Durante o Estado Novo, estudantes desceram da Praça da República a Coimbra B a cantar o tema «Cantar de Emigração» (1970) para se despedirem de companheiros que partiam para a guerra colonial. A canção contém um poema da galega Rosalía de Castro, música de José Niza e foi interpretada por Adriano Correia de Oliveira, acompanhado por Rui Pato na viola e Tiago Velez na flauta, e uma das propostas da Anozero este ano é fazer com que ela volte a soar em Coimbra B, meio século depois.

A Bienal de Coimbra regressa de 6 de abril a 30 de Junho e coincide com as comemorações dos 50 anos da Revolução de Abril, mas também celebra os 100 anos do Manifesto Surrealista. A organização apresentou a programação em conferência de imprensa na passada quinta-feira e está previsto que mais de 40 artistas evoquem o tema «O Fantasma da Liberdade» em oito espaços da cidade, desde o principal, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, até ao Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC – Sede e Sereia), a Sala da Cidade (Câmara Municipal de Coimbra), o Jardim Botânico, o Colégio das Artes e o Pátio das Escolas (Universidade de Coimbra), com a intervenção também na Estação de Coimbra-B

Ángel Calvo Ulloa, Carlos Antunes, José Manuel Silva e Marta Mestre

As escolhas dos curadores Marta Mestre e Ángel Calvo Ulloa refletem «as formulações de vários artistas» em reação a um mundo que sentem em «turbulenta transformação». Esta edição da Bienal «propõe-se explorar o imaginário da liberdade e as estratégias oferecidas pela arte contemporânea para o disputar, deslocar e habitar». 

Como «para uma Bienal é muito importante, além dos nomes presentes, produzir trabalho», nas palavras de Ulloa, entre as obras propostas pelo Anozero há dez momentos especificamente concebidos para esta edição: Yonamine assina duas intervenções, uma no Pátio das Escolas e outra no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em diálogo com a Coleção do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra; Patricia Gómez e María Jesús González, Priscila Fernandes, Daniel Barroca, Filipe Feijão, João Marçal e Susanne S. D. Themlitz apresentam criações também para o Mosteiro; Jeremy Deller intervém no Jardim Botânico; Pedro G. Romero ocupa o espaço do CAPC no Jardim da Sereia; o coletivo NEG (Nova Escultura Galega) marca presença no Colégio das Artes.

A questão colocada pela curadoria é: «Se o alimento da liberdade (e da arte) é a sua própria incerteza evanescente, que significa a criação de uma realidade caracterizada pela impossibilidade da sua realização?» O nome «Fantasma da Liberdade» vem do filme homónimo de Luís Buñuel, precisamente de 1974, e, segundo a organização, «induz à ideia de que a liberdade é um fantasma, uma espécie de presença inescapável e espectral» e, por outro lado, «aponta para um processo incompleto, a descrença numa verdade que se julgava assegurada. Vinca mais uma promessa do que uma existência real».

Questionada pela Coimbra Coolectiva, a organização disse que não está prevista qualquer acção de reforço do acesso à Bienal, nomeadamente através de autocarros designados para o efeito, mas em linha com todas as outras bienais e iniciativas semelhantes por todo o mundo garante reforçar o Programa Educativo. Jorge Cabrera, coordenador do Programa Educativo do CAPC e da Bienal, assegura que vão «trazer o Educativo com muita força para esta Bienal, no sentido em que esta bienal não se converta só numa mostra de materialidades e imaterialidades, mas trazer com muita força esta questão da formação, do diálogo e da convocação, do encontro entre diversidades de sabedoria, conhecimento de diferentes grupos, etc.»

Permanência no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

Questionados sobre a recente notícia da desistência do primeiro interessado em converter o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova num hotel de luxo, como já contámos por aqui, o presidente da Câmara Municipal, José Manuel Silva, disse que aguarda que o júri do programa Revive se pronuncie sobre a «consistência» da proposta do segundo candidato agora na corrida, mas garante não conhecer o plano do possível concessionário.

O CAPC, que organiza a Anozero com a Universidade de Coimbra, mantém a defesa da conservação do edifício, ou uma determinada área, para a Bienal. O director do CAPC, Carlos Antunes, revelou-nos que corre entre artistas internacionais um abaixo assinado de apoio à manutenção da Bienal de Coimbra no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. «Dois artistas da Bienal de São Paulo, um mexicano e um brasileiro, começaram a pensar num manifesto de apoio à Bienal de Coimbra. Por várias razões, focando o quão singular é uma Bienal neste sítio, o quão importante é uma Bienal ter um lugar matricial como em São Paulo, Veneza e todas as grandes bienais, e Coimbra tinha encontrado isso de forma bastante natural e absolutamente singular no mundo – e essa relação não se devia perder. Para mais, consideravam que a Bienal de Coimbra é uma plataforma singular para os artistas sul-americanos na entrada na Europa.»

Lista de artistas na Anozero 2024, por espaços:

(em itálico aqueles com obras comissionadas para a presente edição da Bienal)

Mosteiro de Santa Clara-a-Nova
Adam Pendleton (Estados Unidos)
Aline Motta + Ricardo Aleixo (Brasil)
Andrea Büttner (Alemanha)
Bárbara Fonte (Portugal) 
Berio Molina (Espanha)
Carla Filipe (Portugal) 
Castiel Vitorino Brasileiro (Brasil)
Daniel Barroca (Portugal) 
Davi Pontes e Wallace Ferreira (Brasil)
Diego Bianchi (Argentina) 
Filipe Feijão (Portugal/França)
Ilídio Candja Candja (Moçambique) 
João Marçal (Portugal)
Luís Cília (Portugal) 
Mauro Cerqueira (Portugal) 
Patricia Gómez e María Jesús González (Espanha)
Priscila Fernandes (Portugal)
Robert Filliou (França)
Rosemarie Trockel (Alemanha)
Sandra Poulson (Portugal)
Susanne S. D. Themlitz (Portugal/Alemanha)
Teresa Lanceta (Espanha) 
Yinka Esi Graves (Inglaterra)
Yonamine + Coleção do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (Angola)

CAPC Sede
Bárbara Fonte Portugal)
Cildo Meireles (Brasil)
Clara Menéres (Portugal) 
Coleção do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra
Maria Velho da Costa (Portugal)
Paula Siebra (Brasil) 
Paulo Nazareth (Brasil)
Regina Silveira (Brasil)
Túlia Saldanha (Portugal)
Robert Filliou (França) 

CAPC Sereia
Pedro G. Romero (Espanha)

Coimbra B
Adriano Correia de Oliveira + Rosalía de Castro (Portugal/Espanha) 

Jardim Botânico 
Jeremy Deller (Inglaterra)

Sala da Cidade

Teresa Lanceta (Espanha) 

Pátio das Escolas
Yonamine (Angola)

Colégio das Artes
NEG (Nova Escultura Galega) (Espanha) 

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