Passamos hora e meia no fim da tarde desta quarta-feira a ouvir Afonso Cruz – esse «vendaval literário», como lhe chamou Carlos Fiolhais, nascido na Figueira da Foz em 1971, autor de quase 50 livros, traduzidos em dezenas de países, muitas vezes premiado – esteve em Coimbra para falar de O Vício dos Livros II. Ilustrador, cineasta de animação por mais de uma década, músico e cervejeiro artesanal, Cruz falou de leitura como vício transformador.

Fomos ouvi-lo por dois motivos: dizer-lhe que no nosso primeiro encontro do Clube de Leitura Coolectiva, em janeiro, quando dezenas de participantes citaram os autores que os movem, o seu nome foi o mais mencionado entre portugueses; e ouvi-lo sobre o vício dos livros que baptiza a sua obra mais recente.

A sessão integrou o programa cultural da Estação Elevatória de Coimbra – Biblioteca Carlos Fiolhais, que recebe autores para falar sobre leitura, literatura e a experiência de ser leitor. Esta nova obra de Cruz percorre histórias e ideias que revelam a leitura como uma prática exigente, silenciosa e transformadora, em contraste com a pressa e o ruído do mundo atual. Os autores são recebidos pelo físico Carlos Fiolhais, que conduz a conversa e envolve os participantes numa troca informal.

Fiolhais abriu com vénia ao trabalho de Afonso, traçando o percurso de romances como A Carne de Deus a enciclopédias inventadas que o próprio físico admite ter confundido com fatos reais. Cruz corta pela raiz: «Sou escritor porque sou leitor. Leio muito mais do que escrevo. Encho o copo com leitura – quando transborda, é a escrita». Lê então excertos que mostram por que: «Livros são animais lentos que pedem colo, contemplação. Capas são pálpebras fechadas de olhos. Lá dentro está alguém.»

«Há arte que não pratiques?», pergunta Fiolhais. «Muitas. Não danço», ri Cruz. «Mário Quintana escreveu que escrevia porque não sabia dançar – sofro do mesmo mal». Conta ainda que estudou Belas Artes na ilha da Madeira «porque era o lugar mais longe da casa dos pais». Também trabalhou com cinema de animação e explicou como foi parar à publicidade através dos seus textos no blog Alerta Amarelo. Hoje escreve em tablet ou no seu telemóvel: «Na fila do supermercado, penso num diálogo e escrevo. No avião, idem. Não tenho computador – dois dedos bastam».

Foi por esta voz – a mais citada no nosso primeiro encontro do Clube de Leitura Coolectiva – que quisemos ouvi-lo sobre o vício dos livros. Convidámo-lo para uma sessão futura; ele sorriu. Ficamos esperançosos.

Numa Coimbra de diques à prova, hora e meia com Cruz é copo cheio que transborda ideias quando tudo parece afundar. Respiro literário que a cidade merece.

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Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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