Num bairro de Amesterdão, na Holanda, a estratégia para a construção de um estádio e renovação de um centro comercial obsoleto de forma a começar a acolher grandes eventos como partidas desportivas e concertos com até 80 mil espectadores foi pensada de forma colectiva e com recurso ao geodesign. Era preciso encontrar soluções para gerir multidões, preservar a qualidade de vida dos bairros residenciais em volta e manter a boa actividade dos escritórios e moradores do estádio, afinal, estava em causa um motor do comércio, emprego e turismo local. Uma espécie de mistura entre o nosso Estádio Cidade de Coimbra e a Estação Coimbra B, futura Estação Intermodal de Coimbra, sendo que o Johan Cruijff Arena também fica junto à linha ferroviária da cidade holandesa.
O resultado foi um sucesso e foi fruto de um processo no qual os proprietários do estádio, comerciantes, moradores e restante comunidade esteve envolvida, negociando com as autoridades as suas ideias e desejos para o local, de forma mais simples dos que os métodos tradicionais de participação pública, com a ajuda de tecnologias de visualização 3D desenvolvidas desenvolvidas por uma plataforma online chamada Geodesignhub, integrada com outras ferramentas.

Geodesign participativo em Coimbra
O Estádio Johan Cruijff Arena é ilustrativo de como o geodesign aplicado à participação pública pode transformar um espaço ou área urbana, criando um espaço que reflete os valores, necessidades e aspirações da comunidade local.
Nuno Pinto, urbanista e professor no Departamento de Planeamento, Propriedade e Gestão Ambiental da Universidade de Manchester, propôs à Coimbra Coolectiva fazer o mesmo em Coimbra, com a ajuda de Hrishikesh Ballal, engenheiro mecânico com diplomas da Universidade de Michigan e do MIT, doutorado pelo Centro de Análise Espacial Avançada da University College London, e criador do Geodesignhub, uma plataforma online que implementa o processo de geodesign, permitindo que os actores da comunidade colaborem na resolução de problemas espaciais complexos. A experiência pioneira no país já tem data marcada, 6 de Abril, e vai ser sobre a discussão da nova Estação Intermodal de Coimbra e a renovação urbana da envolvente da mesma na Zona Norte da cidade.

«O Geodesignhub tem sido muito usado neste últimos sete anos, usámo-la em muitos muitos contextos, muitos locais, mas pouco em Portugal e não directamente com os cidadãos», disse-nos Ballal uma conversa por video-chamada. «Estou muito entusiasmado com esta oportunidade. Temos demostrado que é possível gerar consenso em sítios politicamente muito controversos e sinto que vai ser mais um caso de estudo para mim e uma forma de demonstrá-lo novamente.»
O investigador diz que um dos objectivos deve ser a procura por um equilíbrio entre o que Coimbra foi, o que Coimbra é e o progresso que Coimbra está a pedir. «A tensão fundamental que prevejo para o workshop [de 6 de Abril] é a questão: Para quem é Coimbra? De quem é Coimbra? É vossa? É minha, como turista? É dos idosos? É dos jovens? É dos empresários? Penso que esta questão vai surgir, de uma forma ou de outra, e idealmente vamos perceber para quem é este projecto» continua, acrescentando que estamos a viver uma nova Era do planeamento urbano e os desafios são evidentes em Portugal tendo em conta problemas como a grave crise da habitação.

Usando o método participativo baseado na metodologia do geodesign, a comunidade de Coimbra vai ser convidada a participar num processo de co-desenho da cidade, num processo colaborativo em que contribuirão, de forma simples e numa linguagem acessível a quem não tem qualquer formação na matéria, com propostas de intervenção no espaço e propostas de políticas públicas. Os desejos da comunidade para a zona norte de Coimbra podem assim ganhar forma num plano participado, com o compromisso de serem entregues a quem pode torná-los realidade – a equipa de planeamento da Câmara Municipal – e para que mais tarde não se possa argumentar que a comunidade não se pronunciou de forma estruturada e consequente.
O primeiro passo deste processo é um inquérito em que os cidadãos podem contribuir com diferentes intervenções no espaço ou políticas públicas com incidência na zona em estudo. O repositório de propostas é depois usado num workshop presencial de um dia (a 6 de Abril) facilitado pelos mentores e promovido pela Coimbra Coolectiva. Alterando a lógica da participação pública no contexto de planeamento português, que tem um carácter mais reactivo, o momento pretende ajudar a comunidade a fazer-se ouvir e ser ouvida nesta que é a janela no tempo para o fazer numa altura que a Câmara Municipal ainda elabora o plano de pormenor. Podemos todos participar e co-desenhar um plano para a zona Norte da cidade de forma colaborativa, negociada, combinando diferentes perspectivas e identificando diferentes necessidades da comunidade.
O que está em jogo
Como já explicámos, a zona Norte da cidade vai mudar. E se queremos que a comunidade tenha uma voz na definição desta reforma urbana numa zona tão crítica da cidade, tem de ser agora. A Estação de Coimbra A será desactivada, a Estação de Coimbra B modernizada e a Linha de Alta Velocidade vai passar por aqui. E o plano terá impactos noutros locais identitários para a cidade: a mata do Choupal e a frente de rio.
A maqueta do Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra (PPEIC) encomendado ao arquitecto Joan Busquets foi apresentada hoje numa sessão pública – e que fica em exposição aberta ao público nos Paços do Concelho – ajuda a perceber qual é a proposta que o conceituado arquitecto e professor da Harvard Graduate School of Design (EUA) tem para integrar a nova estação ferroviária de Coimbra em articulação e ligação ao resto da cidade.

Contámos recentemente que já há um plano complementar proposto por três cidadãos, desafiados para integrá-lo na experiência de geodesign participativo de 6 de Abril. A seguir a este momento de apresentação do programa do município, em conjunto com a Infraestruturas de Portugal e o atelier de Busquets, segue-se um período alargado para recolha de contribuições e expressão de preocupações da comunidade, que depois serão analisados pela equipa de elaboração do plano da autarquia e incorporados na versão final do mesmo se forem considerados de forma fundamentada como mais adequados.
Mais do que comentar baseado numa proposta ou numa maqueta, a comunidade terá uma oportunidade única de ter uma voz para fundamentar as suas aspirações para a cidade. A boa fundamentação destas soluções será fortemente potenciada pela natureza negociada e participada das mesmas neste processo de geodesign.
Segundo a Câmara Municipal, importa fechar o conteúdo do plano até ao Verão, reservando os últimos meses do ano para a formalização, discussão pública e aprovação final. A previsão é de que o concurso de concessão da Linha de Alta Velocidade seja lançado no início do Verão de 2024, integrando as linhas mestras do PPEIC que serão materializadas em projecto de execução durante o ano de 2025, com obra prevista para final de 2025 e 2028, de acordo com as declarações desta manhã do secretário de Estado das Infraestruturas, Frederico Francisco.
A comunidade coimbrã pode ter uma voz na renovação da zona tão importante para a identidade da cidade, que envolve um património identitário como o Choupal, a frente de rio e a Estação de Coimbra-B.
O inquérito será divulgado em breve, assim como os detalhes do workshop de 6 de Abril e como se pode participar.
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