O Anozero – Bienal de Coimbra regressa com uma proposta que, à primeira vista, parece feita de simplicidade: segurar, dar, receber. Mas é precisamente dessa aparente quietude que a edição de 2026 parte para olhar de frente para as feridas do mundo, num programa que atravessa o Mosteiro de Santa Clara?a?Nova e vários outros espaços da cidade, até 5 de julho.

Curada por Hans Ibelings e John Zeppetelli, com curadoria assistente de Daniel Madeira, o Anozero’26 desenvolve?se à volta de um tema extraído da raiz proto?indo?europeia ghabh, que significa «segurar, dar, receber» e que também deu origem a palavras como habitat e habitação. Mais do que uma fórmula retórica sobre partilha, a bienal propõe?se pensar a exposição como um lugar de relação, interdependência e hospitalidade, onde arte e arquitetura dialogam com a ideia de mundo partilhado — e desigual — que habitamos.

Hans Ibelings, com longa trajetória em exposições de arquitetura e autoria de livros como Modern Architecture: A Planetary Warming History (2023), articula com Zeppetelli, diretor?curatorial da Art Gallery of Ontario e ex?diretor do Musée d’art contemporain de Montréal, uma leitura que não escapa às tensões políticas do presente. A ideia de «segurar, dar, receber» é, aqui, menos um slogan afável e mais um convite a revisitar como a generosidade, a ajuda mútua, a simbiose e a hospitalidade se tornam táticas de resistência em contextos de desigualdade, violência e deslocamento.

Carlos Antunes, diretor do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, reconhece que o tema poderia, em aparência, «descambar para uma coisa de peace and love». Mas, segundo ele, a curadoria faz o contrário: usa essa ideia calma como pretexto para encarar «o que está mal, para as feridas do mundo, para os lamentos». O Anozero’26, por outro lado, não se deixa ilustrar fácil — não se contenta em mostrar objetos, mas quer mostrar modos de partilha, de cuidado e de tensão entre quem dá e quem recebe.

Entre os participantes, figuram nomes como a francesa Chantal Akerman, a indiana Shilpa Gupta, o brasileiro Jonathas de Andrade e o português Pedro Vaz, num elenco de cerca de 60 artistas e coletivos que se desdobram ao longo de vários espaços. O Mosteiro de Santa Clara?a?Nova continua a funcionar como lugar central, acompanhado pelo Círculo Sede, Círculo Sereia, Sala da Cidade, Edifício Chiado, Jardim Botânico e o MUSEU, convertendo o percurso pela cidade num mapa de relações visíveis e invisíveis.

A abertura oficial, a 11 e 12 de abril, joga esse mesmo jogo entre solene e comunitário. No sábado, às 15h, na Igreja de Santa Cruz, a performance Libertas – Da condição de pessoa livre, de Vasco Araújo, propõe uma marcha coral baseada em Va, pensiero, de Verdi, que convoca os presentes para um gesto coletivo sobre liberdade e poder.

Às 17h, o Mosteiro de Santa Clara?a?Nova acolhe a abertura oficial. À noite, o programa prolonga?se com um jantar comunitário, às 19h30, encerrando com o concerto da banda Sereias e depois uma after?party com DJ, numa articulação clara entre a arte e a sociabilidade urbana. Já no domingo, 12 de abril, as visitas guiadas e conversas com curadores marcam o segundo dia do ciclo inaugural: John Zeppetelli e Daniel Madeira conduzem percursos entre o Círculo Sede, Círculo Sereia e a Sala da Cidade, enquanto, no Mosteiro, há o lançamento do livro Proto Vernacular, de Pezo von Ellrichshausen, reforçando o diálogo entre exposição, arquitetura e pensamento teórico.

Um dos momentos mais intensos da programação inicial é a visita ao Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra, coordenada pelo coletivo Centrala e por Hans Ibelings. As três instalações do Centrala — na cisterna, na casa sem telhado e numa das torres militares — exploram a experiência do céu noturno, tecendo uma ligação entre o cosmos, o edifício e a memória do lugar. É como se a bienal, ao mesmo tempo que se aprofunda em relações humanas, levantasse o olhar para uma dimensão cósmica da exposição, ampliando ainda mais a ideia de «segurar, dar, receber» para lá do terrestre.

O Anozero – Bienal de Coimbra, iniciativa do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, da Câmara Municipal de Coimbra e da Universidade de Coimbra desde 2015, mantém assim a sua vocação de articular arte contemporânea com património e território. A edição de 2026, com um orçamento de 750 mil euros, mostra um reforço na escala, apesar de uma redução de 15 mil euros no apoio da Câmara relativamente a 2024.

É neste contexto que a frase do poeta martinicano Aimé Césaire ganha especial relevo: «Cultura é tudo aquilo que o homem criou para tornar a vida vivível e a morte defrontável». Se a arte contemporânea continua a ser um dos poucos espaços capazes de articular dor, memória e desejo num mesmo movimento, a Bienal Anozero’26 afirma?se como um território de liberdade em que vale a pena viver cada oportunidade.

Mais informação em  www.anozero26bienaldecoimbra.pt

LISTA DE PARTICIPANTES

Chantal Akerman
Christian Andersson
Jonathas de Andrade
Vasco Araújoarquivo mangue
Lina Bo Bardi
Taysir Batniji
Frédéric Bruly Bouabré
Arno Brandlhuber e Constanze Haas
Inês Brites
Adam Broomberg e Rafael Gonzalez
Alberto Carneiro
Centrala
Rui Chafes e Candura
Julian Charrière
Sandro Chia
Colectivo SEM-FIM
Luisa Cunha
Eva Davidova
Thomas Demand
Forensic Architecture
Arturo Franco
Nan Goldin
Shilpa Gupta
Inside Outside
Kosmos
Juha Lilja
Mário Macilau
Fina Miralles
Adriana Molder
Office of Adrian Phiffer
Pezo von Ellrichshausen
João Salema
Taryn Simon
Charles Stankievech
Mungo Thomson
Maria Trabulo
Pedro Vaz
Carlos Ferrand Zavala
Anarchism and Planning
Three rooms
Xenia — aNC, Atelier Local, Ateliermob, Colectivo Warehouse, Fala, fr-ia, JQTS, Nuno Valentim, Paula Santos, Pedra Líquida.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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