São quase 4 da tarde de uma terça-feira soalheira de Janeiro e a sala do rés-do-chão da Universidade do Tempo Livre (UTL)  vai ficando composta. Está prestes a começar a aula de História da Arte, a disciplina mais antiga da universidade da da Associação Nacional de Apoio ao Idoso (ANAI), em pleno coração da cidade de Coimbra. «Já estava saturada da escola e só dizia “quero aposentar-me para frequentar a aula de História da Arte”», confidencia Maria Odete Bernardino, que faz 30 quilómetros para chegar à UTL. Reformada desde 2013, acabou, no entanto, por ter de começar por outras histórias até integrar o grupo, porque a de Arte estava «muito completa».

Desde 2002, que a regência da disciplina está entregue a Pedro Ferrão, para quem o desafio, ao longo destes anos, está em «manter o interesse», uma vez que muitos deles já são seus alunos desde o início. «É, às vezes, como recomeçar», reconhece o professor que não deixa de destacar esta é uma relação em que «quem transmite também aprende muito», dadas as múltiplas experiências dos alunos.

 

É a necessidade de se manterem activos que move os alunos destas universidades seniores. Para Sónia Vinagre, presidente da direcção da ANAI, os factores que levam as pessoas a procurar a instituição prendem-se com o «facto de não quererem estar sozinhos em casa, de quererem continuar a instruir-se, a ter uma vida activa e um envelhecimento saudável». Muitos integram estas actividades logo que se aposentam. É o caso de Maria Graziela Bidarra, de 73 anos. «Mal deixei as minhas actividades quis logo vir: ocupar o tempo e aprender mais». Antiga professora do primeiro ciclo, frequenta a UTL desde 2004: «Estar parado não dá nada de bom».

Outros demoram mais tempo a aderir. João Silva, 74 anos, reformou-se já lá vão 14 e há cerca de sete ingressou na Aposénior porque, diz, cruzou-se com «alguns amigos indesejáveis», referindo-se ao sofá e à televisão. O tema das universidades seniores chegou-lhe de uma conversa com um amigo, numa altura em que não estava «muito conhecedor desse tipo de actividades».

No caminho das descobertas

O leque de oferta é diversificado nas duas instituições: da História de Arte às línguas, folclore e pintura, não esquecendo ainda a informática e, claro, as visitas no país e para fora. «A nossa universidade tem um nível cultural médio, alto. Por isso, é que as pessoas também são um bocadinho mais exigentes na oferta. Tentamos, na medida do possível, corresponder a esse anseio na diversidade das disciplinas e na frequência», explica Maria Francelina Dinis, aluna e também uma das coordenadoras da UTL.

A diversidade de oferta permite aos seniores alargar conhecimentos e descobrir novos pontos de interesse, muitas vezes, tão diferentes das suas áreas profissionais. Para Rosa Carvalhal, enfermeira de profissão e há 13 anos inscrita na Aposénior, «a música foi uma descoberta». «Não sabia que gostava tanto de aprender música. Não estou muito preocupada em ser uma boa executante. Não sou profissional, nem vou ser, mas a aprendizagem foi muito boa para mim», desabafa. 

As temáticas abordadas podem também ser desafiantes e Maria Francelina Dinis, antiga professora de físico-química, dá o exemplo das aulas de Conversas Filosofantes, às segundas-feiras na UTL, que assegura que «não é filosofia pura e dura que já não temos paciência para isso». Um dos últimos temas abordados foi a pornografia – «um tema um bocadinho arrojado», admite -, mas que, explica, foi olhado «sob vários ângulos» e, ao mesmo tempo, «tão bem tratada que saímos enriquecidas com o tema».

Os desafios que se colocam a estes seniores vão além do treino da mente. Na Aposénior nasceu única equipa da cidade de Walking Football. A modalidade tem a sua raíz em Inglaterra e a particularidade de ser proibido correr. «Começámos eu e mais dois e não sabíamos o que isto ia dar. Acho que deu certo», conta João Sá, 63 anos, antigo funcionário público, reformado há cerca de seis. Com a actividade parada por causa da pandemia, a equipa de Coimbra conta já com alguns troféus e a internacionalização do seu torneio, que teve a participação de uma equipa inglesa. «Agora somos dez. Estamos à espera que venham reforços», remata o capitão João Sá. 

«A entrada na reforma não é um mar de rosas»

João Silva começou na universidade sénior com aulas de informática e de inglês. No caso dos computadores, foi por acreditar que na actual sociedade de informação «quem não tiver os mais primórdios conhecimentos fica para trás», e nesta matéria, lança, «sentia-me uma pessoa da idade da pedra, um Flintstone». Já no inglês, a necessidade era prática: João Silva pratica pesca de competição e queria conversar com algumas pessoas nos campeonatos em que participava. O desafio superado: «Burro velho não aprende línguas, mas já me foi bastante útil em um campeonato do mundo em Montemor em que fiz parte da organização e comuniquei. Não digo com facilidade, mas comuniquei.» 

O sentimento de utilidade e de valorização é também alimentado pelas universidades seniores, que ganham um papel importante. João Sá recorda que na altura em que integrou a universidade «não sabia se estava preparado», mas admite que só quem não as frequenta é que «poderá ficar com a ideia que isto é uma casa para pessoas idosas, que vem para aqui para passar o tempo. Mas não». Os benefícios do trabalho destas instituições são maiores no bem-estar deste grupo de pessoas, nesta fase da vida. João Sá elogia esse esforço e considera que, este trabalho em rede, traz consequências para sociedade que se torna, na sua opinião, «mais limpa, mais viva, mais vida, mais feliz e menos doente. Isto é uma medicação», afirma.

