O Convento São Francisco faz dez anos e há poucos exemplos de uma metáfora tão perfeita para designar a incúria, a incompetência, o desnorte e o amadorismo com que é tratada a coisa pública em Portugal.

Esta obra tem colada a si todos os traços da recorrente inépcia lusitana de tornar uma coisa boa, repleta de potencial, catalisadora de qualidade e crescimento, dinamizadora duma cidade e duma região, uma bandeira cultural, artística, lúdica e educativa, num buraco sem fundo, um elefante branco, arremessado para a sarjeta mais negligente do descuido público, bandeira da irresponsabilidade, espelho da desídia da provinciana e apática estrutura autárquica.

A seminal inaptidão surge no significativo desvio orçamental que fez uma obra orçada em 23 milhões de euros resvalar para a módica quantia de 42 milhões de euros. Isto não demonstra um erro de cálculo; isto não é um pormenor; isto revela tão somente a total inabilidade de quem assume estas obras.
Infelizmente, este viria a ser o prenúncio do que, ao final de dez anos, seria a vida deste complexo cultural. Um tenebroso prenúncio. Soubéramos nós ler.

O concerto de 16 de abril de 2016 a marcar a inauguração, no Grande Auditório, com Mão Morta a assegurar as festividades juntamente com Remix Ensemble, preconizava algo de novo, de fresco, parecia que uma pedrada no lodaçal tinha feito reverberar as águas e com ela, mesmo que timidamente, pudesse trazer uma chuva de pedras que limpasse por completo o inanimado esterco desta poça.

Ainda se assistiu a um extraordinário e impressionante Benjamin Clementine em junho desse mesmo ano, e que haveria de repetir em 2019. Parecia tudo encaminhado, seria difícil parar esta força reformadora da cultura e da música na cidade. O Convento parecia surgir como uma garrafa de oxigénio num corpo moribundo, à porta do último estertor, mas que teima não querer deixar este mundo.

Mas depois… bem, depois, aconteceu Coimbra.

A Coimbra saloia e provinciana: a arquiteta Isabel Worm ainda foi aquela que por mais tempo permaneceu no espaço, sendo a responsável pela assessoria artística e cultural entre dezembro de 2017 e março de 2022.

Depois começa todo o decadente desfile duma cidade entregue à presunção, à futilidade e à soberba. O mínimo decoro social é vilipendiado, amarrotado, desprezado, crucificado e, por último, queimado do alto da Fogueira das Vaidades.

O carrossel da indecência inicia-se em março de 2022 com a nomeação de Celeste Amaro, que sai após seis dias. Repito, seis dias, não dava sequer para Deus ter o seu dia de descanso. Ah, estavas tão bem na Vénus!

Depois, sentando-se, sem que tempo desse para que aquela fechasse o tampo, Francisco Paz, que esteve por lá 8 meses, pois era do conhecimento público, e tendo sido até pré-anunciado, que o mesmo se reformaria em Outubro daquele ano.

Ah, quanta genialidade, colocar para um cargo em que são necessárias dedicação, continuidade, estudo, procura, busca e negociação coerente com todos os agentes culturais, alguém à beira da reforma. Ah, o génio incompreendido de quem nos governa!

No final desse mesmo ano (2022), entra Paulo Pires, que sai logo em Fevereiro de 2023. Parece que a ejeção precoce atinge muita desta rapaziada! Alegou razões pessoais, mas que todos sabemos que de pessoal nada têm, tendo objetivamente dificuldades em assegurar uma programação com o seu cunho, na cidade da cultura, refém da tiazinha do Moinho Velho.

Entra depois Maria Carlos Pêgo, em Março de 2023. Com diversos casos de polémica muito mal resolvidos onde associações sem fins lucrativos se confundem com os interesses pessoais e toda uma amálgama de histórias e historietas, qual Tatonas da Temu.

Luís Rodrigues assume a programação a partir de 1 de julho de 2023, mas só vai até novembro, sendo demitido após uma queixa de assédio, franqueando portas para o regresso da Diretora da Cultura, Maria Carlos Pêgo.

