No sábado, o Bixos, em Coimbra, recebeu o INQUIETA, projeto da Bluehouse dedicado ao feminino, com uma programação que começou logo pela manhã e atravessou o dia com diferentes propostas de criação, pensamento e som. Já ao início da noite, perto da hora do jantar, aconteceu o momento da Coimbra Coolectiva com Bia Maria e Lisa Sereno, em formato de conversa intercalada com showcase.

A sessão decorreu num ambiente marcado pelo som das mesas e pelo movimento de quem entrava e saía da sala. Lisa Sereno, artista de Leiria e também designer gráfica, e Bia Maria, de Ourém e professora de formação musical, interpretaram duas canções cada uma e falaram sobre os seus percursos, os métodos de composição e a forma como a voz, a escrita e a presença em palco se cruzam no seu trabalho.

Lisa Sereno apresentou-se como um projeto artístico em construção e explicou que a canção lhe permite ir mais longe do que no quotidiano: “Eu a cantar digo o que eu quiser porque eu faço as canções que eu quiser.” Noutra resposta, resumiu o seu lugar no presente: “Acho que eu também estou em construção.” Bia Maria, por seu lado, falou da escrita e do palco como espaços onde consegue expor-se, mas também resguardar parte do que sente: “Quando subo ao palco e quando posso cantar todas essas coisas, acho que estou a fazer um bocadinho das duas coisas.”

 

 

A conversa passou também pela formação musical e pelo lugar das mulheres no meio artístico. Lisa Sereno contou que a sua relação com a música começou cedo: “No infantário.” Bia Maria falou do percurso ligado ao trompete, ao piano e ao estudo formal de música, destacando que a formação ajuda, mas também pode criar limites criativos. Sobre o papel feminino na criação, Lisa Sereno disse que ouve mais música feita por mulheres e vê nessas vozes referências para o seu próprio trabalho. Bia Maria lembrou, por seu lado, que continuam a existir “questões estruturais” na indústria, que dificultam o caminho de muitas artistas.

Ao longo da noite, ouviram-se “Mystery” e “Strong”, de Lisa Sereno, e “Marcha da Paridade” e “A Roupa Velha”, de Bia Maria. As canções prolongaram o que estava a ser dito e ajudaram a dar forma ao encontro, sem funcionarem apenas como pausas entre perguntas.

Mais tarde, o concerto de Surma acrescentou outra dimensão ao INQUIETA. Em palco, a artista mostrou a energia e o controlo que têm marcado o seu trabalho, conduzindo sintetizadores, computadores, dois microfones e uma paisagem sonora em constante mutação. A sua música move-se entre eletrónica, voz e pulsação rítmica, com uma amplitude que vai do espaço sideral ao fundo do mar, e o resultado é uma atuação em que cada gesto parece reger um universo próprio.

Já de madrugada, quando o INQUIETA terminou com as três DJs da RUC — Isabel Simões, Maria Nolasco e Pêra Roxa —, foi difícil sair dali. A noite fechou em modo dança, com o espaço a transformar-se em pista, palco, auditório, sala de aula e atelier, num final que manteve viva a energia do cruzamento entre escuta, participação e partilha.

 

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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