São 70 anos exactos, celebrados a 2 de Maio, mas também 50 de carreira, 40 de casamento e 30 do Instituto Brincante, em São Paulo, que António Nóbrega fundou com a companheira de palco e de vida Rosane Almeida. Brincante é o modo como os artistas populares se autodenominam: ao fazerem um espetáculo dizem que vão brincar. O instituto é um espaço que nasceu com a intenção de unir o processo artístico ao pedagógico em torno da cultura popular brasileira como um espaço de conhecimento, assimilação e recriação das inúmeras manifestações artísticas do país. Lá, celebra-se a riqueza da cultura nacional e a importância da sua diversidade, proporcionando à comunidade outro modo de pensar as relações na sociedade contemporânea.

A convite das XVIII Jornadas de Cultura Popular do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC), António Nóbrega traz a Coimbra uma «antologia lúdica» sobre a sua trajectória artística. Conversámos com o autor de «Mestiço Florilégio» via Zoom, sentado no super verdejante quintal da sua casa em São Paulo, a propósito do espectáculo multidisciplinar que cruza música, dança, teatro, cinema e conversa com o público mas não só. Também sobre o sentido de conhecer e promover a cultura popular do seu país, que em tanto se cruza com a nossa, tanto que Nóbrega vai aproveitar a viagem e estudá-la cá. A conversa também passa pelo preconceito e pelas dores deste mundo que arrisca perder a heterogeneidade cultural que tanto o enriquece.
FQ: António, regressa a Coimbra com um espectáculo antológico, que é o que significa florilégio, o que é que tem preparado para nós?
AN: É um pouco um recital porque ele reúne as várias facetas do meu trabalho e de Rosane. Trabalhámos muito, participámos muito, criámos muitos espectáculos juntos e também cada um de nós tem a sua faixa pessoal. Quando recebi o convite para dar uma palestra nas Jornadas de Cultura Popular do GEFAC propus fazer também o espectáculo, «soltei verde para colher maduro» como se costuma dizer, eles toparam e aí eu comecei a pensar. Pensei especificamente para a viagem de um país de língua portuguesa. Sabe que Ariano Suassuna, que escreveu o «Auto da Compadecida» [1955], um dos escritores maiores do Brasil, nunca saiu do país mas dizia que se saísse ia a Portugal, por ser o único país do mundo com o bom senso de, além do Brasil, falar português. (risos)
Sair do Brasil para um espectáculo que nasceu há três meses e com condições muito austeras, porque não foi programado, tive de organizar uma coisa meio monástica. É uma espécie de uma viagem que fazemos pelas áreas de expressão que atravessámos. Tem um pouco do teatro, através de uma peça chamada «Brincante», tem o filme chamado «Brincante» [Walter Carvalho, 2014], tem um pouco da nossa dança, da minha música com violão, da dança de Rosane, de poesia. De uma forma muito simples – porque somos só nós os dois -, ele marca os meus 70 anos de vida e 50 anos de carreira, os 30 do Instituto Brincante de que tomamos conta (mais ela do que eu) e também fazemos 40 anos de casados, que é algo pré-histórico.
FQ: Qual é o segredo para a energia e vitalidade que transparece, é levar a vida a brincar?
AN: É um projecto de vida, tendo em conta estas minhas actividades. O meu dia é preenchido com prática de instrumentos – sou músico -, também práticas corporais – todos os dias das 6h às 8 horas estou na academia e pratico exercício. Doso a alimentação, doso o sono, porque tudo isto faz parte do meu desempenho. Como eu e Rosane somos artistas intérpretes e queremos viver 200 anos (risos) temos de ter estes cuidados.

FQ: Diz que pratica e sabemos que também desenvolvem uma intensa actividade ligada à pedagogia, através de cursos e oficinas. Estar sempre a aprender é o vosso motor?
AN: Sem dúvida. A curiosidade fortalece muito. Está cientificamente provado que quanto mais a gente exercita aqui as nossas miolâncias a gente tem mais capacidade de discernir as coisas e fica apto para enfrentar o mundo melhor. Até a maneira como estudo violino, como toco, é também uma forma não só de repetir aquilo mas de entender a minha ligação, por exemplo, com o corpo. Como é que eu tiro uma sonoridade diferente, que ainda não tirei, a partir do corpo. A gente vai esmiuçando isso e parece que isso tem um papel de ajudar a gente a não envelhecer envelhecendo.
FQ: Está habituado a grandes palcos, este desafio de dar um espectáculo mais intimista aqui em Coimbra, também é revitalizante?