Entretanto surge a pioneiríssima ideia de um concurso público, que só se arrastou por 11 meses, pois como todos sabemos é necessária sensata ponderação nestas coisas. Dando-se o anúncio da contratação de Mickael de Oliveira, no final de 2025.

Agora, alegando contenção de despesa, a vereadora com o pelouro da Cultura, Margarida Mendes Silva, anulou o concurso no passado mês de Março – indo servir o Convento e o seu orçamento como mecenas no combate à intempérie. Nunca a cultura esteve tão mal acompanhada.

Para todos festejarmos em unanimidade e a uma só voz os 10 anos deste marco cultural na cidade foi então anunciado o programa das festividades, também pelo génio criativo da excelsa Dra. Mendes Silva: a redução em dois terços do orçamento, no ano do seu decénio, para o pundonoroso valor de 183.000 €. Menos que um T0 em Coimbra, menos que três instalações sanitárias de que o Metro Mondego vai fazer dotar a sua linha.

Quando a cultura é tratada abaixo de uma latrina, não se espantem dela só sair excremento putrefacto.
Nestes dez anos o Convento São Francisco passou por três presidências de Câmara e oito programadores ou, melhor, futuros-ex-programadores, representativos de todos os espetros políticos, verdadeiramente todos, pois as mais esdrúxulas coligações compuseram o ramalhete total de todos os assentos autárquicos. Nenhum sai incólume, nem o mais recente, nem o mais antigo, nem o que lá está há meio ano, nem o que por lá esteve mandatos inteiros.

Todo este desavergonhado desaforo, infelizmente, demonstra o quão endémica é a situação; ela está na estrutura, está no esqueleto que serve de base à coisa pública, é um cancro dos ossos. E todos nós sabemos como, eventualmente, acabam os cancros.

A programação do Convento de São Francisco, dotado de 12 salas, das quais quatro com lotações acima dos 400 lugares, ainda uma Black Box, que entretanto também foi dando sumiço nas programações, e um total de capacidade, em simultâneo, para cerca de 5.000 pessoas, serve para eventos de doces conventuais, meia dúzia de sucedâneos da WebSummit, um festival de música eletrónica, uma mostra de BD e para trazer cá atores reformados brasileiros e os Araújos e Abrunhosas desta vida.

Para ter esta programação de Cine-Teatro, então a Casa da Cultura, o TAGV e o Conservatório bastavam.

Onde estão as óperas, os grandes bailados, os grandes músicos internacionais, as grandes peças com atores de renome, os grandes oradores, que movem multidões e enchem salas semelhantes em todo o país e em toda a Europa? Independentemente dos gostos, o importante é trazer cultura, entretenimento, movida e dinâmica à cidade.

O Convento São Francisco é uma obra ímpar de remodelação, liderada pelo arquiteto João Luís Carrilho da Graça, de um espaço antes abandonado e totalmente obsoleto para qualquer prática de qualquer fim e foi impressionantemente recuperado para caber e ser inserido na paisagem, tem as valências mais modernas do país para a sua dimensão, tem uma profundidade de palco capaz de trazer grandes musicais do West End, as mais importantes e cénicas óperas, tem um fosso de orquestra que lhe permite trazer cá os melhores executantes de música clássica, os mais belos bailados, as melhores companhias, tem a acústica que ombreia com os melhores cenários europeus, qualquer Yann Tiersen, qualquer Diana Krall, Jacob Collier, dEUS, Sufjan Stevens, Fat Freddy’s Drop, Cinematic Orchestra… Eu não sei! Mas não é a mim que me cabe sugerir, programar, saber, ver, auscultar o mercado, falar e negociar com agentes, fazer uma programação coerente, inteligente e com retorno.

Quando chegará o dia em que quem nos governa irá perceber que Coimbra consome, Coimbra quer consumir? Só não lhe deem gelados para comer com a testa, porque isso os conimbricenses não farão.

Até lá, até esse dia, deixemos os porcos chafurdar na lama, que pode ser que então, chafurdando sozinhos, se afoguem na própria merda.

O Convento de São Francisco faz 10 anos e é altura de dizer que o Rei vai nu.

O Rei vai nu!

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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