O 25 de Abril muitas vezes é contado a partir de Lisboa — e é verdade que foi na capital que a madrugada de 25 de abril de 1974 ganhou o contorno de revolução. Mas a emoção, o medo e a esperança daquele dia não se ficaram pelos postes da Rua do Carmo: ecoaram em cada cidade, vila e aldeia, e também em Coimbra, onde o fascismo foi resistido, debatido e, no fim, celebrado em praça pública.
Hoje, 52 anos depois, a data continua a pedir reflexão: sobre o que mudou, sobre o que ainda está por fazer e sobre o que vale a pena preservar. A Revolução dos Cravos abriu caminho a uma nova realidade democrática, consolidada depois com a Constituição da República Portuguesa, em vigor desde 1976, e entroncada com o próprio feriado nacional do Dia da Liberdade.
Em Coimbra, estes dias vivem-se de forma intensa, com um programa que junta solenidade, participação jovem, cultura e memória. A cidade assinala o 52.º aniversário do 25 de Abril com uma lógica que mistura rua, política, música e leitura, convidando quem cá vive — ou por cá passa — a parar, observar e participar.
Sexta-feira, 24 de abril: a festa começa à noite
A partir desta noite, 24 de abril, a Praça 8 de Maio transforma-se no epicentro das celebrações organizadas pelo Ateneu de Coimbra. A partir das 21h30, a praça enche-se de grupos e coros que celebram o derrube do fascismo e a conquista da liberdade, num clima de festa e participação.
O grande momento simbólico é a «Queima do Facho», que acontece à meia-noite, com a chama a ser apagada perante toda a população, num gesto que marca o fim da ditadura e o início de outra época. A festa continua depois da queima, com a participação de vários grupos, prolongando a celebração até tarde. Caso o tempo não permita, tudo se realiza no Pavilhão do Palmeira, na Rua Simões de Castro.
Sábado, 25 de abril: solenidade, rua e música
A manhã começa cedo, nos Paços do Concelho. Às 9h30, realiza-se o hastear da Bandeira Nacional na varanda dos Paços do Concelho, com a interpretação do Hino Nacional pela Filarmónica União Taveirense. A sessão solene inicia-se às 9h45, com a intervenção da presidente da Assembleia Municipal, Maria Manuel Leitão Marques, seguindo-se as intervenções dos deputados municipais e o discurso de encerramento da presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa.
Às 11h00, tem lugar a III Assembleia Municipal Jovem, uma iniciativa que aproxima os mais novos da vida cívica, promovendo a participação jovem e a reflexão sobre os valores democráticos junto da comunidade escolar.
À tarde, a celebração desloca-se para a rua: a grande Manifestação Popular parte às 15h00 da Praça da República, com destino à Praça 8 de Maio, onde decorrem concertos a partir das 16h30. A ênfase é na participação unitária: saúde, educação, cultura, trabalho, política internacional e a própria defesa da liberdade são temas que se espera ver em cartazes, faixas e estandartes.
O programa oficial dos Paços do Concelho culmina às 18h00, com um concerto da banda Cara de Espelho na Praça do Comércio, de entrada livre. O coletivo, formado em 2024, reúne músicos com percursos consolidados e tem vindo a afirmar-se no panorama nacional. No seu mais recente álbum, “B”, cruza sonoridades contemporâneas com influências da música tradicional portuguesa e letras de forte dimensão interventiva, evocando os valores de Abril em cada refrão.
Memória em linha: o Centro de Documentação 25 de Abril
Há em Coimbra um lugar pensado para se aprofundar a história desta Revolução: o Centro de Documentação 25 de Abril, na Rua da Sofia. Embora o edifício esteja fechado por estes dias, o espaço tem uma biblioteca digital rica, com cartazes, cartoons, fotografias, flyers e outros documentos originais, muitos deles doados pelos próprios protagonistas da Revolução dos Cravos.
É uma boa altura para, em família, ir à internet, pesquisar com os mais novos, ligar aos avós, se ainda estiverem vivos, e ouvir como foi viver aquela época. Pode ser interessante também desenhar e recortar cravos juntos, para usarem no dia 25 de abril ou pendurarem na porta, lembrando que foi um cravo oferecido por uma senhora a um soldado, antes de ir para o Largo do Carmo, que se tornou símbolo de uma revolução pacifista.
Convidamo-vos a descobrir o 25 de Abril nestas propostas que separamos: não só como efeméride, mas como convite para caminhar pelas ruas de Coimbra, escolher um desses pontos e construir, a partir daqui, o vosso próprio «rosto» de Abril.
