«Desde que fui mãe acho que me tornei ainda mais feminista», disse Marta Bateira. Estavamos sentadas com a rapper (M7), apresentadora e performer de stand-up comedy num terraço do segundo piso do Salão Brazil, no Largo do Poço, em Coimbra. Minutos antes, a artista tinha recebido enérgicos aplausos da plateia esgotada do espectáculo Quem Acredita Vai na primeira noite do Batom – Festival no Feminino. Foram quase duas horas a transbordar carisma, energia e boa disposição, com muito sexo e palavrões à mistura. «Tornei-me mais feminista para o bem e para o mal, porque o feminismo só faz sentido quando lateja ali uma revoltazita forte contra a desigualdade», comenta a criadora da personagem Beatriz Gosta, baptizada pela amiga e colega na área do rap, Capicua. «Foi graças a ela que me tornei feminista», contou. «Eu era super adormecida, o meu pai nunca me falava nisso e os meus amigos e amigas eram machistas.»

Marta Bateira começou a fazer sucesso no Youtube em 2015. Depois saltou para a televisão, a rádio e agora os palcos de Norte a Sul do país. Não se considera humorista mas admite que tem «uma cena de fazer o bem, de mudar o dia de uma pessoa, mesmo que seja só com uma piadinha». «A vida custa, man», notou. «É fodida a maior parte do tempo. Eu sei que mudo o estado de espírito das pessoas com a minha energia, mas acho que sou mais do que humorista, sou uma pessoa com uma luz, com uma energia que brota.» E é difícil discordar. No espectáculo, não há como: ou se ri ou se ri. Talvez seja preciso ficar a dever alguma coisa ao pudor, mas a empatia da artista tem um poder transformador até sobre as almas mais sisudas, que mais tarde ou mais cedo saltam da cadeira ou ficam naquele desconforto que se sabe que, no fundo, faz bem à saúde e recomenda-se.
«Só fiz sucesso (em 2015) por ser uma mulher a falar aquelas coisas, tas a ver? Foi chocante. Jogou a meu favor mas por outro lado pago um preço. Perdi muitas coisas, as pessoas não me levavam a sério, faziam imensos julgamentos, havia marcas que não queriam estar associadas. Tenho sempre haters. As pessoas acham coisas como que eu sou assim porque sou uma mal amada ou mal fodida, é por aí», explica. A noite em Coimbra é especial. «Já não estava num palco assim há muito tempo e esta cidade é especial para mim, digo sempre que o pessoal de Coimbra é muito louco mesmo, e este sítio o Nuno Lopes, que anda sempre comigo na estrada, já me tinha dito que era a minha cara».