AN: Acho que a responsabilidade torna-se um pouco maior porque em boa parte estarei só e Rosane também. São partes solos nossas e minhas também com ela, com o suporte do filme também a «conversar» com as cenas. Mas como também estou encarando este espectáculo dentro de um contexto de descontração, isso tira um pouco essa hiper responsabilidade que duas pessoas somente em palco provocariam. Ademais, eu tenho gosto também de às vezes aprofundar uma interpretação que, por estar sozinho com o meu violão, ganho interesse em dominar mais o instrumento e até interpretar melhor a música. Tem uma canção que eu chamo «O Poeta Fingidor», como o poema, que eu reinterpreto e aí tenho de ser o mais persuasivo no sentido de trazer as pessoas para que naquele momento fiquem tomadas por aquela canção. Normalmente somos cinco ou seis pessoas e que aqui está mais concentrada.

FQ: Fundaram o Instituto Brincante em 1992, em São Paulo, e uma das coisas que promovem é a jornada Fazer Pensar Brasil, com palestras, aulas-espetáculos e oficinas. É um caso de sucesso com uma relação forte com a comunidade, não é?
AN: O instituto foi crescendo e também atravessou a fase difícil da pandemia. Num país como o Brasil, especialmente agora, não há um olhar do mecenato ou do patrocínio em colaborar com instituições desta natureza. Mesmo sendo sem fins lucrativos. O Brincante não é uma fonte de recursos para a gente, a não ser quando a gente dá um curso. A gente não tem proveitos adicionais. O facto de, ao longo deste período, a gente ter conseguido reunir professores de pandeiro, de voz, de canto, palestrantes, dança, uma quantidade de eventos, isso faz com que a gente acredite que o Brincante prestou algum serviço no plano sócio-cultural, por menor que seja. Isso não deixa de ser um facto que a gente considera e que quer levar à frente.
Esta questão da cultura popular é um tema que, desde que comecei a conhecê-la, não me despreguei mais. Não por uma questão afectiva, embora acredite que haja também, mas por uma questão de encontrar neste universo uma plataforma, um território cultural, que poderia ser visto de uma maneira um pouco diferente de como é visto no Brasil. E de como também é visto, pelo que vejo, em Portugal. É um país de muita riqueza neste campo e a nossa se deve, em grande parte, a Portugal. Uma coisa que, neste instante, é pouco avaliada.
Normalmente no Brasil fala-se muito que o país é fruto etnicamente do mundo português, africano e indígena – os agora chamados povos originários. Então, comecei a estudar essa questão e aí me dei conta do seguinte: quando a gente fala da presença portuguesa na cultura brasileira a gente fala como um bloco e não percebe que já a partir de 1500 a sociedade portuguesa já era estratificada, tanto socialmente quanto culturalmente e economicamente. Tal como havia aristocracia, Igreja e a nascente burguesia mercantil, existia aqui o povo – sobretudo aquele povo do mundo agrário, analfabeto ou semi analfabeto, mas que tinha um conhecimento de heranças culturais muito antigas. Porque a Península Ibérica, especialmente Portugal, foi um espaço onde muitas culturas deixaram a sua marca, não é? Celtas, romanos, árabes.
Foi esse extracto social que veio se juntar com os africanos escravizados, com os índios, e veio criar isso que a gente chama Cultura Popular. Não foi a herança hegemónica da Igreja e da aristocracia. Foram os fandangueiros, os cantadores das desgarradas, os reseiros, os jareireiros, foi esse pessoal que veio trazer melodias, ritmos, formas de dançar que, junto ao património africano e indígena, gerou isso que eu chamo da corrente cultural popular. Então a cultura brasileira deve muito à cultura popular portuguesa.
FQ: Existe esta ideia de que os portugueses conhecem muito melhor o Brasil do que os brasileiros conhecem Portugal. É verdade?
AN: Concordo com você e digo mais: a gente não tem, por exemplo, livros que falem da presença cultural, no sentido mesmo de citar elementos, da cultura popular portuguesa. Por isso que antes de me preparar para estas apresentações o meu interesse era fazer uma viagem de pesquisa do Norte, porque foram sobretudo as pessoas do Norte de Portugal que vieram para o Brasil. É uma cultura muito rica, muito forte, e eu vou lá para conversar com alguns estudiosos da região, adquirir algumas obras, frequentar bibliotecas, quem sabe eu até escreva sobre essa presença cultural portuguesa no Brasil.
FQ: E voltando um pouco atrás, lembra-se de quando é que começou este seu interesse pela cultura popular? O que é que o despertou para isso?
