Fica numa antiga estação elevatória e de tratamento de água para  abastecimento da rede pública, dentro do Parque Dr. Manuel Braga, mas não uma estação qualquer. Trata-se da primeira estação de captação de água municipalizada do país. À porta do Museu da Água lemos na inscrição «1922», que é a data de abertura desta antiga estação que se manteve activa até à década de 80.

Ana Santos faz as honras. «Ainda é possível ver os quatro poços de captação primitivos», aponta a coordenadora da instituição, notando que noutros tempos a água captada no rio Mondego «era bombeada para uma zona de bombagem na Rua da Alegria que depois fazia novamente a sua bombagem para os dois primeiros reservatórios de Coimbra, o da Cumeada e o do Jardim Botânico». O último foi desactivado quase logo depois da construção, por causa de uma fuga, e hoje é também «espaço de visita e de fruição». 


Como é que a «casinha do parque», como era conhecida, ganhou nova vida? Foi em 2007, através do programa Pólis e na sequência de uma intervenção em toda a zona ribeirinha da cidade de Coimbra. «Houve aqui uma intenção das Águas de Coimbra em pegar neste espaço e transformá-lo num espaço de educação ambiental e de alguma oferta cultural», recorda Ana Santos.

Com 15 anos de existência, completados a 22 de Março, o espaço tem conquistado públicos e conta já 236 mil visitantes. De público escolar foram quase 62 mil. «Temos uma média de mil visitas por mês. Para um espaço tão pequeno em Coimbra, quando há uma oferta cultural tão vasta, acho que o balanço não podia ser mais positivo», afirma a coordenadora. 

Viagem ao passado

O projecto de intervenção nesta antiga estação de água foi concebido pelos arquitectos Alberto Lage e Paola Monzio, vencedores de um concurso público nacional. Foi inaugurado em Março de 2007. Salta à vista uma estrutura de vidro que antecipa a entrada no edifício original com dois pisos. Passando a recepção do museu e entrando então no edifício original, o primeiro piso surge como uma varanda para o andar inferior e não passa despercebida uma grande estrutura de metal com a inscrição: «Força 3000Kg». Mas já lá vamos.

Junto a uma exposição sobre o património da água em Coimbra, Ana Santos explica que «são os primórdios da água» na cidade e destacando obras como o Aqueduto de São Sebastião. Popularmente conhecido como Arcos do Jardim por causa da localização contígua ao Jardim Botânico da Universidade Coimbra, foi mandado construir em 1570 pelo rei D. Sebastião para abastecer de água a Alta da cidade, aproveitando o traçado de um precedente aqueduto romano. Também não podia faltar a referência às aguadeiras ou tricanas de Coimbra, que levavam a água do rio até à casa das pessoas.


Há equipamentos interactivos no museu, mas estão desligados devido à pandemia de Covid-19. Neste primeiro piso podemos ainda encontrar exemplares de velhos contadores de água usados pela cidade, uns de uso industrial e outros de consumo doméstico, e outros há espalhados pelo museu que ganharam uma segunda vida, transformados em meios de transporte num esforço de «reutilização e, ao mesmo tempo, o criar pelo belo», segundo a coordenadora do espaço. Começamos a descer para o piso inferior e ficamos abaixo do nível da água. «Nas últimas cheias, tivemos água a 1,60m. Quando tirámos a água tínhamos enguias», recorda Ana Santos, em jeito de curiosidade.

Deparamo-nos com uma sala de multiusos que tem acolhido exposições, debates e outras actividades. O chão é tem uma parte em vidro que fica mesmo por cima das tubagens originais. Olhando para cima, de novo o perfil metálico com a inscrição: «Força 3000Kg». Noutros tempos, era esta estrutura que permitia levantar máquinas para reparação dos equipamentos, explica a nossa guia. Uma entre várias marcas do tempo nesta viagem entre o passado e o presente, além de corrimões e escadas com degraus mais curtos e menos profundos.

Quase a chegar ao fim da visita, seguimos por um túnel, hoje utilizado como área de exposição, para encontrar uma surpreendente esplanada sobre o Mondego. Literalmente em cima do rio, tal como o museu a esplanada é de acesso gratuito e a coordenadora descreve-a como «um espaço para fruição» sob o espelho de água do Mondego.

Educar para criar hábitos

É no Museu da Água que a empresa municipal Águas de Coimbra foca todo o programa de responsabilidade social, baseado na «educação para a ecologia e para a sustentabilidade». Quem é o público-alvo? As crianças e as escolas, sobretudo, mas o Museu de Água quer chegar também aos adultos. Para os mais novos, as gerações do futuro, as actividades desenvolvidas são variadas e estendem-se para lá das quatro paredes. De terça a sexta-feira, as actividades com as crianças são aqui mas à segunda-feira «vamos nós, Museu da Água, às escolas e levamos actividades focadas na água, nos resíduos ou, mais recentemente, na questão dos plásticos e dos microplásticos. São estes os temas que trabalhamos na escola. Cada um dos temas é subdividido em 26 actividades», especifica Ana Santos.