Já tínhamos percebido pela primeira frase que disse no palco: «Isto fede a cultura, gente». Depois foi andar de um lado para o outro com o microfone na mão, descendo e subindo do palco, desembrulhando histórias atrás de histórias que parecem verídicas e fluem naturais, como se tivessem acontecido na noite anterior. «Foi muito gostoso de fazer, quis fazer free style porque encontrei ali um espaço em que a relação com o público permitiu extravasar. Adorei mesmo, o público estava comigo, a divertir-me super.» Não faltaram histórias de encontros falhados, piadas escatológicas e uma comPilação de fotos de pénis recebidas durante o confinamento, altura em que Marta participou nos directos no Instagram Como o Bicho Mexe, de Bruno Nogueira. Foi nessa altura que engravidou, sem ter planeado.
Quem acompanhou as rubricas Beatriz Embaraçada e (Des)Embaraçada sabe como foi. Mais uns pontos a favor da artista para quem nunca tinha ouvido comentar a gravidez e puerpério de forma tão directa e crua, mas Marta Bateira garante que, apesar de se sentir dividida, nos dias de espectáculo a mãe que existe nela não fica necessariamente à porta. «A verdade é que nós mulheres somos várias coisas. Somos a solteira que «traça» um indivíduo, mas também somos aquela para casar, a mãe, a tudo. Já me disseram: «Ai estás com cara de mãe.» E eu penso: «Não bro, o que é que isso quer dizer? Estás a pôr-me num lugar.» Com tudo sobre a mesa, Marta Bateira defende que «a comunicação é vida» e a informação também. Explica que o que vê actualmente é um longo percurso ainda à frente do homem para percorrer, enquanto homem e enquanto pai, é que não há «assuntos de mulheres» e que a ideia da mulher guerreira é romantizada. «Nós só somos guerreiras porque somos empurradas, porque estamos sobrecarregadas o tempo inteiro, estamos cansadas. Eu saio sem a Luísa e perguntam-me onde está a Luísa, com quem deixei a Luísa. O homem sai e a ele ninguém pergunta. Por isso é que festivais como este são importantes.»
O problema da desinformação
«Batom é afirmação, é uma forma de dizer que estamos aqui», atirou Inês Menezes. A comunicadora fez um episódio especial do seu conhecido programa Fala com Ela em directo do jardim da Casa das Artes da Fundação Bissaya Barreto, com a cantora Sónia Tavares. «Este é o tempo de as mulheres terem a sua voz» continua Menezes, ela mesma voz inconfundível da rádio portuguesa, que admitiu que durante muito tempo se sentiu feminina mas hoje sente-se sobretudo feminista. Sónia Tavares, vocalista dos The Gift, lamentou que o excesso de informação tenha aparentemente complicado as cabeça menos informadas ou educadas, e seja gerador do seu próprio contrário: a desinformação. «Hoje em dia já não és feminista és “feminazi”, é complicado a pessoa assumir-se feminista porque está tudo invertido. No início dos anos 2000 fomos mais livres do que nunca e eu não sinto essa liberdade hoje em dia, para cantar ou dizer o que me apetece», atira a entrevistada no dia 26 de Março, Sábado à tarde.

Já dois dias antes, no mesmo local, Rita Marrafa de Carvalho dizia que «nós (comunicadores) temos uma responsabilidade acrescida. Cabe-nos esta formação para conseguir colmatar estas lacunas que temos socialmente. Somos um país que não funciona à mesma medida, temos grandes discrepâncias de acesso à informação, acesso ao esclarecimento, acesso a serviços e a comunicação social é aquela que chega a todos. Nessa perspectiva da homogeneização e da transversalidade e democratização da informação, temos essa responsabilidade. A nossa função essencial é trazer à transparência a verdade dos factos. Informar e descontruir. O problema às vezes dos jornalistas é falarem para os seus pares e não chegarem ao público comum. Temos de lembrar que falamos para pessoas que provavelmente sabem menos do que nós, não vão perceber determinadas terminologias nem conceitos. E esta tradução, às vezes pecando no rigor, é essencial para que o conceito, as ideias, a informação, os esclarecimentos cheguem a todos de forma mais simples. Sim, a responsabilidade é nossa, sim temos falhado redondamente e sim, necessitamos de mecanismos mais apertados que obriguem determinados meios de comunicação social a fazer aquilo pelo qual eles existem.»
A jornalista da RTP moderou a Conversa entre Mulheres com representantes de várias áreas da sociedade coimbrã: Rita Januário, COO da Buildtoo e co-fundadora da Cityoo, Isabel Rosado, co-fundadora e presidente da Associação Palhaços D’Opital, considerada uma das 100 mulheres mais influentes da Europa na área social pela Euclid Network, também Verónica Marques, jurista, coacher e vice-coordenadora do Grupo Amnistia Internacional Coimbra e Adriana Bebiano, professora universitária, investigadora do Centro de Estudos Sociais e co-fundadora e co-coordenadora dos programas de Mestrado e de Doutoramento em Estudos Feministas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

«O que me trouxe aos Estudos Feministas foi Shakespeare», atirou Bebiano no início da troca de ideias que fluiu suavemente e contou com intervenções do público, inclusive masculino. «Comecei a dar-me melhor com a minha mãe depois dos 30 anos e ela já tinha 80 quando me pediu para lhe explicar o que era isso de ser feminista, e ela disse que foi feminista toda a vida sem saber», continuou a académica, certa de que o mundo não se deve dividir entre homens e mulheres e que é urgente educar para os afectos. «Uma mulher empoderada é uma mulher que se conhece a si própria e algumas mulheres com anos e anos de carreira não sabem o seu propósito» lançou Rita Januário, depois de um testemunho importante sobre o seu percurso profissional que passou por um convite para deixar a empresa onde trabalhava com engenheira depois de ter anunciado à chefia que ia ser mãe pela segunda vez. Quando a conversa apontou para as novas gerações, Isabel Rosado notou um factor importante: «As redes sociais trouxeram para a luz coisas que antes não se viam.»

