Coimbra e a banda desenhada não são parceiros estranhos. Muitos desenhadores a percorreram, muitos ilustradores a fixaram em pranchas e vinhetas, livros e álbuns lhe foram dedicados. Esta cidade é uma musa, apetece colocar num qualquer balão de fala. Segue preenchida de história e de histórias à espera que lhes peguem em novela gráfica. Um momento-revelação foi o da exposição Coimbra na Banda Desenhada, apresentada no Museu da Física, agora parte do Museu da Ciência, durante o evento Coimbra 2003 – Capital Nacional da Cultura.

Foi produzido um catálogo da exposição que é uma delícia folhear. Encontra-se pepita após pepita. Coimbra foi desenhada por Dino Battaglia, Antonio Hernández Palacios, Pedro Massano, Vitor Péon, José Garcês, Eugénio Silva, Jobat, José Ruy e muitos outros, que contaram a história de Camões, de Inês de Castro, da Rainha Santa, de Santo António, de Martim de Freitas e etc. Também se mostram fanzines políticos criados por estudantes. O lugar escolhido para a exposição também não foi inocente, o próprio museu serviu de cenário a um álbum de banda desenhada (BD) dedicado a Coimbra: O Segredo de Coimbra, de Étienne Schréder.

Algumas peças do museu, como as anamorfoses, são bem identificáveis no livro. Há também outras referências no catálogo, como as personagens conimbricenses que Hergé criou para o Tintim e a passagem de Michel Vaillant por Coimbra. O cartaz da exposição foi desenhado por outro colosso da BD, François Schuiten, que já tinha desenhado Coimbra a propósito de um Congresso sobre as Cidades Obscuras, realizado em 1997.
Um dos autores do catálogo foi João Miguel Lameiras, um nome incontornável da BD portuguesa. Recebeu-nos ao balcão da livraria Dr. Kartoon, da qual é um dos sócios-gerentes, situada a meia subida da rua a quem toda a gente se refere pelo nome errado. Apresenta-se: «Faço praticamente tudo no campo da BD, há mais de trinta anos. Sou crítico, escrevo sobre BD em vários sítios, entre eles o Público. Sou sócio-gerente da Dr. Kartoon desde 2006. Sou editor da cooperativa editorial A Seita, também fui editor da Devir até 2005. Faço curadoria de exposições para diversos festivais, entre eles o Coimbra BD, onde faço também produção e programação. Sou também argumentista de livros de BD, alguns em colaboração com João Ramalho Santos no argumento. Além de muitas outras aventuras em BD, a mais recente das quais é o argumento da adaptação de Amor de Perdição, desenhado por Miguel Jorge».

A Dr. Kartoon foi criada em 1998 por uma belga, a Fanny Denayer, que também criou a editora Witloof (endívia/chicória em neerlandês), para publicar autores estrangeiros em português, sobretudo da linhagem franco-belga. Revelou também um autor de Coimbra, Ricardo Ferrand, que publicou vários álbuns pela Witloof, como A verdadeira história de Jota Cristo ou O homem que não parava de urinar, entre outros. A Witloof faliu e um grupo de clientes ficou com a loja a partir de 2006, comenta Lameiras. «Ficámos com algumas sobras do catálogo, a maior parte estava com uma distribuidora que faliu. O armazém da Witloof era num armazém aqui ao lado da livraria e muitos dos livros estragaram-se depois duma inundação», conta. A página da história virou para dar lugar a um novo capítulo.
Autores actuais
Há desenhadores que se destacam actualmente no panorama local, como André Caetano, que começou por frequentar a Dr. Kartoon. «Quando comecei a frequentar a livraria, além de comprar livros aproveitava para mostrar o meu portfolio e procurava feedback do mesmo, quer com os autores que visitavam a livraria, quer com os donos. Uma dessas pessoas, o João Ramalho Santos, [outro] sócio da livraria, viria a ser director do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra. Anos mais tarde ele convidou-me para ilustrar um livro de BD chamado Uma Aventura Estaminal, e para outros projectos a seguir. Penso que seria muito difícil conseguir esta oportunidade se estivesse em Lisboa, por exemplo, ou por minha iniciativa. Mais tarde, eu, o João Ramalho-Santos e o Lameiras, colaborámos na obra Os Segredos de Loulé».

André Caetano teve que procurar oportunidades noutras cidades, naquela que identifica como uma desvantagem de viver longe dos grandes centros, o estar distante de críticos e de artistas mais experientes. No entanto, para o ilustrador «estar em Coimbra foi fundamental para começar a trabalhar num nicho de mercado que gosto muito, que é a comunicação de ciência».
Rodolfo Mariano, é um autor de BD sediado em Coimbra, onde mantém o atelier ABRACADABRA. Algum do seu trabalho tem sido publicado pela Chili Com Carne, colectivamente com a revista Pentângulo (Ar.Co./CCC), Querosene e, individualmente, com Bottoms Up, o seu primeiro álbum. «[Enquanto] autor-editor também imprimo, publico e distribuo o meu próprio trabalho de forma independente. Comecei por publicar de forma autónoma precisamente pela absurda dificuldade que há em ser-se publicado tradicionalmente. Também participo em publicações de outras pessoas e, brevemente, vou convidar pessoas para participarem nas minhas publicações. Fiz algumas exposições bem-sucedidas e estou sempre aberto a essa possibilidade, com os devidos astros alinhados», conta Mariano, que está actualmente a trabalhar no segundo livro e a publicar duas páginas por semana, à terça e quinta-feira, na página Cloakanddaggerwebcrypt.

