Apaixonada, desde sempre, pela dança, o teatro e o canto, Inês cresceu convicta de que, de uma forma ou de outra, acabaria por construir uma vida no palco e de espetáculo. Mas, com o tempo, a criança deu lugar à adolescente, que se deixou convencer de que viver das artes não passava de um sonho irrealista, incapaz de lhe garantir a estrutura e estabilidade de que precisava para construir um futuro seguro. Então, desanimada, desistiu. E pôs a paixão em pausa. Decidiu estudar audiologia. E seguiu um “caminho-padrão”, com o qual se contentou, ainda que sem nunca se sentir verdadeiramente preenchida.
As voltas que a vida dá
Mas era sem contar com as voltas que a vida, impiedosa, por vezes dá. Jovem-adulta, Inês perdeu a mãe e, sem antes conseguir fazer o luto, tornou-se mãe. No mesmo ano, separou-se do companheiro, interrompeu o curso superior e viu-se retirar o filho, na sequência de uma agressão cometida por um terceiro a quem confiou de olhos fechados o seu “bem mais precioso” para ir trabalhar. “Esses dois anos”, confessa, “foram verdadeiramente um pesadelo… Sem dúvida o pior período da minha vida”.
Com a casa vazia – e de repente mergulhada naquele silêncio ensurdecedor que substituía o quotidiano de gargalhadas e brincadeira com o filho Arthur – deixou-se ir abaixo. “Eu sabia que tinha razões para isso, então permiti-me ir lá ao fundo: fazer coisas que numa altura normal não faria; dizer coisas que numa altura normal não diria; sentir – e chorar, muito”, recorda. Mas quando tudo parecia desabar, Inês sentiu-se puxar de volta até à única coisa que sempre lhe soubera dar força e paz: a dança. “À noite, como não conseguia dormir, punha os auscultadores nos ouvidos e deixava o corpo dançar. Todos os dias, imaginava que tinha um público enorme à minha frente e fazia os meus espetáculos, sozinha na sala”, conta. “No fim, sentia-me sempre melhor: mais confiante e com muito mais forças para lutar, contra quem quer que fosse, para conseguir o meu filho de volta”.
Nunca mais desistir
Na altura, Inês diz que precisou de ir buscar a “criança interior” que a adolescente, pressionada pelas circunstâncias, tinha conseguido desanimar. “Disse-lhe que já não tinha 15 anos e que, desta vez, não me deixaria desistir”, esclarece. Desta vez, lutaria por aquilo que queria e merecia ter. E essa promessa, fê-la a si própria, mas não só. Acima de tudo, fê-la ao filho – e a pensar na tia e nos primos, que sempre a apoiaram e seguraram. “Não queria que o Arthur crescesse com uma mãe resignada e frustrada, mas sim com o exemplo de alguém que, apesar do medo, das dificuldades e das incertezas, lutou e avançou”. Pouco depois, Inês dava por si a conquistar o palco – e a vitória em tribunal.
“Foi numa noite de drag queens, que decorria no atual bar In Club”, que tudo começou a melhorar. Se, inicialmente, a jovem entrava com o intuito de se oferecer para maquilhar artistas, bastou-lhe assistir a alguns espetáculos para perceber que era, na verdade, do outro lado que queria estar. Na festa seguinte, voltou transformada e, acolhida de braços abertos pela comunidade drag, atuou. Pela primeira vez em anos, sentiu-se exatamente onde deveria estar.
“Os ensaios e as atuações… Aquilo realizava-me de uma forma tão bonita que eu, em meses, consegui o Arthur de volta”, partilha. “Há pessoas que passam anos naquela luta incessante… Mas eu não. E o que me deu força para conseguir foi mesmo a dança”. Mais do que um simples espaço de expressão artística, Inês dava por si a reencontrar na dança a autoestima, a confiança e a força que julgava perdidas.
Metodologia CORDA
Não tarda, esta experiência pessoal acabaria por se transformar numa vontade de ajudar também ‘o outro’ a reencontrar-se consigo próprio. Assim nasceu o CORDA, projeto atualmente incubado no Fator C’Idade, com o qual Inês quer levar a dança a maiores de 65 anos que, tal como ela, se tenham deixado convencer de que nada de novo os conseguiria preencher. “O que eu quero é que eles percebam que, não é por eu ter 32 anos que sou mais capaz do que eles de aprender, praticar algo novo – e recomeçar, no geral”.
