Cinco anos de um espaço que nasceu com a convicção de que Coimbra merecia um lugar só para o cinema, e que desde o primeiro dia tem procurado cumprir essa promessa com persistência, ambição e uma programação que tem dado à cidade aquilo que durante anos lhe faltou. Depois de toda a celeuma em torno da Casa do Cinema de Coimbra – um projeto que a Coimbra Coolectiva tem acompanhado em muitos momentos, nascido da teimosia de três associações, Caminhos do Cinema Português, Fila K Cineclube e Centro de Estudos Cinematográficos da AAC, para devolver à cidade um cinema de proximidade e alternativo –, fomos ouvir Tiago Santos, coordenador do projecto, para perceber o que realmente está em causa para lá do ruído. A conversa acontece no exacto dia em que a Casa celebra cinco anos de existência, com uma semana de programação que, por si só, ajuda a explicar o que este espaço representa para Coimbra: cinema português em destaque, clássicos revisitados, estreias nacionais, ante-estreias, conversas com realizadores e obras que dificilmente encontram outro palco na cidade.

A controvérsia ganhou força em abril, quando Tiago Santos alertou para a situação do recinto e para as consequências de a resolução das obras continuar a arrastar-se. Em causa está o Documento de Identificação de Recinto, atribuído pela Inspeção-Geral das Atividades Culturais e que é condição essencial para o funcionamento legal do espaço. A Câmara Municipal de Coimbra já esclareceu que aprovou o projeto de execução, orçamentado em 500 mil euros, para intervir em pontos como portas, bilheteira, acessibilidade para mobilidade reduzida, tratamento ignífugo e instalações técnicas, mas sem data para abertura de concurso público, à espera de reunião com a IGAC. Já foram feitas algumas intervenções provisórias, como cortinas ignífugas e luminárias de emergência, embora parte das anomalias identificadas dependa também do condomínio do centro comercial. A vereadora da Cultura, Margarida Mendes Silva, foi contactada pela Coimbra Coolectiva para prestar uma perspetiva oficial, mas não respondeu até ao momento.

Um efeito cascata que ameaça todo o projeto

Tiago Santos insiste que a situação atual não surgiu de repente. Tudo começou com a vistoria da IGAC logo após a Câmara comprar as salas em 2022, numa fase em que foi emitido um documento provisório por um ano para permitir a correção das anomalias em articulação com o município. “Fizemos o plano com o Departamento Municipal de Edifícios e Equipamentos: está concluído, orçamentado, com 20 ou 30 visitas de especialistas para tirar medidas – colaborámos em tudo”, explica. O problema, sublinha, é o tempo que entretanto se perdeu e o peso do calendário legal. As vistorias são feitas de cinco em cinco anos e, sem obras em curso ou sem a resolução das anomalias entretanto identificadas, o cenário complica-se em cadeia. “Sem DIR não nos é possível continuar a ter apoios do Instituto do Cinema e do Audiovisual, apoios esses essenciais para a sustentabilidade da atividade da associação”, resume.

Tiago faz questão de frisar que, para quem olha de fora, a discussão pode parecer apenas administrativa, mas no terreno a realidade é muito concreta. O revestimento da sala está cheio de ácaros, o que obriga mesmo pessoas sem problemas respiratórios a usar máscara; há infiltrações na alvenaria, “ali atrás da tela e outras nas laterais”; carpetes degradados e cadeiras que não estão fixas ao chão. Falta uma central de incêndio autónoma, luminárias adequadas para cinema, uma rampa na bilheteira para cadeiras de rodas, instalação elétrica renovada para as normas do cinema digital e um sistema de aquecimento, ventilação e ar condicionado que permita conforto térmico ao longo do ano, para não ser “frio no inverno e inferno no verão”. A lista de necessidades ajuda a perceber por que razão a palavra “obra” deixou de ser apenas uma promessa repetida e passou a ser uma urgência objetiva.

A cidade e o seu cinema

A tensão não se esgota na questão das obras. O receio é também o de que a inação administrativa venha a comprometer o trabalho de anos, num espaço que se consolidou não apenas como sala de cinema, mas como ponto de encontro, formação e criação de públicos. A Câmara Municipal de Coimbra já se comprometeu com as obras e com a publicação do concurso a curto prazo, mas Tiago lembra que o cenário continua a ser delicado e que seria dramático ter de cessar a atividade para que os trabalhos possam avançar. “Temos tanto talento local que emigrou”, lamenta, numa referência ao modo como muitos profissionais ligados ao cinema acabam por procurar oportunidades noutros centros.

Ao perguntar diretamente à comunidade se Coimbra quer ou não um cinema de bairro, Tiago coloca a questão no plano político e cívico, e não apenas no plano cultural. Cada euro investido no cinema multiplica-se por 18 em impacto económico, com reflexos na hotelaria, na promoção da região e na criação de emprego nas áreas cultural e da comunicação. É uma forma de dizer que a Casa do Cinema não é apenas um espaço de exibição, mas um equipamento que se tornou parte da economia cultural da cidade, com efeitos que extravasam largamente a sala.

Neste dia de aniversário, a Casa do Cinema vive a celebração com associados e parceiros, culminando numa sessão especial com a ante-estreia de Um Poeta. Há bolo, há encontro, há festa, há reconhecimento do caminho feito. Mas há também a consciência de que o futuro depende de uma decisão que não pode continuar a ser adiada. Cinco anos depois, a Casa do Cinema de Coimbra continua a provar que faz falta. Resta agora garantir que possa continuar a fazê-lo.

 

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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