Sílvia Gameiro, presidente da Aposénior, não esconde que muitos chegam à instituição em estados de depressão e «com a intervenção e o passar do tempo tornam-se completamente diferentes.

Sílvia Gameiro, presidente da Aposénior, não esconde que muitos chegam à instituição em estados de depressão e «com a intervenção e o passar do tempo tornam-se completamente diferentes. A entrada na reforma não é um mar de rosas e traz muitos desafios», conclui. Na transição da vida activa para a reforma, João Silva defende soluções para amenizar os efeitos. Argumenta que poderia existir, por exemplo, uma redução de dias de trabalho por semana, para permitir continuar a trabalhar, ou mesmo formações para ajudar as pessoas e «direccioná-las para os benefícios» da aposentação. «Somos nós próprios que temos de o fazer. Eu fiz à minha custa», desabafa. 

É neste sentido que João Sá defende que a paragem deve ser apenas no lado profissional, tendo um conselho: «cuidado, pára, mas não fiques parado». Ainda assim, João Silva nota uma evolução na forma como a sociedade trata os mais velhos. «Acho que já não olha tão de lado para os velhos como olhava antes. Isso é positivo, mas o mais positivo é que cada idoso não dê importância a isso», conclui o aluno da Aposénior.

Uma fábrica de momentos felizes

Os seniores que frequentam estas universidades destacam os laços que se criam e os amigos que fizeram durante a jornada. Maria Francelina Dinis destaca, por exemplo, as relações de amizade fortes que encontrou no grupo das aulas de Conversas Filosofantes. «Não conseguimos viver uns sem os outros», atira, considerando que a semana sem aquele dia não faria tanto sentido. João Silva fala mesmo da Aposénior como uma fábrica porque, diz, «produz momentos felizes».

As relações acabam por saltar para fora das instituições, como nota o professor da UTL Pedro Ferrão, destacando que as relações se vão fortificando, dentro e fora da aula, através de convívios que são organizados. Na Aposénior, um dos exemplo que nos dão das iniciativas extra-curriculares é do Clube do Piquenique, criado pelos próprios alunos. Nesta dinâmica, das universidades, a família é também um pilar fundamental. Rosa Carvalhal tem hoje a companhia do marido na Aposénior, mas nem sempre foi assim. Conta a enfermeira que quando tomou a decisão de se inscrever teve o apoio dos filhos – «eles gostam de ver os pais ocupados – mas o marido não estava interessado».« Aos poucos», prossegue, conseguiu levá-lo e hoje, «é uma maravilha para os dois», inclusive «como casal». «Os meus amigos daqui são amigos dele e ele gosta imenso de aqui andar. E eu estou muito mais feliz», explica Rosa Carvalhal.

Pandemia: «Nunca me fui abaixo psicologicamente»

A pandemia da covid-19 trouxe desafios para toda a sociedade e as universidades seniores não foram excepção. Tanto na UTL como na Aposénior foram canceladas as aulas mais práticas, como yoga ou hidroginástica, mas a palavra de ordem foi adaptação.

Com a orientação para encerrar as universidades seniores, a UTL, com 200 alunos, passou de «imediato para o online nas aulas em que era possível e isso, conta Sónia Vinagre, permitiu chegar a mais pessoas. «Conseguimos chegar a uma população não só do concelho de Coimbra. Tivemos um aluno de Anadia, um na Lousã», recorda. O mesmo se passou na Aposénior. Nada substitui o presencial, explica Sílvia Gameiro, no entanto, «permitiu colmatar a ausência e manter o contacto entre alunos». 

Passados dois anos, ainda assim, a instituição perdeu alunos, ao contrário da UTL que conseguiu manter o número estável. Na Aposénior são agora 190 os inscritos, mas no período pré pandemia Covid-19 eram 300. «Ainda assim, estamos satisfeitos porque as pessoas aderiram apesar de todos os receios», admite Sílvia Gameiro. Ao longo dos períodos de interrupção das aulas físicas, o online foi um desafio ganho, quer para escolas quer para os alunos, que souberam reinventar-se. «Por acaso até me espanto, adaptei-me muitíssimo bem às aulas online. Não esperava conseguir, mas consegui. Foi muito bom, conta Maria Graziela Bidarra.

As aulas online acabaram também por servir de escape em um período de mais isolamento social e familiar, permitindo, sublinha Rosa Carvalhal, «estar sempre ocupada. Não me fui abaixo psicologicamente», afirma. Passadas que estão as interrupções dos últimos dois anos, todos são unânimes em reconhecer os benefícios do regresso à sala de aula, por permitir o convívio e o retomar, ainda que cauteloso, de uma certa normalidade. «As pessoas estão ansiosas por voltar. Voltando, já terão a possibilidade de ir ao teatro, de fazer umas saídas», confessa Maria Francelina Dinis, referindo-se aos passeios organizados pela UTL, que agora, por receio, são apenas de um dia. «Ainda não temos a tranquilidade que necessitamos», acrescenta Maria Francelina Dinis, que, como coordenadora da UTL, promete uma agenda carregada para Fevereiro: «As pessoas vão dizer que até que é demais», brinca.

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