Mas Inês não quer limitar os alunos aos estilos tradicionalmente associados ao público sénior. Pelo contrário. Quer levá-los a experimentar hip-hop, afro, breakdance, samba, pagode e tantos outros universos que muitos consideram reservados aos mais novos. Quer organizar visitas de estudo e encontros de partilha entre gerações. Quer ajudá-los a compreender melhor os filhos, os netos e os bisnetos – e, acima de tudo, mostrar-lhes que o corpo continua capaz de aprender enquanto houver vontade de o fazer. O objetivo não é formar bailarinos. É devolver-lhes confiança e autoestima – e proporcionar-lhes socialização. “Há muitos idosos que passam os dias fechados em casa e que acabam por acreditar que já não conseguem fazer nada. Eu quero mostrar-lhes que não é verdade. Que conseguem. E que nunca é tarde demais para (re)começar”, diz.
No final de cada período, imagina um momento de autoavaliação em que cada participante possa refletir sobre a sua evolução física e emocional ao longo do tempo. É aquilo a que chama a “metologia CORDA”, um método de ensino orientado para a autoestima e a saúde mental. “Uma corda exige força para se manter esticada, equilíbrio para não cair e resistência para suportar peso”, explica. “Mas também une, cria laços e aproxima pessoas”. E é exatamente isso que Inês imagina: um espaço onde a dança sirva de pretexto para combater a solidão, estimular o corpo, criar relações, fortalecer a mente e devolver confiança a quem se deixou perdê-la pelo caminho.


Da ideia ao negócio
Em fevereiro deste ano, a ideia chegou, por sugestão de um amigo, pela primeira vez ao Fator C’Idade. Contudo, na altura, Inês admite que “não percebia praticamente nada de empreendedorismo”. Ingressou então convicta de que aquele não seria o seu lugar. “Olhava para o mundo dos negócios e via tecnologia, startups, ciência…”. Custava-lhe acreditar que um projeto artístico pudesse vir um dia a ser negócio sustentável. Mas, no primeiro encontro, percebeu que arte, impacto social e viabilidade económica não eram, afinal, assim tão incompatíveis. “Naquele dia, saí mesmo de lá a pensar: «é desta que o meu projeto vai mesmo para a frente»”. Até agora, diz ter encontrado no Fator C’Idade uma rede “espetacular” de contactos, apoio e conhecimento, sem a qual dificilmente se encontraria já a transformar a ambição num plano concreto de negócio.
Hoje, o CORDA continua em fase de incubação. Já foi validado junto do público-alvo e prepara agora os primeiros contactos com instituições – lares, associações e escolas de dança – onde a metodologia possa começar a ser implementada antes da abertura de um espaço próprio. Daqui a cinco anos, imagina o projeto sediado em Coimbra, com escola própria, mas já presente noutras cidades como Leiria, Aveiro, Viseu ou Guarda, através de professores formados na metodologia CORDA.
Para lá do CORDA
Até lá, a jovem prossegue com os espetáculos drag. “Cá em Coimbra, mas não só”, assegura. “Em julho, vou atuar na Mealhada. Em setembro, vou estar em Santa Maria da Feira. E agora, no dia 25 de junho, vou atuar em Coimbra, na Praça do Comércio”, partilha. “Tem mesmo sido uma aventura incrível”. Em paralelo, avança com outro projeto, desta vez de mentoria de maquilhagem para mães. “Porque são muitas as pessoas que se esquecem de que, para além de mães, são também mulheres”, explica. E Inês faz questão de lhes lembrar que, quando uma mãe se esquece na maternidade, não é só a sua qualidade de vida que impacta, mas também a do próprio filho. “É como quando viajamos de avião”, exemplifica. “Em caso de urgência, sempre nos dizem que devemos pôr a máscara de oxigénio em nós próprios antes de a colocar nos filhos. Porque se nós não conseguirmos respirar, não os conseguimos ajudar a eles. E é um pouco essa a mensagem por detrás de ambos os meus projetos”, conclui.
Há três anos, Inês voltava a dançar para conseguir recuperar o filho. Hoje continua a fazê-lo para que Arthur cresça a saber que nunca devemos desistir daquilo que nos faz felizes. Com o CORDA e o Make de Colo, espera agora ajudar os outros a perceber que também eles vão a tempo de se reencontrar e recomeçar.
Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.