Pelos três dias de Batom em Coimbra passaram também Rita Vian, Claudia Duarte, Catarina Requeijo com a peça Memórias de uma Falsificadora, Joana Espadinha que deu um Workshop de Escrita de Canções e na Casa do Cinema de Coimbra a programação aconteceu com curadoria do Women’s Film Festival – Olhares do Mediterrâneo. Foram exibidos filmes de realizadoras portuguesas, turcas, gregas, inglesas, espanholas e italianas, atravessando as temáticas do trabalho, imigração, precariedade, sexismo, mas também de luta, resistência, emancipação e esperança. A programação paralela incluiu as Conversas FEMINA no Batom, dois momentos efémeros que juntaram artistas da cidade à conversa com Vanessa Augusto, autora do podcast FEMINA (@femina_podcast/femina.pt), e ainda a tatuadora Margarida Simões, Silvia Franklim do projecto Segue-me à Capela, a cantora Vânia Couto e a artista plástica, visual e performativa Vanda Madureira.
Em parceria com o Saco da Baixa, projecto do colectivo Há Baixa dirigido a mulheres com mais de 55 anos e jovens artistas, reuniram-se diferentes gerações em torno dos lavores manuais ancestrais e das novas tecnologias, da aprendizagem partilhada, da transmissão de experiências e memórias. «As senhoras foram super acessíveis, conseguimos pôr o trabalho delas aqui na Casa das Artes, fizeram várias peças em que tiraram fotografias delas com batom e depois bordaram por cima. Foi mesmo muito giro», descreve Tânia Monteiro. O trabalho de serigrafia bordada foi feito no Café Santa Cruz e o resultado pode então ser visto na Casa das Artes, lado a lado com a obra de street art da artista Aheneah.

Pegadas que ficam de um festival pioneiro no país, organizado pela Produtores Associados (Festival Solo, Festival Às Vezes o Amor, Festival Política) e co-financiada pela União Europeia através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, enquadrado no COMPETE 2020 (Programa Operacional da Competitividade e Internacionalização).
Sobre o festival de mulheres «inspiradoras» de áreas como a música e o cinema, a comunicação e o empreendedorismo social, a investigação e o jornalismo, o teatro, a produção de conteúdos digitais e o activismo feminista, a produtora Tânia Monteiro fez um balanço muito positivo e disse que «era uma ideia que já tinha na cabeça há algum tempo» e sempre quiseram «descentralizar de Lisboa e do Porto». «A ideia era fazer um festival no feminino mas acessível a todos, com temáticas que não são puxadas nem fechadas, são activistas mas quanto baste, e quando começámos a procurar parceiros encontrámos em Coimbra os ideais», completa. À Casa das Artes da Fundação Bissaya Barreto e Salão Brazil, juntou-se a Casa do Cinema de Coimbra. «Também procurámos parceiros locais como o Saco da Baixa e a Casa das Caldeiras para fazer um trabalho na comunidade e levar o festival a mais pessoas em Coimbra, além de tentar dar palco a artistas de cá que não têm tanta visibilidade.»
«Esperemos que se repita mais vezes ao ano e seja itinerante, que possa ir a outros sítios do país, descentralizando e trazendo mulheres inspiradoras nos locais onde ela s vivem e a diferença que elas fazem na comunidade onde vivem», disse Rita Marrafa de Carvalho. Tânia Monteiro diz que a ideia é voltar, com nomes de homens no cartaz e uma abordagem à comunidade LGBT. «Coimbra gostaríamos de manter, com certeza, pelo menos uma parte. Fomos super bem recebidos mesmo na cidade.»