No âmbito destes temas, o Museu da Água convida a várias descobertas e experiências. Os mais novos podem fazer filtrações ou observações de organismos, medições do PH da água ou perceber como se trabalha a limpeza dos oceanos num derrame. Mas há mais. «Procuramos falar dos microplásticos e de tudo o que não deve vir para dentro da sanita ou para os ralos em casa, como seja o lava-louça (o azeite, o óleo e alguns desperdícios alimentares, cotonetes) que é o problema número 1 dos nossos oceanos», atira Ana Santos. «Ainda se utiliza muito a casa de banho como caixote do lixo e este é um trabalho de sensibilização que fazemos nas escolas», alerta.

Com os adultos, o trabalho de sensibilização parte de uma aposta mais cultural, com a promoção de exposições, debates ou mesmo conferências, dando sempre primazia a tudo o que esteja relacionado com a ecologia e o ambiente. «Entendemos que é mais fácil chegar ao público em geral pela arte e convocá-los à mudança de hábitos pela arte e não por alguma mostra de objectos, que simplesmente contam a memória daquele objecto. Uma exposição convoca as memórias de cada um», explica.

As actividades do museu

A intenção do Museu da Água é chegar ao maior número de pessoas sempre com a tónica da sustentabilidade e da educação ambiental. Este ano, por ocasião do Dia Mundial da Água, a 22 de Março, avança com uma iniciativa pioneira. Pela primeira vez, o museu «vai sair de portas e invadir outros palcos» através de uma iniciativa que vai chegar aos utentes do Instituto Português de Oncologia.

A data também é assinalada com a exposição Silêncio! Uma rã mergulha dentro de si, de Elizabeth Leite, às 17h, e a apresentação do livro de Joana Maciel, com ilustrações de Mafalda Norte, O livro centra-se no ciclo da água e «em aventuras de Coimbra à Foz do rio Mondego». Faz parte de uma colecção de três e é uma edição bilíngue, que tem como protagonista a mascote do museu, Plim, uma gota de água.

O plano anual de actividades para o museu arranca sempre no Dia Mundial da Água e, para este ano, estão previstas várias actividades para os mais novos e famílias, em parceria com a associação Recortar Palavras. A saber, a apresentação do novo livro da ilustradora Carla Nazareth no dia 26 de Março, oficinas da Páscoa (10 de Abril), do Verão (3 de Julho) e do Outono (23 de Outubro). Em Agosto, o Museu da Água reserva o dia 14 para Contos do mundo, contados e musicados, com Alex Lima e Esmeralda. 

As (re)invenções do museu 

A pandemia da Covid-19 foi sinónimo de adaptação para todos e o Museu de Água não foi excepção. Em 2020, o museu foi obrigado a fechar portas mas não deixou de trabalhar a temática do ambiente. Sem cancelar qualquer actividade programada, a internet foi o veículo utilizado para chegar aos vários públicos, nomeadamente ao mais jovem. «Fizemos um conjunto de vídeos utilizando as bancadas que convidavam à experimentação e partilhámos nas redes sociais. Alguns eram de partilha normal, os outros fazia-se [uma chamada via] Zoom e convidámos a fazer connosco, ao mesmo tempo, em casa, o que nós fazíamos no museu. Foi uma forma de trabalhar com as escolas», recorda Ana Santos. 

As inaugurações de exposições passaram também a ter transmissão em directo, por streaming, para minimizar o contacto físico. Uma iniciativa que, diz Ana Santos, teve uma adesão positiva: «Posso dizer que aquando da reabertura do museu, enquanto estávamos a apresentar a exposição da Xana Abreu, entraram no directo mais de mil pessoas. Isso acaba por nos mostrar que estávamos presentes e as pessoas também queriam voltar ao museu e ver o que estava a acontecer». O trabalho de readaptação, segundo a coordenadora, permitiu ao museu continuar próximo do público e de chegar a mais pessoas. Mas será que esta nova forma de comunicar veio para ficar? «Vamos ver. Acho que também temos de ir avaliando, porque vamos percebendo qual o volume de visualizações», remata Ana Santos. 

As obras recentes de requalificação do Parque Dr. Manuel Braga deixaram o Museu da Água mais escondido mas as perspectivas de futuro são elevadas. «Assim que o jardim abra, o museu vai encher-se de gente».

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