pessoas com problemas de mobilidade, como dos locais de refúgio, porque as pessoas vão falecendo ou mudam-se e alguns dos locais referenciados situavam-se em associações que já fecharam.
Condomínio de Aldeia
Este é um projecto que beneficia cada aldeia, tutelado pela Direcção-Geral do Território (DGT). Raquel Vieira clarifica que o grande objectivo do Condomínio de Aldeia, «além de mudar a paisagem, é manter limpa e organizada [a área] à volta das aldeias, retirando o ônus da limpeza aos proprietários privados». Mantêm-se espécies autóctones, e outras de valor, a partir duma selecção feita pela equipa de sapadores.
Já tiveram uma primeira realização do Condomínio em Torres do Mondego e Carvalhosas, estando a segunda candidatura em fase de aprovação final, para a zona das aldeias de Palheiros, Zorro e Misarela, na freguesia de Torres do Mondego, através da ZIF como interlocutora. Existem outros três Condomínios aprovados, Cabouco, Lagoas e Vendas de Ceira, na freguesia de Ceira. Foi uma candidatura no âmbito do Fundo Ambiental, que será este ano pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Estas são as únicas freguesias que podem beneficiar, porque estão identificadas como territórios vulneráveis aos incêndios. «Quem fez a delimitação esqueceu-se de Eiras e São Paulo de Frades, Almalaguês também», comenta Raquel Vieira.
Os conceitos de ZIF, Aldeia Segura e Condomínio de Aldeia «são todos diferentes», acrescenta Raquel, «mas com um denominador comum, a floresta. Está tudo relacionado, tem tudo a ver com a gestão do território».
Críticas e considerações
Avança, entretanto, outro projecto, de erradicação de espécies invasoras. Há neste território, tão perto e tão longe da cidade, problemas estruturais que não se esgotam na difícil orografia. O abandono das terras, a saída dos mais jovens e o envelhecimento gradual dos que ficam.
Paulo Cardoso completa: «Embora sejamos um território de baixa densidade, como estamos perto de Coimbra, não somos considerados como tal. [Isto] tem cortado a possibilidade de acedermos a fundos comunitários. Somos considerados litoral, quando somos interior. A mancha da cidade está a abafar-nos. Fiz o pedido à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) para ver se há hipótese de nos desqualificar. Ainda não obtive resposta».

Para a expansão da ZIF, há também diversos obstáculos apontados pelos habitantes e responsáveis com quem falámos. Um deles é de terrenos de quem não se conhecem proprietários ou aos quais falta clarificação de herdeiros, nebulosidades que a criação do Balcão Único do Prédio (BUPi) tentou resolver, mas que ainda permanecem. Outra dificuldade identificada é a excessiva burocratização dos processos e a demora do ICNF em dar resposta aos pedidos.
Raquel Vieira resume-o assim: «No último anúncio a que a entidade gestora se candidatou, pediram-nos tanta documentação, relativas aos proprietários de zonas onde não temos cadastro, que a nossa vontade às vezes é dizer, eu vou desistir disto. Eu não vou conseguir arranjar esta documentação toda. É muito burocrático o processo. Devia haver uma centralização. A nível de candidaturas temos que falar com ICNF, PRR, Fundo Ambiental, etc. É uma enciclopédia. Para pareceres, são as câmaras, as juntas, são os proprietários, são muitas capelinhas. Falam num simplex, mas é o complex. Como tem a plataforma, facilita por um lado, mas obstaculiza por outro. Porque muitos dos nossos proprietários são pessoas de idade, são pessoas que não têm acesso.
Não obtivemos resposta em tempo útil por parte da CMC e do ICNF.

Aqui falta gente, muita gente. «Era preciso que a malta nova se agarrasse a isto», comenta Abílio. Domingos, habitante de Torres do Mondego, acrescenta: «As pessoas são já muito velhas e não podem andar aqui, outras andam desmotivadas». Fernando percorre ao redor com o olhar, braços recolhidos: «Tudo isto era agricultura, as pessoas começaram a ficar com muita idade, começaram a plantar eucaliptos. Estamos perto, mas estamos longe [de Coimbra]. Só se olha para dentro da cidade, não se olha para fora da cidade».
Os nossos agradecimentos ao Café Sofia, local onde foi realizada a entrevista a Paulo Cardoso, presidente da junta de freguesia de Torres do Mondego.
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