AN: Tem um momento preciso, foi quando o escritor Ariano Suassuna, idealizador de um movimento chamado Movimento Armorial, no Nordeste. O conceito era o de fazer uma arte erudita brasileira a partir das referências populares, criar uma arte de palco a partir desse mundo cultural popular, porque ele achava que o Brasil estava a ser muito bombardeado pela cultura ocidental, sobretudo a norte-americana. Quando ele me fez o convite para integrar o Quinteto Armorial, eu tocando violino, a partir daí eu comecei a me interessar em saber o que eram essas raízes populares. Como eu morava no Nordeste, em Recife, uma cidade muito exuberante nessas manifestações, eu comecei a frequentar os sítios onde ensaiavam, onde treinavam, e de espectador terminei por ser integrante. Comecei a praticar, a vivenciar, e trazer aquilo para os meus espectáculos.
FQ: E Rosane, quando entra na história?
AN: A gente se casa em 1982 e em Janeiro de 1983 a gente vem para São Paulo. Ela foi fazer um curso em Recife e um certo dia se apresentou a um grupo popular, foi aí que nos conhecemos. Em breve deu noivado e depois casamento – na Igreja, coisa que hoje não faria – e ela começou a se interessar também por esse universo. Se para mim já era distante morando em Recife, para ela, que é de Curitiba, no sul do país, era muito mais difícil saber que ele sequer existia. Na classe média brasileira a nossa educação dá uma certa invisibilidade a esse universo. A gente não convive com ele.
FQ: Tal como em Portugal. Acha que era importante os universos popular e não popular encontrarem-se mais?
AN: Criam-se abismos muito fortes, muito separados, e às vezes fica difícil até a confraternização. Normalmente o relato de pessoas já mais idosas sobre o mundo cultural são relatos muito fantasiosos. Muito carregados de um certo religiosismo, por exemplo. Um universitário, uma pessoa intelectual, que estudou os mitos celtas a partir de documentos, não vai encontrar naquele cara, de uma forma realista, aquele relato que ele precisa. Ele vai ter de saber descodificar o que aquele cara quer dizer, mas esse cara daqui não vai conseguir descodificar o que o intelectual diz. O intelectual que se prepare se quiser porque pode descer da tribuna e tentar compreender o mais simples. O mais simples não tem esse instrumental intelectual para entender. Cria-se um abismo aí. Cria-se uma relação que não é uma relação fluída. Como vencer isso, não é?
E ainda digo isto: quando o intelectual se propõe. Porque muitas vezes ele o considera um conhecimento morto e folclórico. A gente precisa quebrar essas barreiras para que a cultura ocidental se fortaleça. Não é para criar duas vertentes: a Ocidental e a Europeia. Nem gosto muito de usar o termo Cultura Popular porque, pelo menos no Brasil, eu acho que elas se deveriam se fundir, porque elas são vivas.
Em Portugal aconteceu uma coisa que não foi muito legal, no meu entender, que foi a criação dos ranchos folclóricos. Porque ele terminou esteticizando, padronizando, floclorizando. Na origem as pessoas faziam aquelas danças não era para se apresentar não, era para comemorar, num momento de festa. Isso também afasta o que é a compreensão do que é popular. O rancho na verdade é um grupo reprodutor de uma possível tradição.

FQ: A dança e música popular está muitas vezes ligada a uma certa alegria e força anímica, apesar das adversidades. O António considera-se uma pessoa feliz?
AN: Eu me considero muito bem recompensada pela vida. Moro numa casa com um quintal desse tamanho, tem árvores frutíferas, me dou bem com minha mulher, tanto que estamos juntos há 40 anos, tenho dois filhos, sou bem sucedido na arte – não sou famoso, popular, mas sou respeitado o que é bastante bom – mas, ao mesmo tempo, isso não tira um certo quebranto que existe em mim em relação ao nosso destino civilizacional. Não diria que seja o nosso destino humano mas a gente enveredou por um caminho civilizacional, que foi esse que o Ocidente implantou no mundo – porque a gente vive num mundo de feição ocidental, de feição androcêntrica, ou seja, o homem parece ser o centro do mundo e se a gente criou coisas muito boas, como fruto desse macho conquistador, opressor, a gente conquistou coisas através da tecnologia e foi botando um monte de coisas debaixo do tapete, foi acumulando e o vento parece que fez apodrecer o tapete e as coisas que estavam por baixo estão começando a aparecer.
