Coselhas deve o seu nome ao original galaico-português Caselhos ou Caselas, um diminutivo latino para casa, cabana, propriedade rural, pequena herdade. O primeiro registo desta localidade data de 967, onde se pode ler: “duas víneas in vale de coselias”

Miguel Esteves Cardoso escreveu um dia algo acerca do destino das localidades estar definido, à partida, pelo nome que carregam, não podem almejar ser mais do que aquilo que são, o seu nome condena-as. Jamais aspirarão grandes feitos ou desenvolvimento, o seu nome limita-as. Alcabideche nunca será capital de coisa nenhuma. Assim é Coselhas. Condenada na origem.

Decidi fazer um passeio sociocultural por um bairro, uma zona, uma área desta cidade, como lhe quiserem chamar, que não me apraz por aí além.

Mas fui desafiado por um bom amigo, família próxima, o Padrinho Chico, Francisco Monteiro. E foi a estima que lhe tenho e o desafio que me lançou, que me motivaram a enveredar por sinuosos caminhos e um dia bem passado, a percorrer toda Coselhas, tendo como fio condutor todas as tascas que por ali serviram o operário fabril, o campesinato, os serventes, enfim, a população trabalhadora de toda aquela região que, à altura, terceiro quartel do século XX e anos oitenta, pulsava, vibrava e vivia.

Iniciamos no sentido Poente – Nascente, desde a Rua Figueira da Foz, defronte à eternamente decadente Fábrica dos Curtumes, fundada em 1915, sob o nome Raposo, Amado & Godinho, Lda.

Aqui se localizava a Tasca Zé Martins, mesmo em frente à alfaiataria de Constantino Monteiro, onde hoje se encontra o terreno baldio, há anos com promessa de revitalização, como a tal fábrica e sua icónica chaminé. Até quando este tenebroso postal de chegada aos que nos visitam desde o Norte?

Após este primeiro brinde à primeira de treze tabernas que nos vão acompanhar neste esquisso histórico, seguimos Estrada de Coselhas avante e deparamo-nos com o ex-Osvaldo Toste, para os mais antigos, e que foi originalmente um armazém de vinhos. Ah, Coselhas, agora percebo-te!

Avistamos um pequeno edifício, anteriormente uma Fábrica de Bonecos, que eternizava a imaginação dos sub-11 da altura, caso não trabalhassem numa mina ou no campo. Aberta, ao momento da nossa passagem, mas não deu para averiguar o atual métier.

Seguimos, que a viagem é longa, a história é profusa e o tempo urge. Alcançamos a Fucoli, ex-libris de Coselhas, onde residiu em tempos a SIAC – fábrica de mosaicos e a Fapreco, produtora de pregos.

A Fucoli, acumulou as duas, e bem! Hoje é ela o exemplo máximo da perseverança, daquilo que aquela Estrada, que rasga o limite norte da pólis, simboliza enquanto depósito histórico do (de)crescimento da cidade.

Ali, junto à circular interna surgia a Tasca do Domingos Alfaiate que, pasme-se, era alfaiate, e serviria o operariado daquele pedaço fabril. Que era, nada mais nada menos, que o Pai do agora famosíssimo, João dos Leitões. Aliás, é em frente à dita tasca que o Sr. Domingos começa a assar os, agora, populares suínos.

Como já deu para entender, neste primeiro terço da caminhada, Coselhas latejava e palpitava, os milhares de pessoas que ali afluíam diariamente careciam de serviços, que amiúde iam surgindo, dando vazão às necessidades daquelas. Um barbeiro, um sapateiro. A rua, que se alonga, que nem sequer rua a deixam ser, desprovendo-a de integração urbana, afastando-a para o subúrbio e para a serventia da pólis, enquanto Estrada. A Estrada de Coselhas alonga-se, porta a porta um serviço, uma empresa, uma habitação familiar. Assim era aquela cidade entrincheirada.

Saltamos para o segundo troço da Estrada, hoje rasgada pela Circular interna, vulgo Descida do Hospital. É neste segundo tempo que, onde encontramos hoje a Farmácia de Celas – tão longe da sua origem – e apesar de ter sido explorada longamente pelo Sr. João, se localizava a que ficou conhecida pelo apodo dado a outro dono: Taberna do Cabeça de Cavalo porque, diz-me o meu cicerone, “o gajo era um cabeçudo do caralho”. Empreiteiro que servia copos, não fosse o Rego do Bonfim e partilharia parede com a Taberna da Maria Linda, agora Hernandez mexicano, que já habitou a primeira fração da Estrada, enquanto Azucar com Chocolate.

Uma outra fábrica de bonecos surgia ao lado. Defronte, na agora compreensível para si, caro leitor, Rua da Maria Linda (1866 – 1946) as antigas instalações da AVIC, a Flixbus do século XX. Era dali que saíam os autocarros da empresa vianense, em Coimbra. Inicialmente José Maria dos Santos e Companhia Lda. fundada em 1969. Hoje uma completa ruína, à espera da especulação imobiliária ou tão somente do apaziguamento familiar.

Prosseguimos o nosso caminho. O Padrinho Chico vai cumprimentando pessoas, movimenta-se nesta rua, como um barco à deriva, que deixa que a corrente lhe reja o destino. Assim é Coselhas para este bom homem. Cumprimenta pessoas, saúda vizinhos à janela e prosseguimos.

Mais duas tascas nos aguardam. Ou pelo menos a sombra do que já foram; a Tasca Gabriel, que ostenta ainda um degradado toldo patrocinado pela Sicasal e a Tasca Salazar, que não consta que fosse fascista.