Há ainda uma série de outros autores, como Ana Biscaia, Alexandre Esgaio, Carlos Drave, Pedro Morais. Também Mafalda Fernando, artista de BD «maioritariamente de webcomics/webtoon», que «trabalha exclusivamente com editoras e plataformas estrangeiras». Marco Moura, que ganhou uma das edições do Concurso de BD A Cabra/Dr. Kartoon, é uma presença conhecida do meio artístico da cidade. Tantos autores surgiram que o tal catálogo teria de ser renovado. Lameiras chama «pessoal do fanzine» aos nomes que povoam um escaparate da Dr. Kartoon com criações caseiras, à espera de serem descobertas.
Mostra de Banda Desenhada
A Coimbra BD prepara-se para a sua 6º edição, de 25 a 27 de Março. A Mostra de Banda Desenhada arrancou em 2016 e realizou-se anualmente desde então, com excepção do ano de 2021, por razões que nos são (mal) familiares. A organização é da Câmara Municipal de Coimbra (CMC).
João Miguel Lameiras conta o início da história: «Foi uma ideia do Rui Paiva de Carvalho, técnico superior de cultura da CMC, que se lembrou, numa Feira do Livro: “Oh João, e se criássemos um Festival de BD em Coimbra?”. Depois não falámos mais disso até que se lembrou e queria o festival para daí a três meses. Foi feito em cima do joelho. Com o orçamento que tínhamos só trouxemos autores das proximidades: o André Caetano, o Pedro Morais. De 2017 a 2018 o orçamento duplicou, mas nas últimas três edições o orçamento foi o mesmo». Para este ano, falou-se no Convento de São Francisco como espaço para a mostra mas acabou por se manter na Casa da Cultura, dada a indefinição com a mudança de executivo e o contexto de pandemia de Covid-19. Para 2023, «está ainda indefinido mas há vontade nossa e do Pelouro da Cultura, e faz todo o sentido».


Para a edição deste ano, que podem consultar em detalhe aqui e aqui, só há convidados portugueses. Virão João Fazenda, Joana Rosa e Pedro Brito, por exemplo. Filipe Melo estará presente para apresentar o seu último filme e livro e tocará piano na apresentação. João Moreira aka Bruno Aleixo, participará no painel O Humor na BD. Há também o habitual desfile de Cosplay, com concurso. Há sessões de curtas de animação para a família e sessão de desenho ao vivo com modelo Cosplay, coordenado pelo Salão 40. Isto e muito mais, a somar aos pontos de venda de BD e ilustração, às sessões de autógrafos e às exposições.
Outras páginas «bedéfilas»
ABRACADABRA – Ver lateral sobre atelier de Rodolfo Mariano;
Fanzineteca – Fernando Ferreira, também conhecido por Ogata Tetsuo, é outro sócio-gerente da Dr. Kartoon e mantém uma colecção de fanzines na Casa das Artes Bissaya Barreto. «Sempre gostei de coleccionar coisas e sempre gostei de cultura mais alternativa e underground. O acervo já conta com mais de 1200 fanzines catalogados e todos eles são originais», conta o livreiro. Muitos fanzines da colecção são BD mas não só, há também de outros temas;
Ilustríssimo – As livrarias de Coimbra dedicadas à ilustração, Bruaá – Livraria do Convento, Dr. Kartoon e Faz de Conto, juntamente com André Caetano, organizam um mercado de ilustração que acabou por, informalmente, substituir a Coimbra BD em 2021.

A (nona) arte de animar a malta
André Caetano reflecte sobre Coimbra e a BD: «Nunca é demais promover a possibilidade de mostrar o quão incrível a banda desenhada é! No Ilustríssimo temos tido bastantes autores de BD, e o Coimbra BD começa a ser um evento importante no panorama nacional. Gostava que Coimbra investisse mais na BD, na ilustração e na literatura, de uma forma geral. Uma forma de o fazer, é através de apoios à criação e edição, através de bolsas de criação literária, por exemplo. Este tipo de investimento na cultura, dá liberdade financeira aos autores para se concentrarem no trabalho. Existem cidades que apostam nesta arte e têm reconhecimento a nível mundial, como é o caso de Angoulême, em França. Esta pequena cidade, para além de organizar o maior e mais importante evento de BD na Europa, oferece uma residência artística, com estadia de um ano, bem como um espaço de trabalho por um valor simbólico. Outro exemplo a seguir é a Câmara Municipal da Amadora, que apostou na BD como forma de comunicar com os cidadãos». O ilustrador e autor de banda desenhada conclui, emprestando um corolário para o futuro da nona arte em Coimbra: «A BD é uma excelente ferramenta para passar mensagens importantes de forma gráfica e simples. Por que não apostar na BD como meio de passar mensagens importantes?».