Isso pode dificultar muito o que a gente chama de existência humana, porque se falou em alguns momento na possibilidade de bombas atómicas serem jogadas, não é? E quem me disse que essa questão na Ucrânia não é apenas o prelúdio de outras maiores? O problema é que o homem, o espírito masculino encrostado na civilização, não deixa de ter vontade de conquistar, possuir e dominar. Como é que a gente vai vencer essa corrente. Porque se a gente dissesse que o Putin é um bandido, mas tem vários bandidos, não é só ele, tem vários do outro lado que também estão defendendo o seu território. Ninguém quer ceder, esse espírito está faltando, e aí como é que a gente vai vencer? Como é que a gente vai vencer essas figuras que enriquecem, já são trilionárias e começam com essas ideias mais estapafúrdicas de onde jogar o seu dinheiro tendo tanta gente passando fome, sem saúde.
É um negócio muito difícil a gente alojar na nossa cabeça tanta contradição. Não posso me considerar uma pessoa mesmo feliz. Sinto coisas da felicidade mas tenho também as minhas lutas e nada pior do que essa ameaça do homem contra o homem. Isso é que é uma coisa terrível. E nós estamos vivendo um momento que é muito emblemático com o presidente do Brasil. Não poderia ser pior. Nunca nós pensaríamos que houvesse a possibilidade de o Brasil ser tomado por uma pessoa dessa natureza. Nem sequer podia imaginar que sequer existisse uma pessoa tão destruidora, tão bruta, quanto essa que nós temos aí.
O Brasil é um país muito doido. A gente vai ter o Rock in Rio. Os nomes são Guns & Roses, Justin Bieber, são quatro ou cinco que aparecem nos noticiários como mais importantes. O ingresso de sete dias, já foi tudo vendido. O preço para passar um dia é metade de um salário mínimo no Brasil. É um negócio inacreditável. Temos o Lollapalooza Brasil também lotado e 70 ou 80% das atrações são de grupo anglófonos, americanos ou ingleses. Não vem grupo português, não vem grupo francês. É um negócio danado.
FQ: Mas o António vem às Jornadas de Cultura Popular, em Coimbra. Será que quem vai ao Rock in Rio retém o que ouve lá ou são temas que daqui a uns anos já ninguém se lembra, ao contrário do que possivelmente acontece em eventos menos massificados?
AN: Em parte tem razão mas normalmente quem vai para esses espectáculos é um pessoal mais jovem que vai com a sua turma. Cria-se uma rede de afectos que às vezes a música não tem uma importância tão grande quanto a de estarem juntos e ligados com aquela sonoridade. Esse lado afectivo é muito sério. O bom seria se num Rock in Rio se apresentasse um grupo de percussão brasileira que tocasse tambores de maracatu ou uma grande sambista, por aí.
FQ: Ou seja, uma curadoria diferente?
AN: É, mas a curadoria ali é aquela porque sabem que vão ganhar dinheiro. Mas o sucesso aí nas Jornadas vai ser tão grande que vai mudar tudo isso! (risos).
FQ: Qual é a importância da formação de públicos, o que é que se devia estar a fazer, a levar os mais novos a espectáculos de cultura popular?
AN: O ideal era que não houvesse essa coisa binária e que a gente tivesse aqui uma cultura que se chamasse brasileira, que se cultivasse, e que tivesse também o que não é brasileiro, da China, do Japão. Quando cheguei a São Paulo ia muito assistir circo com Rosane. Havia circo francês, russo, acabou tudo isso Filipa. Acabou. Tudo ficou norte-americanizado e só vê as coisas do padrão norte-americano. Então a gente tem uma cultura muito massificada e uma outra no zero. Quando a gente devia mostrar o fado! Mostrar como é um violino tocado na China, mostrar o que é o jazz, e mostrar música brasileira. É esse o mundo em que a gente está vivendo e como é que faz para mudar eu não sei.
FQ: O António actua no Domingo em Coimbra, a cidade que tem uma Sala Brincante em sua homenagem, no espaço da Cena Lusófona, no Pátio da Inquisição. Qual é a sensação?
AN: A sensação é muito melhor do que se apresentar no Rock in Rio!
Podem assistir a «Mestiço Florilégio» no Teatro da Cerca de São Bernardo dia 8 de Maio, às 16h. Na véspera, dia 7 de Maio, pelas 15h, Rosane Almeida dirige uma oficina de danças tradicionais brasileiras, também integrada nas Jornadas de Cultura Popular. No dia 6, pelas 18h, António Nóbrega também participa na conversa «Ritos e Gentes» com Paula Godinho e João Leal, no Liquidâmbar.
Um dos principais eventos do GEFAC desde 1979, as jornadas proporcionam à cidade de Coimbra múltiplos momentos de reflexão sobre a cultura popular, através de diversas actividades. O propósito da organização tem sido também promover o encontro dos cidadãos não só com a sua própria cultura, mas também com a cultura de outros povos – por aproximação e comparação, para conhecimento e divulgação.