Passamos pelo Souto, simpático e embutido restaurante, que ainda hoje preserva na tradição oral local o original nome de Zé da Índia e onde regressaríamos mais tarde para almoçar. Nuno Souto e D. Isa são os anfitriões.

Talvez tenham chegado com décadas de atraso para sentir o pulso daquela localidade, mas o restaurante enche, as pessoas entram e saem, as refeições fumegam em volta, rodando, saindo e voltando às mesas. Um cheirinho a antigamente.

Como cá voltaríamos dali a nada, detemo-nos uns breves instantes para mais um abandonado edifício que sustém ainda um letreiro que ainda lê: A. CORREIA NEVES & CA. LDA. A falta de fosforescência não lhe apaga o passado, enquanto fábrica têxtil especializada em roupa para criança. O seu filho ganharia nome na praça coimbrã enquanto advogado: Castanheira Neves.

Cortamos junto ao CrossFit Mondego – onde um dia estiveram as instalações da Barreiros & Vilas, concessionária Citroën, agora numa nova morada na mesma rua –, que é antecipado por uma Oficina de Reparação de Automóveis, antiga MF, também ela uma oficina automóvel e Reboques do Centro, ambas empresas que laboraram em simultâneo, lideradas por quem orgulhosamente me guia, e onde se estende ao sol um belo Ferrari vermelho. Quão paradoxal, um cavallino rampante em Coselhas! Numa oficina, em Coselhas.

A tasca que se segue, já na Estrada Vale de Figueiras, era pertença da família Monteiro. Por entre o casario daquela ladeira, muito vinho se verteu a apaziguar os corpos cansados.

Retomamos pelo caminho principal até à Taberna do Silva, conhecida como O Sargento. Hoje, já com sinais de antiga churrasqueira, O Pombo. De Sargento a Pombo vai uma enorme distância, da rua exangue, abandonada, decadente. Não dá sequer para sentir o estrépito de outrora, de tal forma perdida no tempo. Algo que, infelizmente, perdura em quase todo o comprido da Estrada de Coselhas.

Passamos pela sede do Sport Clube de Coselhas, albergue de bailes e bailaricos, de confraternização e amizade e duma boa porrada de final de dia, com os rivais do Grupo Recreativo Cruz de Cristo, sediados um pouco mais à frente na estrada e que, não raras vezes, movidos pela frustração de não angariarem para os seus eventos a mesma fauna que os seus rivais do Sport Clube, se lhes ingeriam nas festas que, invariavelmente, terminavam ao soquete.

O Sport era de elite, mais requintado, mais refinado; o Cruz era da ralé… — comenta, do alto da sua vivência, Francisco Monteiro.

Quanta vida numa só rua. Coselhas albergava dois clubes, imagine-se! A cidade inteira mal consegue, aos dias de hoje, manter um de pé…

No entremeio dos dois clubes, era ainda possível hidratar a garganta na Tasca do Finito e na Tasca do Ti Armindo. Também hoje casas menos que insalubres.

Junto à sede do Grupo Desportivo Cruz de Cristo, que todos avistamos quando por ali passamos na circular, havia uma pequena ponte. Sim, porque a Ribeira de Coselhas, não sendo o Mondego, já apresentou formas mais dignas e volume mais apresentável, enchendo aquela vala com apreciável água, onde os rapazolas de antanho se banhavam e, pasme-se, pescavam nos seus tempos livres.

Dessa ponte resta ainda um marco. Perene. 1891, comunica-nos aquele pedregoso paralelepípedo. Valente centenária Coselhas.

Era ainda ali, junto àquele clube, que se aperaltavam as festas e a época das fogueiras, nos Santos, no terreiro então ali existente e o saudoso Dr. Vitorino Seiça fazia, na ocasião, questão de abrir a capela da sua propriedade contígua para todos os locais dela usufruírem naqueles dias de celebração.

Um pouco mais acima, um armazém abandonado, de grandes portas férreas de correr. Comido pelo tempo ainda anuncia no seu porte relevância de outros tempos. Foi moinho, destilaria e lagar, tendo ainda parte reservada à criação de touros e vacas. Uma pequena indústria agropecuária bem no final da Estrada de Coselhas, ou no seu início, dependendo da perspetiva.

Dali era um saltinho à Tasca do Mário Carniceiro, assim apelidado por ser também ele detentor de talhos. Quiçá a proximidade com aquele armazém não fosse tão-só obra do acaso.

Há ainda a ressalvar, no final da linha, desta viagem, a Taberna do Aníbal e a Tasca do Eugénio da Corrente, onde terminamos e bebemos um gelado fino, neste dia de sol de setembro, desta vez no Café Central da Corrente.
Ter as antigas tascas como as migalhas de pão que nos guiaram no caminho da antiga Coselhas, para além do interesse lúdico, tem o valor histórico, como prova da vida, da vibrante pulsação, da transbordante azáfama.

Percorremos treze tascas, treze! Que nos mostraram o comércio, a indústria, os serviços e, finalmente, a alma daquela Estrada, daquela ponta de Coimbra, esquecida, abandonada, último fôlego de outrora, vai respirando, mas longe do fulgor que lhe enchia a alma.

À medida que escrevia, uma comparação se me atravessava como inevitável: Coselhas como metáfora da cidade. Coselhas é Coimbra. Coimbra é Coselhas.

P.S: A bom tempo, entre a escrita deste texto e a sua publicação, soam rumores de novos investimentos na Estrada de Coselhas, que lhe poderão emprestar novo comércio, novo emprego e nova vida. Que assim seja, que a metáfora se transforme e com ela a cidade.

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